terça-feira, 12 de junho de 2012

O POVO POBRE FAZIA MÚSICA BRASILEIRA DE QUALIDADE


Existe um consenso em que o maior paradigma da MPB de qualidade é o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda.

Certamente ele não é o único e nem a MPB de qualidade é necessariamente associada às classes mais intelectualizadas ou de maior poder aquisitivo.

Em outros tempos, qualquer favelado poderia fazer um samba de qualidade. A situação de outrora e a dos dias de hoje mostra um contraste preocupante da situação das classes populares em relação ao tema música popular.

Antigamente, os favelados tinham tanto conhecimento de samba que sua veia criativa explodia em obras de grande força artística, tanto que eram as elites que corriam atrás dos compositores das favelas para tomar suas músicas, não raro "roubando" as autorias.

E hoje? Sem tirar o mérito das elites universitárias - quando universidade era sinônimo de inteligência e sofisticação cultural - que, nos anos 60 e 70 passou a se influenciar pelos ritmos populares, e nas quais se inserem artistas como Chico Buarque, Djavan, Flávio Venturini, Alceu Valença, Joyce e outros, o povo pobre também podia fazer cultura de excelente qualidade.

Aliás, "podia" nem deveria ser a expressão. Afinal, foi através das classes populares que o Brasil desenhou sua identidade cultural, suas caraterísticas próprias a partir da fusão de elementos indígenas, africanos e europeus. Outras elites colaboraram para desenvolver a nossa identidade, mas foram as classes pobres que deram contribuição decisiva neste processo.

Hoje em dia, é o contrário. Se existem artistas de verdade, eles existem, mas eles encontram as portas do mercado fechadas. Enquanto isso, outros cantores e músicos, mais canastrões, acabam passando a dianteira, vendendo a falsa imagem de "pagodeiros pop" ou mesmo de pretensos "sambistas modernos".

Estes "sambistas" estão muito mais próximos dos seresteiros de segunda categoria que "roubavam" composições dos artistas dos morros do que destes. E, se os sambistas de outrora eram bastante autorais, os ídolos do "pagode romântico" precisam de repertório alheio para passar uma imagem aparente de "artistas sérios".

O caso de um Alexandre Pires é um exemplo. Num país que teve grandes artistas negros de alguma forma envolvidos com a modernização do samba como Agostinho dos Santos (que cantou Bossa Nova), Jorge Veiga (que juntava samba de breque e sambalanço), Noite Ilustrada, Roberto Silva, para não dizer o célebre Wilson Simonal, o ex-integrante do Só Pra Contrariar é um exemplo da bregalização que afasta o povo de sua própria cultura, "substituída" pelo poder radiofônico e televisivo das oligarquias.

Mais próximo de Odair José e José Augusto do que de Wilson Simonal, Alexandre Pires era um dos ídolos do "pagode romântico" ou sambrega, junto a Belo, Luís Carlos (Raça Negra), Netinho de Paula, Waguinho, Péricles (Exaltasamba) e Leandro Lehart, entre outros.

Era mais um engodo que colocava, em compassos estereotipadamente de samba, o cancioneiro brega de Waldick Soriano, Odair José e Michael Sullivan e Paulo Massadas, seguindo o caminho trilhado pelo "sambão-joia" e relançado pelo cantor Elson do Forrogode, cantor do sucesso "Talismã", de Sullivan & Massadas, regravado também pela dupla breganeja Leandro & Leonardo.

Adotados pela Rede Globo, Folha de São Paulo e revista Caras, os ídolos do "pagode romântico", a exemplo de outros neo-bregas dos anos 90, passaram a ganhar um banho de loja, de tecnologia e de profissionalismo. O que não os fez mais artistas nem mais espontâneos.

Pelo contrário, acabaram sendo amestrados pelo mercado, representando o filão da "MPB burguesa" que os "aristocráticos" artistas da MPB, que fizeram um êxodo das grandes gravadoras, e tornaram-se ainda mais submissos às regras do mercado.

Aí há o caso de Alexandre Pires com seus paletós, sua coreografia latinizada, o disco ao vivo do SPC que imitava a estética do Acústico MTV, o eventual apadrinhamento de cubanos anti-castristas, a apresentação para George W. Bush, muitos covers oportunistas de sucessos da MPB, e tudo o mais que o faz um ídolo conservador, não menos brega do que quando ele fazia parte do SPC no começo dos anos 90.

Tentando soar "sofisticado" num tributo a Lupicínio Rodrigues produzido pela Rede Globo, às custas de outros músicos e arranjadores no especial Som Brasil, Alexandre Pires deixou a máscara cair quando se envolveu numa música de cunho machista que, mesmo por acidente, acabou sugerindo alusões ao racismo, conforme ação movida pelo Ministério Público. E que trazia de volta aquele mesmo cantor brega da "barata da vizinha".

Belo, Netinho de Paula e Leandro Lehart também tiveram seus outros exemplos. Os do Exaltasamba, como os já ex-membros Péricles e Thiaguinho, também. Afinal, todos embarcam no tendenciosismo de mercado, só considerados "verdadeira MPB" para quem acredita que MPB é só uma questão de lotar plateias e estar em evidência na mídia. Mesmo aparecendo em Caras.

Mas hoje, infelizmente, o que se entende por "cultura popular" é controlado pelo poder das oligarquias do rádio, da TV e do mercado do entretenimento. E que estabelecem até mesmo regras de "evolução artística" que, em vez de promover o verdadeiro reconhecimento da cultura popular, transforma ídolos bregas em artistas amestrados, que nem sempre acertam quando seguem as manobras do "deus mercado".

Daí a urgência de muitos de evocar Chico Buarque como um paradigma da boa música, que um dia, talvez, possa finalmente ser apreciada pelas classes pobres, que poderão conhecer o verdadeiro patrimônio musical de seus antepassados...

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