quinta-feira, 3 de maio de 2012

COMO O BRASIL ESTÁ ATRASADO...



Parece exagero, mas não é. Para muita gente no Brasil, os anos 60 ainda não chegaram. O episódio recente da paniquete Babi Rossi, durante o programa Pânico na Band (TV Bandeirantes), foi considerado uma "humilhação" até para seus fãs.

Sim, meus amigos, estamos em 2012 e vemos esse comportamento digno do começo da década de 1950, anterior até mesmo ao famoso filme de 1957, Santa Joana, de Otto Preminger, com a saudosa Jean Seberg no papel-título.

Ver que 55 anos se passaram e, no "moderno" Brasil que se gaba estar certo de entrar no Primeiro Mundo em 2014, ainda existem reações dignas do tempo do macartismo, não bastasse a trolagem que se vê nas redes sociais da Internet, é assustador.

Como eu havia comentado quando reproduzi o texto do blogue Maria da Penha Neles, não há mal algum em uma mulher ficar careca ou de cabelo curto. Casos como o de Natalie Portman mostram isso, e existem mulheres que ficam muito charmosas com cabeça raspada ou com corte "joãozinho". Os anos 60 mostraram que isso é possível, sem obrigar as mulheres a deixarem de ser femininas com isso.

Mas o machismo que envolve paniquetes, mulheres-frutas, ex-BBBs etc é um machismo ainda arcaico, de internautas ultra-reacionários que ainda acham que um homem não gostar de mulher-fruta é "gay". E gritam "oia", jocosamente, quando outros homens os chamam de machistas. Pois é, e ainda sou ridicularizado quando digo que dados internautas ainda vivem, na melhor das hipóteses, nos tempos do golpe de 1964.

O machismo quer que as mulheres fiquem sempre de cabelos compridos. Não pensa na diversidade dos penteados, na liberdade de escolha. Os próprios homens, segundo o machismo, não podem ter direito de escolha. Se uma mulher assedia um homem e ele não está a fim dela e não vê nela a menor afinidade, ele poderia muito bem recusá-la. Mas para os machistas, isso seria "covardia" e "atestado de homossexualismo".

É gente arcaica, ainda, que até causa vexame quando ainda fala em valorizar as "boazudas" por causa da tal "liberdade do corpo". Que moral eles têm para se apropriar de um dos termos da Contracultura dos anos 60, se eles praticamente parecem viver nos primórdios do macartismo, aquela onda reacionária do senador norte-americano Joseph MacCarthy e cujos equivalentes brasileiros foram o golpe de 1964 e o AI-5.

Até porque eles seguem o velho machismo de botequim, que talvez tenha sobrevivido pela era do jornal Pasquim e seus intelectuais em boa parte com remanescentes da visão machista da mulher, em que pese a boa receptividade que tiveram com uma personalidade como a atriz Leila Diniz.

Mas nem isso os "modernos" internautas que adoram mulheres-frutas e paniquetes (que são o que há de "mais sofisticado" nas mulheres-objetos brasileiras, algo como a "Victoria's Secret" das "popozudas") têm. Eles são muito mais machistas e mais retrógrados que muito machista e retrógrado dos anos 50. Só estão protegidos pela relativa pouca idade - quando muito, têm no máximo uns 35 anos - e pelo largo uso de Internet que os faz cobras de uso prático na Informática, já tirando de letra um Windows 7.

Mas, ideologicamente, coitados, parece que nem as transformações dos anos 60 chegaram ao conhecimento deles, apesar de falarem em "liberdade do corpo" quando falam em "popozudas", sem saber direito a diferença entre as mulheres-frutas e o Living Theatre (um dos que apostavam realmente na verdadeira liberdade do corpo), só para citar um ícone da Contracultura. Até porque "nossos" internautas, coitados, tão desinformados das coisas (apesar de se gabarem por se acharem o contrário disso), nunca ouviram falar de Living Theatre, nem mesmo através dos relatos de seus pais ou avós.

É constrangedor que se veja como "humilhante" o fato de uma mulher ficar de cabeça raspada. Nos tratamentos de câncer, por exemplo, isso é muito menos humilhante do que ver a doença se agravar sem controle.

Muito desse atraso que vive boa parte da opinião pública no Brasil se deve pela influência da velha grande mídia, que apavora não apenas pelo reacionarismo político de seus comentaristas, mas pela degradação cultural que promoveu de forma intensa a partir dos anos 90. E que produziu neo-machistas que de "neo" estão apenas a condição biológica de suas gerações.

Isso porque esses "modernos" rapazes chegam a ser mais antiquados do que muito antiquado de 55 anos atrás, quando Jean Seberg pode ter passado por controvérsias maiores, mas que pelo contexto de época, eram mais compreensíveis que a desnecessária polêmica com Babi Rossi.

Que venham mais moças carecas e de cabelo curto para diversificar a beleza feminina.

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