quinta-feira, 21 de junho de 2012

NA VIDA ADULTA, SER JOVIAL É, PARA MUITOS, UMA TORTURA


A vida adulta é uma chatice. Além das pessoas perderem aquela sensibilidade e inocência de antes, perde-se também a espontaneidade, o prazer, mesmo os privilégios deixam de ser valorizados de forma verdadeira, apenas mantidos como um troféu guardado na estante por nenhuma serventia senão a de uma simples exposição simbólica.

Quando se chega aos 40 anos, há a tentação terrível da sisudez. As mulheres passam a ter um chilique de não quererem assumir a idade e de evitarem ser joviais. E os homens passam a ter dificuldade até mesmo de sorrirem com o entusiasmo de outrora.

As mulheres ficam preconceituosas até consigo mesmas. Passam a sentir nojo de homens carinhosos, achando que isso é grude. Se queixam quando são desprezadas, mas reclamam de elogios. Se entram nos 40 anos, passam alguns anos dizendo que têm 34 até não poderem mais esconder. E, em compensação, estufam o peito para dizer que deixarão de apreciar certos prazeres "por causa da idade".

E os homens? Em nome de um estilo "racional" e "maduro", eles passam a calcular até suas próprias emoções. No lazer, então, parecem umas múmias conversando sobre opiniões pedantes de política, economia, cotidiano, cultura. Um querendo parecer mais inteligente do que o outro, quando todo mundo na verdade só pegou a agenda setting das notícias obtidas na véspera.

Quando chega uma pessoa dizendo que está na hora de "viver de acordo com a idade", eu, mesmo nos meus 41 anos de vida, torço o nariz. É sinal de que uma pessoa deixou de ser legal para se tornar uma pessoa chata.

Se colocarmos a velhice como paradigma de vida, o perfil convencional do quarentão equivaleria à primeira infância e o do cinquentão seria a pré-adolescência e a adolescência. Para os mais jovens, um profissional de 55 anos parece "maduro", "sensato" e "seguro", mas diante dos mais idosos não passa de um moleque metido achando o maior barato ter cabelos brancos e andar vagarosamente pelas ruas.

Fala-se do perfil de quarentões e cinquentões ainda considerado tradicional. Já não é mais tão dominante do que antes, e já existe o drama de haver, numa mesma geração de homens nascidos na década de 1950, pessoas que são muito sisudas - quando são profissionais liberais, executivos e empresários - e pessoas que são muito joviais - como músicos, jornalistas, poetas e atores surgidos no teatro - , num verdadeiro "conflito de uma mesma geração".

Como vimos nesse blogue, ver que um Serginho Groisman é mais velho que um Almir Ghiaroni torna-se estarrecedor, se vermos que este é muito mais sisudo que aquele. Ou então ver que, enquanto os ingleses nascidos nos anos 1950 lançaram o punk rock, ou, quando muito, um rock psicodélico mais melodioso (no caso dos que iniciavam suas carreiras nos anos 60), os brasileiros da mesma geração, da parte dos que se tornaram médicos, empresários, executivos, economistas, publicitários etc, preferiu ser o "rabo do cometa" que passou pelos anos 1940.

Por isso há até um certo pedantismo nostálgico, não uma nostalgia natural de quem realmente se identifica com o passado - como vemos Ruy Castro, nascido em 1948 mas tirando de letra os referenciais culturais anteriores ao seu nascimento - , mas um saudosismo tendencioso feito mais para impressionar as pessoas e, sobretudo, os mais velhos.

Afinal, os cinquentões que são médicos, empresários, executivos, economistas, publicitários etc, uns até se tornando sessentões de primeira viagem, brincam de "ser velhos" para soarem iguaizinhos a seus professores, mestres e antigos patrões. Ainda sonham com a Nova York de 1947 (num intervalo pacífico entre o pós-guerra imediato e o macartismo), pautando seus comportamentos em ícones do passado como Humphrey Bogart, Paul Newman, James Stewart e Gene Kelly, para não dizer o manjado Frank Sinatra.

Esses "garotões" nascidos nos anos 1950, e que muitas vezes são casados por moças nascidas nos anos 60 e 70, tentam dar a impressão de que passaram o período de 1968 a 1972 ouvindo standards de Hollywood dos anos 1940 e imitando os gestos de Cary Grant para impressionar as meninas. Nada disso. Eles ouviam rock da pesada, e, quando muito, escutavam sambalanço e dançavam ao som de "Nem Vem Que Não Tem", de Wilson Simonal, "Eu Quero Mocotó" de Erlon Chaves e "Fumacê" de Golden Boys. Para não dizer o manjado "País Tropical", de Jorge Ben (hoje Jorge Ben Jor), mesmo na versal de Simonal.

Envergonhados por que hoje não dá para ser um "coroa" como aqueles que eles viam nos seriados de TV dos anos 70 e nos anúncios publicitários das revistas da mesma década, eles raramente aparecem agora nas colunas sociais que até cinco anos atrás os acolhia de braços abertos.

Mas hoje colunismo social não é mais o empresário tal ou o médico tal com sua "senhora" numa noite de black tie e red carpet (haja expressões em inglês no jargão da hi-so), mas desfiles de moda cada vez mais pop, atores de TV pegando onda na praia, galãs de bermudão e tênis e até mesmo a alegre vida dos já há muito enriquecidos ídolos do brega-popularesco, usufruindo do luxo com que tanto sonharam.

Em todo caso, os sisudos born in the 50s ainda servem de referência para os poucos sisudos nascidos na década posterior, quarentões que, em certos casos, viram cinquentões de primeira viagem. Não tão antiquados do que seus "titios" da década anterior, os profissionais liberais, executivos e empresários nascidos nos anos 60 ainda carregam muito de sua falta de ânimo com a vida e seu apego à mística profissional, que os faz ficarem formais até em situações informais.

E essa turma inclui homens da minha idade, já que o moleque que faz este blogue também é um homem de quarenta anos. Mas são homens que passam a ficar meio fora de forma, e a sentir dificuldade de, no lazer, a fazer coisas que, no começo dos 20, eles eram capazes de fazer até por impulso.

Ver que, por exemplo, eles dependem da presença de um adolescente ou criança para certas atividades de lazer é bastante vergonhoso. E a falta de intimidade com o simples ato de se divertir - não se fala da diversão alienante, mas da natural necessidade humana de lazer - , que os leva à preguiça e à acomodação até na apreciação de bens culturais, torna-se algo constrangedor para mim.

Qual será a "minha turma"? A que fica parada bebendo uísque e conversando papos pedantes sobre política e cultura: A das gatas maravilhosas de 39 a 43 anos que não querem ser joviais, não gostam de carinho e que, quando dizem a mim "precisamos nos ver, sim, é claro", querem na verdade dizer "você é insuportável e não quero contato com você".

Dessa forma as pessoas continuam se envelhecendo da pior forma. Para quem tem uns 40 e 50 anos, ficar grisalho e perder o vigor juvenil é o maior barato, e brinca-se de ser velho através de uma sisudez vaidosa e autocontemplativa. Mas chega a velhice e esse "brincar de ser velho", a última reserva de criancice de gerações quase nada joviais, transforma-se num drama que inclui solidão, melancolia e até perda de memória.

Daqui a pouco os sisudões born in the 50s não se lembrarão mais de referenciais pouco manjados dos anos 40...

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