sexta-feira, 4 de maio de 2012

ESTAMOS PERDENDO AS REFERÊNCIAS


O que têm em comum a música caipira de raiz e o hip hop original? Nos últimos momentos, faleceram duas figuras distantes entre si no tempo e no espaço e que nada tinham a ver um com o outro, o cantor caipira Tinoco e o músico e rapper dos Beastie Boys, Adam Yauch.

Tinoco, da dupla Tonico e Tinoco, uma das maiores duplas de música caipira do Brasil, eram mais antigos, uma dupla até anterior, em tempo, à norte-americana Everly Brothers, embora praticamente tivessem feito o auge do sucesso juntos, nos anos 60. Tinoco já havia falecido em 1994, e Tonico hoje de madrugada, ambos com doenças naturais da velhice.

Mas Adam faleceu jovem, aos 47 anos, lutando contra um câncer desde 2009. Tendo iniciado os Beastie Boys com Mike D (Michael Diamond) e Ad-Rock (Adam Horovitz), Yauch, conhecido como MCA, desde 1979 (a princípio, sob o nome The Young Aborigines, que viraram Beastie Boys em 1981) gravavam discos com hardcore, soul e sobretudo hip hop, tendo gravado até mesmo um álbum instrumental, o excelente The In Sound from Way Out, de 1996.

A princípio, os três cantavam letras machistas, mas depois preferiram usar o senso de humor enquanto alternavam a carreira musical pela militância humanitária, sobretudo em defesa da independência do Tibet. Os Beastie Boys, além disso, estavam entre os grandes nomes dos primórdios do movimento hip hop dos EUA, nos anos 80.

O que vitima, aliás, tanto a música caipira quanto o hip hop, é a mediocrização cultural que vivemos nos tempos modernos. A mercantilização da música, a sucessiva avalanche de ídolos mais preocupados com o marketing pessoal, com o sensacionalismo, do que com a música, só recorrendo aos clássicos dos seus gêneros quando o oportunismo pede.

O hip hop atual é feito por nomes mais preocupados em promover escândalos para alimentar o sensacionalismo midiático, e muitos rappers e cantores possuem a voz lapidada, até demais, pela tecnologia vocoder, que faz a voz ficar robotizada. E, musicalmente, não há aquelas sampleagens empolgantes, aquele ritmo vibrante, os sâmpleres do hip hop de hoje mais parecem trilhas incidentais para seus encrenqueiros intérpretes narrarem suas aventuras machistas e criminosas.

E, na música caipira, o que se vê não é apenas a decadência explícita das gerações mais recentes, que falam em bebedeira (como Fernando e Sorocaba), surgidos da intragável geração "universitária" que hoje compra espaços no mundo inteiro através de Michel Teló.

Mesmo os mais veteranos, como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Daniel e Leonardo - este último vivendo recentemente um drama pessoal por causa de seu filho - , que deturparam violentamente a música caipira nos anos 90, foram beneficiados pelo vício brasileiro da memória curta, sendo convertidos, de forma bastante equivocada, em "cantores de raiz".

Até mesmo a TV Cultura já decadente, vendida para o PSDB, para o Grupo Folha e o Grupo Abril, impôs a invasão desses breganejos no antes intocável "Viola Minha Viola", conduzido por Inezita Barroso e Fernando Faro, de tão preciosas contribuições para nossa cultura.

Os dois tiveram que receber os breganejos dos anos 90 que, canastrões, sabem muito bem parasitar o cancioneiro caipira original quando o oportunismo pede, não sem pieguice nem a sua natural cafonice.

Mas gravar covers de clássicos da música brasileira é muito fácil, difícil é criar coisas próprias à altura e com a natural sinceridade e identificação verdadeira com a causa.

Na mediocridade hoje vigente, vemos maus alunos se recusando a seguir as lições musicais que deveriam seguir. Só seguem tardiamente, quando se enriqueceram com as porcarias que produziram, quando fizeram fama e sucesso com elas. Depois, só para justificar seu sucesso, e também para evitar serem jogados ao ostracismo por artistas bem mais competentes, tentam pegar carona nos clássicos de seus gêneros, os mesmos que nunca se atreveriam a gravar no começo de suas carreiras.

Por isso, mais que o falecimento de um músico caipira ou de um músico de hip hop, o que se vê é a perda das referências originais de cada um desses estilos, a perda de cada mestre que os seguidores de cada gênero deveriam admirar e aprender. Ficam as obras, mas eles não estão aí mais para contar história. Certamente, não serão os medíocres canastrões de hoje que irão fazê-los, mesmo pegando carona em referências originais de forma tendenciosa e hipócrita.

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