domingo, 10 de junho de 2012

A DESNACIONALIZAÇÃO DA MPB


A MPB, massacrada por uma sutil campanha intelectual para dar lugar a um hit-parade à brasileira, pode dar lugar a uma desnacionalização da música brasileira, que deixaria de ser cultural para se tornar apenas um "pop brasileiro" para competir com o hit-parade dos EUA e Reino Unido.

É só notar como está a música brasileira de hoje, sem um grande nome com força artística para defender as culturas locais. Depois do Clube da Esquina, e isso foi há 40 anos, a MPB não viu um grande movimento ocorrer, com a única exceção do Mangue Bit recifense. E, mesmo assim, seu maior mentor, Chico Science, faleceu no auge da carreira, em 1997.

O que existe hoje é uma dicotomia entre uma MPB mais eclética e intelectualizada e um brega-popularesco cuja produção "artística" não vai além de rascunhos malfeitos de cultura brasileira. Os primeiros, embora cultos e bem informados, são obedientes ao mercado. Os segundos, então, são mais ainda, vão ao sabor dos ventos mercadológicos.

Mas o que preocupa é que mesmo a MPB autêntica pós-1993 está mais de olho nos intelectuais de Nova York do que das riquezas do próprio Brasil. Como se não bastasse, hoje os antigos ritmos populares tão sabiamente produzidos pelas classes pobres, agora são um privilégio das classes abastadas de formação universitária.

O problema não está nos fatos da cultura popular ser apreciada pelas classes abastadas ou haver receptividade de influências estrangeiras na nossa cultura. No primeiro aspecto, vemos que um Chico Buarque de Hollanda assimilou ritmos populares de forma brilhante, ele não iria substituir os sambas nos morros, mas tem o direito de renovar o samba com sua visão pessoal e criativa.

No segundo aspecto, a influência estrangeira, se usada de forma espontânea mas crítica, sem a subserviência deslumbrada do que vem de fora, pode enriquecer e tornar mais atual e dinâmica uma expressão cultural, embora isso não substitua as tradições culturais locais, antes promovesse um diálogo aberto entre o local e o estrangeiro e o novo e o antigo.

Mas o que se vê, hoje, é a radicalização da receptividade estrangeira, tanto na MPB autêntica, quanto no brega-popularesco. A MPB das gerações atuais está, aos poucos, substituindo a vocação de defender a cultura brasileira por um arremedo a cada ano mais superficial de "MPB eclética", mais próximo de um pop adulto à brasileira. É a MPB "feijão com arroz" que carece de espontaneidade e brilho, virando mais uma linha de montagem sobre "como fazer MPB".

No brega-popularesco, então, a coisa é mais gritante. Enquanto sambas, forrós, modinhas de viola e afoxés aparecem diluídos em forma caricatural e superficial, eles são ofuscados pelas influências estrangeiras que aparecem não como complemento, mas como colonização cultural das mais gritantes.

O exemplo mais ilustrativo disso é o tal forró-brega, que detrói qualquer sentido de regionalidade cultural, ainda que supostamente tenha surgido em nome desta. De ritmos regionais, nada existe, tudo não passa de uma colcha de retalhos que envolve disco music, country music, ritmos caribenhos e pop dançante em geral. Até a sanfona não é mais a nordestina, mas a gaúcha.

DESCULPAS ESFARRAPADAS

A intelectualidade etnocêntrica - Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Ronaldo Lemos e companhia - tenta investir em desculpas esfarrapadas para justificar a desnacionalização da música brasileira.

Apostando na retórica excessivamente relativista, esses verdadeiros "urubólogos" da cultura brasileira tentam minimizar os efeitos tentando dizer que não existe uma desnacionalização, mas uma "reavaliação dos conceitos de culturas nacionais".

Eles tomam como fonte de argumentos as mesmas perspectivas globalizantes do discurso neoliberal. Mas, como querendo tirar o corpo fora de qualquer argumento contrário, eles tentam desmentir que defendam um hit-parade brasileiro em detrimento da preservação da "velha" cultura popular.

Tentam dizer que o "deus mercado" está morto, mas na prática defendem a sua sobrevida mais enérgica. Usam como pretexto a crise da indústria fonográfica, tentando nos fazer crer que pequenos selos fonográficos com mentalidade tacanha e mercenária são "gravadoras independentes", quando elas são as que mais dependem da lógica que movimenta a grande indústria fonográfica.

É como se nos tratassem feito tolos, como se essas gravadoras "indie" (sic) nunca fossem crescer e virar "majoritárias" como uma Warner ou Universal Music. Elas não crescem por falta de dinheiro, mas se crescerem viram "grande indústria" da mesma forma, pela mesma mentalidade mesquinha que une uma Warner e um selo pequeno de Belém.

Mas para um Pedro Alexandre Sanches que acha que uma Som Livre é tão "indie" quanto a Baratos Afins, quanto mais uma Som Zoom Discos do Nordeste, questionamentos como o nosso viram pó. Essa intelectualidade bate o pé e tenta afirmar que os mercenários e nada idealistas selinhos fonográficos do Norte e Nordeste são "independentes" apenas por não terem escritórios na Avenida Paulista e muito menos em Los Angeles.

Só que os fatos mostram para onde o discurso "anti-mercado" da intelectualidade festiva vai. No final, acabam afirmando aquilo que dizem negar. Defendem o mercado da forma mais neurótica, tanto quanto um figurão do PSDB ou da revista Veja, nos veículos da mesma velha grande mídia que diziam combater, de forma mentirosa, em suas palestras bastante aplaudidas.

No final da festa, eles irão para a Rede Globo e Folha de São Paulo louvar o "deus mercado". E provarão que sua visão de "flexibilização da cultura brasileira" não é mais do que uma mera forma de adaptar a cultura brasileira, sobretudo à música, às regras competitivas da economia neoliberal. E o povo que, obedientemente, vá seguir as regras do mercado ditadas pela mídia "popular" controlada pelas oligarquias.

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