terça-feira, 15 de maio de 2012

EMICIDA E A "TRANSGRESSÃO" COMO MARKETING



Há transgressões e transgressões. Na chamada "cultura de massa", a banalização de atos de rebeldia faz com que certos atos considerados "transgressores" acabem se tornando inofensivos para o "sistema", que até se alegra em ver ídolos aprontando "escândalos" e causando "polêmicas", porque isso acaba beneficiando o mercado.

Recentemente, o rapper "fora do eixo" Emicida, numa apresentação em Belo Horizonte, fez um discurso defendendo a invasão no terreno Eliana Silva, na região do Barreiro, na capital mineira, nos seguintes termos: "antes de mais nada, somos todos Eliana Silva, certo? Levanta o seu dedo do meio para a polícia que desocupa as famílias mais humildes, levanta o seu dedo do meio para os políticos que não respeitam a população e vem com 'noiz' nessa aqui, ó. Mandando todos eles se f..., certo, BH? A rua é 'noiz'".

A atitude, que para os leigos poderia soar "revolucionária" e "brilhante", acabou dando na natural reação da prisão de Emicida, por conta do ato de desacato às autoridades. E isso mostra o quanto é preocupante a atitude dos "fora do eixo" defendendo a pirataria, a baderna, o fim do registro dos direitos autorais, o fim do policiamento comunitário, o subemprego, a prostituição e outros processos de degradação social que em nada favorecem o progresso das classes populares, antes a fixassem numa situação degradante para o qual os FdE só pedem a aceitação da sociedade "mais esclarecida".

A atitude do Emicida não é muito diferente do que a que ocorreu há muito no hip hop dos EUA. E o Emicida nem é assim tão agressivo, se comparado com os funqueiros. Esses já fizeram gestos assim há um bom tempo e já emularam, em território brasileiro, os atos mafiosos do chamado gangsta rap. Emicida apenas fez de forma mais banalizada o gesto dos funqueiros, protegidos dos FdE.

Se bem que a atitude de Emicida também é tão "polêmica" quanto as atitudes de Lady Gaga, a maior especialista atual da "transgressão" como marketing, da criação de falsos escândalos que não passam de produção de factóides para impulsionar o sucesso e obter visibilidade através da polêmica forjada. E isso não vai mudar o mundo, não faz trazer a justiça social, não abre a consciência das pessoas. E uma coisa é protestar contra o abuso e a violência policiais, outra coisa é pedir o fim da polícia ou dizer que ela que se dane.

Nesse discurso, muita gente sem consciência exata das situações da vida acabou condenando a instituição polícia só porque alguns policiais cometem crimes e corrupções. Foi através dessa retórica "apaixonada", que em primeira instância rende aplausos entusiasmados, que muita gente, nos primórdios da redemocratização do Brasil, pediu o fechamento do Congresso Nacional.

E é justamente essa "rebeldia" de fachada que poderá revelar posturas ainda mais golpistas. Emicida, como os "fora do eixo", andam de mãos dadas com a Rede Globo, a Folha de São Paulo e o Grupo Abril. Para eles não interessa a regulação da mídia (ação "preconceituosa" e "censora") nem o fim da revista Veja ("liberdade de imprensa, mermão").

Eles não querem mudar o Brasil, só querem usar o discurso da moda para obterem visibilidade. Brincam de serem inimigos do "sistema" para depois estarem integrados a ele. O que Isaías Caminha iria dizer se vivesse nos dias de hoje...

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