terça-feira, 1 de maio de 2012

OS 35 ANOS DA RÁDIO CIDADE


Há 35 anos, a Rádio Cidade surgiu como um paradigma original de radialismo jovem, com um perfil pop que pode não ter sido revolucionário, mas criou significativas mudanças dentro da veiculação das chamadas paradas de sucesso no rádio FM do Brasil.

Quem não vive de memória curta sabe que a Rádio Cidade viveu sua melhor fase entre 1977 e 1984, quando virou o paradigma do hit-parade brasileiro, numa linguagem simpática e despretensiosa.

A rádio começou a perder o caminho em 1985, quando, na carona do primeiro Rock In Rio, contratou alguns profissionais da Fluminense FM e foi brincar de "rádio rock", numa postura bem mais tímida e limitada em relação àquela que adotou uma década depois.

A Rádio Cidade, nos anos 80, passou a receber chacotas do público roqueiro, porque não era do ramo, pegou carona por puro oportunismo e ainda por cima para ouvir as músicas tocadas, tinha que aguentar a falação dos locutores em cima das introduções e finais, e até mesmo os cortes das músicas antes do final. Isso ocorria até mesmo no programa 102 Decibéis, em 1985, num especial com os Smiths, em que tive que aguentar uma música do grupo inglês sendo cortada antes do final.

Mas tudo isso era fichinha em relação à pior fase da Rádio Cidade. Depois de voltar para o pop convencional, apesar do gueto radiofônico chamado Novas Tendências - um excelente programa, mas cuja duração foi "podada" pela Cidade de duas para uma hora por cada domingo - , a Rádio Cidade, mais uma vez, tentou pegar carona com o fim da Fluminense e desbancou outras rádios com mais competência para herdar a rádio niteroiense no segmento rock.

Na verdade, a Rádio Cidade, se herdou alguma coisa da Fluminense FM, foram os defeitos da fase decadente desta, entre 1991 e 1994, só que apoiados por um departamento comercial impecável e uma "tropa de choque" de internautas e produtores que, com a Internet, passaram a atacar violentamente qualquer crítica feita à emissora dos 102,9 mhz.

O reacionarismo extremo - que, no âmbito midiático, se vê hoje nas páginas da revista Veja - da chamada "nação roqueira" da Rádio Cidade era feito para complementar a péssima performance da emissora no segmento rock, feita à revelia de qualquer realidade concreta da cultura rock do Brasil e do restante do mundo.

Mas a arrogância extrema e extremamente temperamental dos adeptos da dita "rádio rock" tiveram seu preço e a rádio perdeu audiência e reputação. Chegou-se ao ponto da chamada "nação roqueira" esculhambar os clássicos do rock, como Who, Beatles e Led Zeppelin, e de defenderem a tese de que para trabalhar em rádio de rock NÃO se devia curtir rock, sob a desculpa de que isso garantia um bom profissionalismo.

Ora, nem em sonhos essa tese faz sentido. É o mesmo que dizer que alguém que não gosta do que faz trabalha melhor. Isso derrubou violentamente a fase pseudo-roqueira da Cidade, não sem despertar revolta dos seus adeptos, alojados numa comunidade do Orkut onde despejavam vaidade e reacionarismo.

Felizmente, tudo isso passou. A Rádio Cidade havia dado lugar à OI FM, que, mesmo dentro de um perfil eclético, era mais criativa e menos conservadora que a antecessora pseudo-roqueira. Mas seu formato, além de ter sido incompreendido, foi prejudicado pela péssima administração da operadora de telefonia OI, com um desempenho irregular na operação de telefones celulares.

Com o recente fim da OI FM, vários candidatos vieram para preencher a vaga. De igrejas evangélicas a buscar novos espaços midiáticos ao próprio "fantasma" da Rádio Cidade pseudo-roqueira a animar os playboys da Barra da Tijuca.

Aí veio a Jovem Pan Sat, cuja Jovem Pan 2 (Rádio Panamericana FM) surgiu até antes da Cidade, mas só adotou a linguagem jovem em 1978, depois de dois anos com uma programação "romântica". E passou a rasteira nas seitas eletrônicas e nos roqueiros-farofas e tomou o passe dos 102,9 mhz. Neste sentido, a JP acertou, e cheio.

Desse modo, a Jovem Pan Sat pode ter até eliminado a marca "Rádio Cidade", mas honra muito mais o formato original da emissora do que há dez anos atrás, quando ocorria o inverso, o mesmo nome mas sem o formato original.

E hoje a Cidade faz 35 anos sem aquele perfil junkie de 1995-2006. Ainda bem. Nem toda rádio tem vocação para ser rádio de rock. A vocação da Rádio Cidade é o pop. Mesmo que tenha que usar um outro nome e uma outra marca para isso. Em todo caso, ficam nossos parabéns à rádio nesse seu aniversário.

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