quarta-feira, 18 de julho de 2012

A ARRISCADA COERÊNCIA DE LUIZ ANTÔNIO MELLO


Ter coerência, num país marcado pelo pretensiosismo, pelo oportunismo e pelo pragmatismo, como o Brasil, é uma atitude arriscada, que quase sempre encontra reações de indignação e revolta.

Vendo o documentário A Maldita, sobre a Fluminense FM, lançado há cinco anos, mostra depoimentos dos principais envolvidos da emissora niteroiense, incluindo, evidentemente, seu idealizador, Luiz Antônio Mello.

Vários episódios conhecidos no livro de Mello, A Onda Maldita, são também descritos no documentário, entre eles o fato de que o coordenador decidiu cortar uma música de James Brown pela metade. Ele também havia se recusado a tocar Stevie Wonder na emissora e também não aprovava que a Fluminense FM tocasse reggae, a não ser como elemento híbrido em bandas de rock tipo Police, Specials e UB 40.

Mello sente muito respeito e admiração por esses artistas. Ele reconhece os talentos dos artistas de soul music. Reconhece o mérito de artistas pop. Mas, em nome da coerência, essa "dama" tida como "chata" e "radical demais", Mello se recusava a tocá-los na Fluminense FM por um único motivo: não eram artistas de rock.

A atitude de LAM causou reações indignadas e furiosas. O coordenador da Flu foi visto como "preconceituoso", "roqueiro-jaquetão" (termo que tem o mesmo sentido "sectário-radical" de "comunista-cuecão" atribuído a esquerdistas radicais) ou coisa parecida, e muito do preconceito que a Flu passou a ter nos anos 90 se dava a essa postura roqueira.

Afinal, dos anos 90 para cá, o que se promoveu, ideologicamente, como "atitude rock", embora a princípio soasse interessante - o Rock Alive, de um Maurício Valladares muito amigo de LAM, mas discordante do "purismo" que este defendia do rock, certa vez, começou uma edição com Clementina de Jesus - , depois rumou para um ecletismo chato e vago, um "purismo" do "impurismo", espécie de purismo às avessas.

De repente, ter "atitude rock" ficou algo entre a polêmica gratuita, a produção artificial de escândalos e, quando muito, uma obsessão por barulho a todo custo. O que se conheceu por "cultura rock" entre 1997 e 2006, antes que a Internet abra os olhos de muitos jovens, foi um horror.

De um lado, havia o ecletismo vazio de que "cultura rock" era "tudo": música eletrônica, hip hop, reggae, até brega. Havia o fascínio dos críticos musicais - nessa época a crítica musical vivia o oligopólio do Rio Fanzine e do Escuta Aqui/Folhateen na formação do gosto musical dos jovens, após o colapso da Bizz - por aqueles artistas "ecléticos" da linhagem pós-Prince que misturavam hip hop, soul, música eletrônica, roupas fashion das mais espalhafatosas e muitos factoides na imprensa. Essa era a "atitude rock" que eles acreditavam. Para estes, "rock" não ia além de Black Eyed Peas, Civilles + Cole, Massive Attack.

De outro, haviam os playboyzinhos que só queriam saber de guitarras barulhentas, mas num contexto domesticado. Eram rebeldes sem causa, mas compensavam isso pelo pavio curtíssimo que tinham, se enfurecendo à menor crítica. Puristas de uma forma mais estúpida, eles achavam que "roquenrol" era o tripé grunge-poppy punk-poser. Ou seja: nada podia ir além de Alice In Chains, Offspring e Guns N'Roses.

Se os "ecléticos" dessa turma tinham as rádios comunitárias - e seus programas de "rock" que tocavam tudo, menos rock - , os "puristas" dessa turma tinham a dupla rockaneja 89 FM / Rádio Cidade, pouco antes de seus produtores "radicalmente rock" migrarem com gosto para o "funk", o sambrega e o breganejo, que outrora diziam "sentir ódio mortal".

A desinformação desses dois grupos era tanta que, com o tempo, até as rádios mais convencionais. Com o tempo, as atuais rádios pop se encheram dos subprodutos dessa leva toda, como a Lady Gaga para os "ecléticos", e o NX Zero e Fresno, para não dizer o Restart, para os "puristas". Porque as causas que os dois grupinhos defendiam nada tinham de nobres, o suficiente para o mercadão mergulhar direto nelas.

Hoje em dia, querem empurrar o brega para a MPB com a mesma perspectiva estúpida de outrora. Sempre a "diversidade" sem critérios, a gororoba como princípio de "democracia" cultural ("democracia" no sentido DEM do termo). O que impede que a cultura se enriqueça com a valorização das verdadeiras identidades culturais, sufocadas num ecletismo que impede que conheçamos a fundo cada cultura.

É mais uma luta. E, como as outras, com muitos reacionários no caminho. Mas temos que enfrentá-los, um dia eles cansam. Por exemplo, a turminha que espinafrou Luiz Antônio Mello hoje se perdeu na multidão de coroas deprimidos. E LAM continua divulgando suas preciosas lições, não só de cultura rock, mas de cultura, política e sociedade em geral.

Portanto, fica nossa gratidão ao hoje blogueiro da Coluna do LAM. Vale a leitura sobre o que Luiz Antônio Mello anda escrevendo hoje em dia.

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