quinta-feira, 8 de março de 2012

A LIÇÃO DE DESPRETENSÃO DOS MONKEES



No Brasil, muita gente procura algum "cantor de protesto" por trás dos anódinos cantores bregas, às custas de muita pieguice e muita choradeira, como se a simples rejeição da intelectualidade especializada (e não-etnocêntrica, preocupada com a mediocridade cultural tal qual os educadores em relação ao analfabetismo) fosse uma "bandeira de luta" dos ídolos cafonas.

No exterior, porém, a história é outra. Mesmo ídolos mais comerciais, como Pat Boone e Ricky Nelson, quanto ídolos musicalmente mais "pueris", como Chubby Checker e os Monkees - que no último dia 29 de fevereiro havia perdido seu vocalista, Davy Jones, morto aos 66 anos por ataque cardíaco - , nunca se atreveram ao pretensiosismo mais preciosista, nem a serem associados a um ativismo político que não lhes interessava.

Os Monkees, aliás, eram até de fato injustiçados. Seguindo um filão juvenil do qual outro símbolo maior (e, igualmente, "saco de pancadas") , eram os fictícios Archies, os Monkees surgiram como comediantes que parodiavam os Beatles através de um divertido seriado lançado pela rede estadunidense NBC e que levava o nome do grupo.

Os membros Davy Jones, Mickey Dolenz, Peter Tork e Michael Nesmith eram também músicos, de fato, e com expressivo talento, mas nos primeiros discos eram proibidos pelo seu empresário de gravarem suas colaborações instrumentais, se limitando a cantar acompanhados de outros músicos.

Suas músicas não tinham a sofisticação melódica que envolvia os grupos psicodélicos de então, e mesmo os Beatles haviam se evoluído, com uma ajuda indireta dos outrora "pueris" Beach Boys (que haviam lançado o impactuante Pet Sounds), para um som mais refinado.

Mesmo assim, havia boas melodias nas músicas dos Monkees, dentro de uma roupagem de rock da safra 1964-1965 que, se não oferecia grande poesia, pelo menos trazia melodias assobiáveis e vibrantes.

O grupo era o que, recentemente, se vê no fenômeno Jonas Brothers. Mesmo nas suas limitações de pop comercial, havia competência, talento e boas ideias, sem a pretensão de querer mudar o mundo e se passar por "coitado" ou por "provocador da moral elitista".

Certamente, se compararmos os Monkees, por exemplo, a grupos como Strawberry Alarm Clock, Byrds e Jimi Hendrix Experience, ou então os Doors do poeta Jim Morrison, o grupo de Davy Jones fica muito a dever. Mas, dentro de sua proposta, o grupo que deu aos fãs sucessos como "I'm a Believer" e "Last Train to Clarksville" até fez simpáticos álbuns psicodélicos, como Pisces, Aquarius, Capricorn & Jones Ltd. (1967), The Birds, The Bees & the Monkees (1968) e Head (1968), que podem não terem a força das bandas de garagem de então, mas mostravam bons arranjos e boa estética do gênero.

No fim, até os Beatles se mostraram simpáticos aos Monkees. George Harrison, com seu "coração de mãe" - na sua carreira-solo, o saudoso ex-beatle era famoso por chamar muitos músicos convidados - , até convidou um dos Monkees, Peter Tork, para tocar no disco Wonderwall Music (a estreia solo do autor de "Taxman" e "Something"), de 1968, usando um banjo que pegou "emprestado" de Paul McCartney.

Portanto, os Monkees dão uma excelente lição de despretensão. Eles nunca foram marcados pela arrogância e nem pela falsa modéstia. Não queriam ser os pretensos salvadores da música mundial. Nem a Contracultura da época foi usada como pretexto para eles.

Pelo contrário, até o fim eles atuaram com um mínimo de humildade possível, fazendo aquilo que sabiam e puderam fazer. Deixaram marca dentro de sua proposta como uma banda de rock bubblegum e como talentosos comediantes de seu seriado e seus longas.

Os Monkees, assim, são uma boa lição de despretensão que existe nos EUA, em que os nomes pop dos anos 60 não se passavam por "artistas de protesto" nem como usurpadores dos louros da Contracultura.

E essa lição serve muito bem para o Brasil, onde até os ídolos menores da Jovem Guarda e os ídolos da música brega são vistos como "artistas de protesto" e superestimados como "coitadinhos" que "revolucionaram" (sic) a cultura popular brasileira.

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