terça-feira, 22 de maio de 2012

A 'INTELLIGENTZIA' NÃO QUER FOLCLORE, QUER HIT-PARADE


1945. Premiados com a colaboração com os Aliados na Segunda Guerra Mundial, alguns pracinhas brasileiros foram agraciados com uma viagem para Washington, nos EUA, para conhecer não somente a famosa Casa Branca, mas também a National War College, referência na educação militar estadunidense.

Inspirados com o que viram, na volta ao país os militares brasileiros decidiram fundar a Escola Superior de Guerra, que estabeleceu estratégias e difundiu princípios que inspiraram a reação golpista de abril de 1964 e sua consequente ditadura de 21 anos.

É uma amostra de como as elites se deslumbram com o que existe lá fora. Mas querem imitar apenas as novidades do exterior pela forma, enquanto, no conteúdo, o Brasil continua sendo o mesmo país provinciano de sempre.

Hoje em dia, a intelectualidade badalada em nosso país - Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches e outros - se deslumbra com o hit-parade, o "desfile" de sucessos comerciais difundidos pela indústria cultural e trabalhados pelo mercado. Uma "cultura" com um quê de industrializada, mais artificial do que artística, cujos méritos não vão além dos êxitos econômicos e da visibilidade.

Evidentemente, esses intelectuais criam um discurso falacioso, cheio de inverdades. Eles juram que a "cultura de massa" brasileira é "o novo folclore", "a verdadeira cultura popular", "o nosso ativismo social" e outras desculpas. Mas, por trás dessas inverdades, que em certos momentos chegam a ser escancaradas mentiras, existe o desejo de substituir a cultura brasileira por uma tradução "tupiniquim" do hit-parade de lá fora.

Até temos esse hit-parade, que é o brega-popularesco na sua forma musical, a Música de Cabresto Brasileira. Que emula ritmos estrangeiros dentro de uma brasilidade estereotipada, superficial e caricata.

Seus métodos são os mesmos da música comercial norte-americana, com o controle ferrenho do empresariado, com a sucessão de ídolos por vezes ingênuos, por outras arrogantes, cuja única missão é atrair o maior número de consumidores possível, consistindo numa popularidade que muito tem de quantidade e nada de qualidade.

Mas, apesar desse comercialismo explícito que produz de Odair José a Mr. Catra, há aquela costumeira mania do pretensiosismo que não existe, pelo menos de forma intensa, no similar norte-americano. Aqui o comercialismo chega a ser desmentido, de forma demagógica, sob o claro objetivo de mascarar as coisas ou dar ao processo da indústria cultural um caráter preciosista, pelo menos para tentar evitar qualquer questionamento.

Dessa forma, cria-se um discurso um tanto cafajeste que chega a negar o óbvio, como a influência do mercado, a atuação da grande mídia, a baixa qualidade artística - defendida sob o eufemismo da "rebelião (?) do mau gosto" - , além do próprio caráter por vezes submisso dos ídolos envolvidos.

GOROROBA DISCURSIVA

O discurso chega ao ponto da hipocrisia. E, em se tratando da blindagem intelectual, eles criam toda uma gororoba discursiva que utiliza as alusões mais delirantes, aproveitando da desinformação que toma conta da maioria da opinião pública.

Mesmo nomes como os modernistas Oswald de Andrade e Mário de Andrade, ou um poeta do Brasil colonial como Gregório de Matos, são indevidamente usados para defender o "paradão de sucessos" brasileiros.

São argumentos originais distorcidos, ao bel prazer de uma intelectualidade que, em que pese o poderio que possui na mídia e no meio acadêmico, cria uma retórica confusa que mistura apelos publicitários, linguagem panfletária e sofisticados recursos discursivos do New Journalism, História das Mentalidades e do cinema independente norte-americano.

Tentam vender nosso hit-parade, já bastante ultrapassado e canhestro que o dos EUA, como se fosse "vanguarda" e "cultura superior". Criam argumentos de todos os tipos, até mesmo "urubólogos". E ainda cometem o atrevimento de vender o mesmo discurso para a velha grande mídia (sobretudo Rede Globo, Folha de São Paulo e Caras), que aceita com gosto, e para a mídia progressista, que até pouco atrás aceitava de boa-fé, sem verificar suas armadilhas.

Mas hoje já surgem mais questionamentos sobre a tal "cultura de massa", que a "urubologia" cultural já começa a reclamar da "intolerância", e, apertando o alarme de suas "casas-grandes" acadêmicas, recorrem mais uma vez à imagem de "coitadinhos" dos seus ídolos.

Que ninguém se engane. O objetivo real não é transformar ídolos diversos como Odair José, Gaby Amarantos, Mr. Catra e Michel Teló, ou os falecidos Wando e Waldick Soriano, em "vanguarda cultural". O objetivo verdadeiro é o mesmo de qualquer empreendimento capitalista, o desejo de expandir mercados sem medir escrúpulos em sufocar os demais segmentos.

Por isso, cria-se uma choradeira ideológica, hoje tão conhecida. Mas que apenas quer colocar o brega-popularesco que lota plateias, vende muitos discos e aparece nas rádios e TVs e maior audiência em cenários e redutos alheios.

Esses cenários e redutos incluem principalmente os da MPB autêntica, cujos músicos são expulsos de seus próprios cenários, de seus próprios ambientes e de suas próprias rádios, enquanto casas de espetáculos, faculdades, rádios de MPB se reduzem à mera extensão da mesmice dos galpões "mega shows" e das rádios FM mais popularescas.

Para a intelectualidade badalada, bonito é Michel Teló, Gaby Amarantos, Odair José e a Gaiola das Popozudas tocarem nas rádios de MPB. Isso com todo o espaço que eles têm nas rádios mais popularescas. O que esses intelectuais não toleram é que se ouça músicas de qualidade como Jacob do Bandolim, Turíbio Santos, Baden Powell, Sílvia Telles, Guinga e Toninho Horta nas suas próprias rádios. A MPB é que tem que ser banida das rádios de MPB.

E nós é que somos os "intolerantes".

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