quarta-feira, 30 de maio de 2012

BREGA E A SOFISTICAÇÃO DO JABACULÊ


A música brega e seus derivados - incluem até mesmo a pseudo-sofisticada axé-music e o pseudo-arrojado "funk carioca" - são marcados pela natural mediocridade artística, pelo baixo valor cultural e pelo fato de que, para suas canções serem audíveis, é necessário artifícios que vão da publicidade midiática a outros "estimulantes".

O crescimento do brega-popularesco, desse modo, nada tem a ver com espontaneidade nem com um suposto reconhecimento da cultura das classes populares, que no fundo aparecem apenas como meros consumidores e empregados de um mercado de entretenimento comandado por pessoas ligadas à velha grande mídia, ao latifúndio, à política mais conservadora, às multinacionais.

E esse crescimento, portanto, se deu através do jabaculê, essa prática abjeta de corrupção, sob vários aspectos, que ocorre na mídia do entretenimento e até da informação. E, como no rádio FM, no seu processo de "AeMização", diminuiu o jabaculê musical porque o jabaculê esportivo passou a ser mais vantajoso para seus donos e gerentes, o jabaculê do brega teve que partir para a sofisticação de seus métodos.

Sim, porque o brega nada tem de sofisticado nem de busca pela qualidade artística natural. Tudo é tendencioso e medíocre. Mas, para compensar, as estratégias de promoção jabazeira do brega tornaram-se bem mais sofisticadas, sutis e habilidosas.

Continua-se subornando programadores de rádio FM para divulgar seus ídolos, embora seja agora menos frequente. Afinal, o jabaculê de FM agora é bancado por dirigentes de times de futebol e empreiteiras, o que traz muito dinheiro para as FMs e não há repasse de "verbas" para o ECAD, além disso quase ninguém desconfia dessa "mamata" e, quando o "leão" do IRRF aparece, as FMs com perfil de AM, para compensar o baixo Ibope, já "lavaram" dinheiro comprando ouvintes de sindicatos de taxistas, porteiros de prédios, frentistas ou de donos de botequns.

Por isso o jabá do brega precisa partir para outros meios. Invade-se, quando possível, rádios mais segmentadas - por exemplo, a MPB FM já permite inserções jabazeiras como todo o programa Noite Preta FM, parte do Sexo MPB e até mesmo a programação diária, que já rola tecnobrega - , programas mais culturais (o Viola Minha Viola, que recebeu breganejos mais antigos) e tributos de MPB patrocinados por redes de televisão e algumas empresas nacionais ou multinacionais.

Mas o grosso do jabaculê, no momento, está na intelectualidade etnocêntrica, aquela que acha que pode julgar a cultura das classes populares através de valores estereotipados da velha grande mídia.

Sim, estamos falando de gente "muito querida" como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos, Hermano Vianna, Mônica Neves Leme e os "bonachões" baianos Milton Moura e Roberto Albergaria. Todos de uma forma ou de outra recebendo dinheiro até da Fundação Ford e do especulador financeiro George Soros.

Estes intelectuais, que tanto fazem alarde na velha mídia direitista - mesmo revistas como Caras e Veja - quanto arriscam algum proselitismo pró-brega na imprensa de esquerda (apesar de Pedro Alexandre Sanches já começar a despertar desconfiança escrevendo na Caros Amigos e Fórum como se ainda estivesse na Folha de São Paulo, sobretudo fazendo ataques "urubólogos" à MPB de esquerda), até criam um discurso fantasioso em torno do brega e seus derivados, sem medir escrúpulos de adotar pontos de vista confusos e cheios de erros.

Seria preciso um livro para descrever os erros e contradições desses discursos, ou ao menos um artigo de vinte páginas para dar uma noção resumida do processo. Mas quem é que vai escrever isso, se até nas publicações acadêmicas essa intelectualidade paternalista que serve de lacaios para a indústria fonográfica e a velha grande mídia - embora tentem dar a impressão contrária disso - exerce sua influência dominante e castradora de visões menos parciais como a sua?

Esses intelectuais não medem estratégias e se arriscam a qualquer tipo de apelação. Até mesmo o uso distorcido do legado de personalidades falecidas - podendo ser Antônio Conselheiro, Oswald de Andrade e Gregório de Matos, como pode também ser Malcolm McLaren, Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio (da música "Eu Vou Botar Meu Bloco na Rua") - para justificar qualquer baixaria ou qualquer equívoco presentes nos fenômenos brega-popularescos de qualquer temporada.

Desse modo, Mônica Neves Leme tentou usar Gregório de Matos para tentar salvar o decadente É O Tchan. Antônio Conselheiro, Malcolm McLaren e até Andy Warhol foram usados para a defesa do "funk carioca". E Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio devem se virar na pátria espiritual assim que eles foram usados para a defesa mais canhestra de nomes como Banda Calypso, Michel Teló ou o "coitado" Leandro Lehart.

Enquanto isso, a verdadeira cultura brasileira é que sofre preconceito. A mesma intelectualidade que reclama do "preconceito" contra o brega é a primeira a ter uma visão preconceituosa - e cada vez mais cruel - contra as classes populares.

Dois exemplos. Um é o intelectual Leonardo Sakamoto, tão conhecido por suas visões contra o preconceito social, mas que havia cometido um deslize (por boa fé?) quando manifestou seu temor de ver o povo pobre voltar a ouvir sambas autênticos, modinhas genuínas e baiões verdadeiros. Disse que "não havia sentido" em resgatar a cultura popular dessa forma.

Outro preconceito foi da jornalista Bia Abramo - filha e sobrinha, respectivamente, dos históricos Perseu Abramo e Cláudio Abramo, mas contaminada pelos ideais do Projeto Folha - , que tanto reclamou da "perversidade" das críticas contra o "funk carioca", foi muito perversa combatendo o "moralismo" das enfermeiras contra a exploração pornográfica de suas profissões. O texto em questão teve que ser retirado do portal da Fundação Perseu Abramo, por conta da repercussão negativa da "generosa" visão de Bia.

Mas, no plano geral, há muito preconceito vindo da intelectualidade "sem preconceitos". Que definem a baixaria que envolve a suposta "cultura popular" como se fossem "valores modernos" e "a felicidade do povo". Até achincalham com nossa visão crítica, dizendo, com ironia jocosa, que o que "nós entendemos" como baixaria, grotesco e mediocridade cultural, são "valores modernos que representam a felicidade e a alegria do povo pobre".

O problema é que o povo pobre aparece, neste contexto, como vítima de manipulação cultural de rádios e TVs. Há muito tempo não temos uma cultura popular que fuja do controle férreo dos empresários de entretenimento e da velha grande mídia nacional e regional. O que entendemos como "cultura popular" virou uma "cracolândia" de baixos valores musicais, artísticos, éticos, estéticos e coisa e tal.

E nós mesmos somos vítimas de preconceito dessa intelectualidade influente, porque nossos questionamentos são por eles reduzidos a "preconceito", "inveja" e "intolerância".

Enquanto isso, esses mesmos intelectuais "sem preconceitos" falam mal do povo pobre pelas costas. Para eles, o "melhor" papel das classes populares é o de um bando de idiotas. Para o bem do "livre mercado", para o qual essa intelectualidade serve com muito gosto.

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