segunda-feira, 2 de abril de 2012

EXPRESSÕES DE UM PAÍS SEM ÉTICA


O que têm em comum o senador demo Demóstenes Torres, o funqueiro MC Leonardo e o antropólogo Roberto Albergaria? Aparentemente, eles nada têm em comum e alguns veriam como heresia associar o primeiro aos dois segundos.

Mas é isso mesmo que se faz aqui, e há um bom motivo para isso. Vejamos os episódios.

Demóstenes Torres, o senador do DEM goiano que era dado a bancar o defensor da ética e da moralidade, é atualmente acusado de envolvimento com o esquema de corrupção do banqueiro de bicho Carlinhos Cachoeira. Consta-se que as "ramificações" desse esquema envolvem também um político do PSDB local além de haver informações que a Veja e até o ator e deputado federal Stepan Nercessian estariam ligados ao bicheiro.

O caso faz com que o DEM se afundasse numa crise política que envolve este partido, o PSDB e o PPS, fazendo com que esses três partidos da chamada "direitona" política se desgastem e percam muitos de seus membros e filiados.

MC Leonardo, presidente da APAFUNK (Associação de Amigos e Profissionais do Funk), por sua vez, é conhecido por tentar associar, em seus textos, o "funk carioca" aos princípios de cidadania das classes populares. Mas, recentemente, o dirigente funqueiro tirou o corpo fora e negou que o ritmo tenha qualquer função educativa, reclamando da repressão a "bailes funk" que toquem o chamado "proibidão", que é aquele "funk" que faz apologia a sexo, drogas e violência, sobretudo em relação ao crime organizado.

Já o antropólogo Roberto Albergaria, professor da Universidade Federal da Bahia - eu o vi pessoalmene, quando ia muito à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, na Estrada de São Lázaro, em Salvador - , reclamou de uma lei de uma deputada estadual que estabelecia sanções contra cantores que interpretassem letras que depreciem a imagem da mulher, dizendo que a lei era "contra a brincadeira, a liberdade de expressão e a linguagem do povo (sic)".

Nos três casos, pode se constatar um elemento em comum: o desprezo aos princípios éticos existente em nosso país. A banalização da corrupção, da violência, a ausência de princípios éticos ou de qualquer valor sócio-cultural edificante, tudo isso deixa o Brasil ao "deus dará", herança sobretudo do legado assasador da ditadura militar.

Pode ser que certos intelectuais, ou mesmo blogueiros, sintam-se horrorizados ao ver MC Leonardo e Roberto Albergaria colocados lado a lado com Demóstenes Torres, porque tanto o funqueiro quanto o antropólogo baiano se situam num contexto aparentemente "progressista".

Mas a comparação, supostamente "injusta", faz muito sentido. Afinal, que diferença faz um senador praticar corrupção e receber dinheiro de bicheiro e dois "ativistas culturais" reclamarem da repressão contra músicas que, não bastassem sua mediocridade explícita, apelam para os mais baixos valores morais que vitimam a desamparada sociedade pobre?

Além disso, muito do chamado "pagodão" baiano e do "funk carioca" também recebeu patrocínio de contraventores locais, o que faz com que os "proibidões" e as "suingueiras" dos "tigrões" funqueiros e dos "putões" pagodeiros não diferissem em coisa alguma do "ilustre" senador goiano.

Pelo contrário, tudo isso faz parte de um só contexto, o de que o Brasil carece de promover melhorias reais na cultura e na educação, já que a crise de valores do brega-popularesco, a suposta "cultura popular" da grande mídia - é inútil dissociá-la desta - , não pode ser vista separado do contexto do coronelismo político e econômico que associa o latifúndio e a contravenção, em muitos momentos, às mesmas rádios e TVs responsáveis por essa suposta "cultura das periferias".

Até porque o jabaculê radiofônico e televisivo funciona da mesma forma que propinas e outras práticas corruptas. E que muitos dos donos de rádio e TV são políticos, latifundiários e contraventores. Por isso essa "cultura popular" que certos intelectuais "queridinhos" falam nada tem a ver com a verdadeira cultura do povo, por aspectos por demais óbvios.

O povo quer recuperar sua cultura. A verdadeira cultura não é a que lota plateias em menos tempo, ou aquela que vende mais ou dá mais audiência. A verdadeira cultura, que anda em falta nas classes pobres (não pela falta de expressões genuínas, mas pela falta do destaque merecido às mesmas pela mídia), é aquela que soma conhecimentos, é transmitida pelas comunidades, não apela para a baixaria nem para o mau gosto grotesco e nem para cafonices piegas.

Mais de 400 anos de cultura popular já dão uma boa amostra de que a cultura de nosso povo difere muito dessa pretensa "cultura das periferias" que Roberto Albergaria e MC Leonardo - além de outros citados por este blogue - tanto defendem e cujos valores permitem que um Demóstenes Torres seja eleito e faça sua corrupção como bem entender.

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