quinta-feira, 10 de maio de 2012

QUEM É QUE TEM MESMO INICIATIVA NA VIDA?


A vida adulta tem dessas estranhezas. A gente até imagina certas situações e vê o quanto nem sempre o adulto é que decide por conta própria na vida, por mais que ele pareça ser dotado de liderança e capacidade de decisão.

Vamos ver duas situações. Uma mostra um grupo de profissionais liberais e empresários, durante a festa de aniversário do filho de um deles, numa noite de um sábado, no salão de festas de um apartamento, que possui aparelhos de lazer como um pebolim.

Outra situação mostra um menino de cerca de dez anos, sozinho na sala de sua casa, posicionado diariamente a um documentário político em DVD, que o garoto de alguma forma foi estimulado pelas circunstâncias a ver diariamente na televisão.

Na primeira situação, nota-se que os homens reunidos estão perto de um pebolim, dentro de um contexto de festa e de lazer. São empresários, advogados, economistas, médicos e engenheiros reunidos para bater papo. Eles falam sobre política, artes, esportes, cotidiano, não raro com comentários pedantes, como se um quisesse provar que é mais inteligente que outro.

Na segunda situação, o menino, que já consegue manejar com facilidade o aparelho de TV e o tocador de DVD, se habituou a colocar o DVD do documentário político que ele se interessou em ver talvez por conta da educação recebida na família e pela linguagem acessível e instigante do documentário.

Digamos que o documentário foi "descoberto" pelo menino por alguma palavra-chave dada por sua professora de História em sua escola, e que o debate feito entre ela e os alunos tenha inspirado o interesse pessoal do menino em ver o DVD. E ele vê o DVD sozinho, porque os pais lhe permitiram manejar o tocador de DVD.

No caso dos pais que se reúnem na festa de aniversário do filho de um deles, no entanto, o pebolim aparece ali, sem alguém que brinque nele. Os pais não se interessam. Lá estão eles prometendo a solução para os buracos nas ruas, a avaliação pedante de artes plásticas - quem é que entende mais de Van Gogh no grupo? Vá saber... - , a solução para os conflitos no Oriente Médio, os projetos para o crescimento econômico.

É como se, para eles, não bastasse ser empresário, médico, economista, advogado ou engenheiro. Eles querem agora serem críticos de arte, governantes, historiadores, cientistas políticos, agentes políticos. Ou uma versão frustrada deles. Eles estão ali para se distraírem, é um momento de festa, mas viciados na racionalidade extrema de suas profissões, eles só estão ali para beber uísque e praticar pedantismo.

Qual a chance de um desses homens brincar de pebolim por conta própria? Praticamente, nenhuma. O único estímulo provável é haver alguma criança ou adolescente brincando de pebolim para que se motive a um homem adulto a brincar junto. Alguém viu um médico de 55 anos chamar o colega de mais ou menos a mesma idade para brincar de pebolim ou praticar jogos eletrônicos? Pouco provável...

Já o menino de dez anos via o documentário por conta própria, e, depois de várias sessões vendo o documentário, que, digamos, seja dividido em três longas partes divididas em cada linque do menu do DVD, passou a entender completamente seu conteúdo, mesmo tendo dez anos de idade.

Da mesma forma que vemos na prática de Informática, onde não raro há verdadeiros webmasters ou analistas de menos de 15 anos de idade, o menino passou a entender de ciência política sem que a presença de algum adulto por perto lhe inspire a ver o documentário político.

Já no caso de adultos considerados capazes de decisão e inciativa próprias, eles dependiam da presença de alguma criança ou adolescente para que pudessem utilizar de algum brinquedo numa situação mais apropriada para isso.

Neste caso, venceu a "imatura" criança, que está mais capacitada para decidir alguma coisa na vida do que os homens supostamente dotados de decisão e iniciativa.

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