sábado, 16 de junho de 2012

AS INVENCIONICES DE PAULO CÉSAR ARAÚJO


Há um ditado popular que diz: "Quem conta um conto, aumenta um ponto". Quanto à chamada intelectualidade etnocêntrica que domina os círculos de palestras, os meios acadêmicos e as páginas escritas em nosso país, eles obtiveram muitos pontos através das invencionices e teses confusas sobre a cultura popular brasileira.

A canatrice e o charlatanismo historiográfico de Paulo César Araújo - que serve de "guia" para as abordagens "etnocêntricas" de Hermano Vianna e para as pregações "militantes" de Pedro Alexandre Sanches, entre outros - criou verdadeiras lorotas históricas que muita gente engoliu sem verificar, seduzida pelo discurso de "coitadinho" de PC Araújo.

Muito antes dele ser desmascarado por Roberto Carlos, Paulo César Araújo era o "deus supremo" da intelectualidade que trabalhava pela defesa desesperada da música brega. Roberto Carlos pode ser conservador e andou bregalizado nas últimas décadas, além da criatividade ter se esvaziado dos anos 80 para cá. Mas o ídolo capixaba foi coerente quando barrou a escalada sensacionalista do tendencioso historiador, que é muito menos brilhante e bem menos talentoso que a fama tanto alardeia.

Só que a intelectualidade etnocêntrica teve que dar um jeitinho para driblar as circunstâncias. Se antes seus "pensadores" e sua turma de simpatizantes endeusavam Roberto Carlos por ser o símbolo da "moderna cultura de massa" que deslumbrava os pós-tropicalistas, eles tiveram que, de uma forma tímida, "hostilizar" o cantor para defender Paulo César Araújo, que se aproveitou disso para fazer sua choradeira de sempre.

Mas Paulo César havia se projetado através de uma grande lorota. A de que os ídolos cafonas, como Waldick Soriano, Dom e Ravel, Benito di Paula e Odair José, eram "cantores de protesto". Meio "sem querer, querendo", PC Araújo "admitiu" no seu prefácio que os ídolos cafonas eram "despolitizados", mas ao longo do livro insistia na tese de que a música "Eu Não Sou Cachorro, Não", sucesso de Waldick que dá o nome do livro de PC, era uma "canção de protesto".

Araújo teimava em afirmar que os ídolos cafonas eram rebeldes que incomodavam os generais. Se baseou num maniqueísmo tolo em que, de um lado, havia uma oficialidade coesa que comandava o regime ditatorial, e, de outro, de uma sociedade que sempre se opôs incondicionalmente à ditadura militar.

Sabemos que isso não ocorreu de verdade e que mesmo entre os generais da ditadura militar havia muitas divergências. E, no caso da sociedade civil, sabemos que havia um emaranhado de tendências ideológicas bastante divergentes.

Isso se refletia até mesmo na Censura Federal, em que muita coisa foi censurada por frescuras moralistas que nada tinham de direitismo político, mas apenas de complexos pessoais de quem censurou tal obra. É até irônico que o livro Cães de Guarda, de Beatriz Kushnir (Editora Boitempo, 2001), tenha surgido na mesma época que o livro de Araújo, para explicar que a Censura Federal não era bem assim tão "coesa".

Na Censura Federal, havia desde censores que apenas tinham a consciência de cumprirem ordens, e outros que queriam mesmo reprimir e censurar. Eram servidores públicos, e uns eram mais generosos, outros mais inflexíveis.

Além disso, criou-se um mito de que pornografia, palavrões e alusões a sexo e outros "desvios morais" eram vistos como "subversivos". Pior: essa visão foi difundida por PC Araújo até hoje, quando sabemos que muita gente ultrarreacionária também usa drogas, fala palavrão, comete estupros, faz pornografias, e continua fiel ao seu moralismo direitista que continua "medieval" em sua essência.

O próprio Odair José reclamou da imagem de "rebelde" trabalhada por PC Araújo. E o lobby de Araújo e da atriz Patrícia Pillar (esta, uma estrela da Rede Globo) fez retirar os vídeos de uma entrevista de Waldick Soriano no programa TV Mulher em que o cantor brega elogiava a ditadura militar e atacava o feminismo.

Afinal, a "revisão histórica" do brega encontraria um sério incômodo nesses vídeos. Sobretudo quando se trabalhava numa imagem de Waldick Soriano ao mesmo tempo "coitadinha" e "combatente". Desmascarar o direitismo de Waldick seria condenar o plano dessa "revisão" ao fracasso.

É até estranho que parte dos intelectuais que defendem tanto essa "revisão histórica" do brega se alinhem tendenciosamente à esquerda ideológica. Acabam cometendo sérias contradições de posturas, sobretudo quando se trata de regulação da mídia e busca da verdade histórica dos anos de chumbo. Acabam adotando uma postura esquizofrênica, que diz: "Verdade histórica até para minha sogra, eu aceito totalmente. Mas, para Waldick Soriano, nunca!!! Regulação da mídia, até para meu vizinho, dou todo o meu apoio. Mas para a Valesca Popozuda, eu digo não!!".

Mas aí, a essas alturas PC Araújo tomou o gosto pelo sucesso e "orientou" o estudante Gustavo Alonso para escrever um livro sobre Wilson Simonal bem diferente do ótimo livro que o jornalista Ricardo Alexandre escreveu.

É sempre válido um livro que busque reabilitar a imagem arranhada do grande Wilson Simonal, mas o caráter tendencioso do livro acabou vazando, tanto pelo maniqueísmo irreal que se fazia entre Wilson Simonal e Chico Buarque (promovido a uma espécie de "vilão" no livro), quanto pela tese fraudulenta de que a rebeldia de Chico Buarque teria sido inventada pela RCA Italiana (!).

A tese, trabalhada por Alonso, foi sugestão de Paulo César Araújo, que deixou subentendido sentir um ódio sombrio à MPB esquerdista dos anos 60. É até estranho como parte da intelectualidade de esquerda quis endeusar PC Araújo, quando ele claramente veio com essa verdadeira "urubologia" digna de um articulista de Veja.

Mas até Pedro Alexandre Sanches, o discípulo assumido de Paulo César Araújo, já mostrou claramente suas influências de Francis Fukuyama e Fernando Henrique Cardoso. E também compartilha, com Araújo, sua missão de confundir em vez de esclarecer. Afinal, para um país como o Brasil, ainda bastante problemático, é o obscurantismo que lota plateias e atrai prestígio com muita facilidade.

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