domingo, 25 de março de 2012

MEDIOCRIDADE CULTURAL NÃO MELHORA COM O TEMPO



Quem era considerado baixaria há 20 anos atrás? Se abrirmos mão da memória curta que atinge milhares de brasileiros, seríamos surpreendidos diante das pretensas "preciosidades" de hoje.

Na música brasileira, por exemplo, as baixarias culturais, a vulgaridade mais rasteira era representada, há 20 anos atrás, por nomes hoje "respeitáveis" como Chitãozinho & Xororó, Chiclete Com Banana (fase Bell Marques), Alexandre Pires (então do Só Pra Contrariar), Latino, Leandro & Leonardo, Belo (então do Soweto), Leandro Lehart, Kaoma, Mastruz Com Leite, MC Júnior & MC Leonardo, Zezé di Camargo & Luciano, entre outros.

Se formos mais atrás, veríamos que nomes hoje tidos como "magistrais", como Michael Sullivan, Fábio Jr. (o lado cantor, porque como ator ele realmente é genial), José Augusto, Wando e Waldick Soriano eram considerados risíveis e constrangedores.

Além deles, podíamos citar o hit-parade norte-americano, mesmo em nomes que muitos odeiam ver criticados atualmente, como os falecidos Michael Jackson e Whitney Houston. Ou então personalidades como o apresentador de TV Ratinho, associado à baixaria policialesca, ou Gugu Liberato, ícone da imbecilização mais explícita. Sem falar do É O Tchan, que teve até monografia tentando promover o grupo como um "fenômeno multimídia", "conjunto de lundu" ou coisa parecida.

Mudou o mundo ou mudamos nós? Talvez a segunda resposta seja certa, mas no pior sentido. É certo que as percepções das coisas mudam com o tempo, mas o que se vê é algo que não condiz com o progresso de ideias dos dias de hoje.

Pelo contrário, a relativização da mediocridade revela o quanto os mais jovens são desinformados pelas coisas e o quanto o poder da velha grande mídia é influente para aqueles que não viveram os tempos em que a manipulação midiática, ainda que forte, encontrava resistência em quem conheceu os referenciais culturais mais relevantes.

Afinal, quem é que hoje conhece os grandes mestres musicais de verdade, a maioria deles já falecida? E os valores de cidadania, difundidos por ativistas sociais genuínos, quem é que conhece? A julgar pela trolagem que, volta e meia, acontece na Internet, com aprendizes de urubólogos disparando desaforos contra quem contesta a mediocridade reinante em todos os aspectos, os valores éticos e estéticos estão em crise.

A mediocridade não melhorou com o tempo. O que se viu foi que, recentemente, quem chegou ao poder da mídia, do mercado, da política e do entretenimento são pessoas que se educaram sob o prisma do "milagre brasileiro", em que o mercado liquidou com princípios éticos, estéticos, históricos, sociais.

A situação torna-se tão complexa que os arautos do "deus" mercado tinham que isolar a cultura do contexto sócio-político para permitir a prevalência da mediocridade cultural e seu prolongamento artificial na grande mídia.

Por isso, enquanto a manipulação midiática no âmbito jornalístico, sobretudo na cobertura política, é facilmente denunciada, a outra parte do mesmo processo, que é a mediocrização cultural, é feita sob vistas grossas, como se fosse um fenômeno à parte. Mas não é.

Afinal, é na cultura que se encontra o destino da humanidade, através de hábitos, crenças, expressões. Se a mediocridade cultural é dominante, há algo de errado na nossa sociedade. Essa constatação, que não precisa de diplomas de Sociologia e Antropologia para ser feita, bastando uma observação mais crítica, é no entanto combatida justamente por aqueles que deveriam afirmar tal visão, menos generosa, porém mais verídica e coerente.

Em vez disso, os intelectuais etnocêntricos relativizam a mediocridade cultural ao máximo. Usam como desculpa a ideia discutível de que "nós consideramos isso mediocridade, mas para o povo isso é felicidade", um conceito demagógico que, infelizmente, andou arrancando aplausos acríticos da plateia nada desconfiada, porque é desinformada das armadilhas do entretenimento de hoje.

A mediocrização crescente, a degradação cultural mais explícita, não pode ser desculpa para os medíocres de ontem e anteontem serem os "gênios" e "mestres" de hoje. Nada disso. E defender a mediocridade cultural, a pretexto de que ela "é muito popular", nada contribui para a valorização das classes populares. Pelo extremo oposto, essa "generosa" visão só faz o povo pobre se atolar na mesmice do consumismo cultural sem cidadania plena.

É como se cientistas sociais se apavorassem quando um educador defendesse a alfabetização como modo de melhorar a condição de vida das classes pobres e emergentes. Imagine se transferirmos as ideias "generosas" de Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Paulo César Araújo e Ronaldo Lemos para o âmbito da Educação? Simplesmente estaríamos diante de quatro defensores do analfabetismo, da falta de higiene e do derramamento de lixo nas ruas dos subúrbios, sertões e roças de nossas cidades ao longo do país.

E, se eles odeiam Chico Buarque, certamente odiariam Paulo Freire, Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Jr. e outros mestres da lucidez indiscutível. No entanto, se apropriam de outros mestres de igual valor, mas cujo discurso pode ser manipulado e distorcido ao bel prazer da intelligentzia atual, como no caso do modernista Oswald de Andrade.

Esses arautos da mediocrização cultural, encharcados do mais puro pensamento neoliberal - Pedro Sanches, por exemplo, é claramente discípulo de Francis Fukuyama, suas ideias falam mais do que qualquer desmentimento tendencioso a respeito - , tentam mesclar seus conceitos conservadores, piegas, confusos, por vezes delirantes, por outros reacionários, numa retórica convincente que, até o momento, os promovem como "semi-deuses" da opinião pública média.

E isso torna a situação mais complicada. Afinal, a mediocridade cultural já é defendida abertamente pelo mercado que destrói valores éticos, culturais e históricos, em prol de um vale tudo do entretenimento, de um laissez faire do lazer que deturpa e transforma a cidadania em algo disforme, sem caráter, sem identidade, em algo que pode ser até ridículo, patético e vulgar, mas "se não incomodar, tudo bem".

A defesa intelectual faz piorar a situação, na medida em que há um respaldo "científico" para a mediocridade que temos muito trabalho de combater, nós, gente de muito senso crítico e pouca visibilidade. Enquanto isso, a mídia grande continua faturando horrores com a mediocrização cultural e com a transformação dos medíocres de hoje em pretensos (e falsos) gênios de amanhã.

E não adianta falar mal da grande mídia, se trata bem as "pratas" de suas casas. Atacar a grande mídia e elogiar a mediocridade cultural, a pretexto de mil relativismos e desculpas, é quase que elogiar a mesma mídia, se não ela no seu sentido ontológico, mas através de seu legado.

Em outras palavras, a mediocrização cultural tão associada à "gente simples" é um subproduto do mercado controlado pelos barões da grande mídia. Dissociar um e outro é impossível, apesar de render um discurso envolvente. Mas deixemos as pieguices de lado e, em vez de vermos a pretensa "cultura popular" midiática como uma solução, a vejamos como um problema.

Afinal, daqui a pouco a cultura popular, decaindo como decai hoje, se resumirá daqui ao mais abjeto instinto animalesco ou à mais lacrimosa pieguice.

Nenhum comentário: