quinta-feira, 1 de março de 2012

CRÔNICA SOBRE OS 30 ANOS DA FLUMINENSE FM




Sinceramente. Com todo o respeito aos jornalistas da Band News Fluminense FM, rádio FM all news é um saco. Não que FM não pudesse ter notícia, mas essa conversa de "notícia 24 horas" é papo para boi dormir (de tédio).

Além disso, o conteúdo acaba sendo em boa parte supérfluo, e as pressões da audiência fazem com que se rompam as fronteiras entre redações de radiojornalismo e mesa de botequim, indo ao tal showrnalismo light.

E ver que nem os intervalos comerciais colaboram, com o blablablá caricato que nos faz concluir que boa parte dos publicitários vive fora de órbita, dá vontade de, se eu fosse músico de rock, sair musicando tudo que é comercial de rádio all news, adaptando os textos publicitários para versos rimados e rastreando as informações para colocar o autor do texto publicitário como parceiro letrista.

Que vontade de dar um arranjo hendrixiano para os insossos comerciais de consultórios médicos, ou jogar arranjos tipo Strawberry Alarm Clock em comerciais de supermercados. Ou transformar propagandas institucionais em clássicos do rock bem pesados. Criar meus próprios jingles, jogar os autores desses textos publicitários como meus co-letristas, a revelia deles.

Se bem que pensei até mesmo de transformar em músicas de rock boletins esportivos da Band News, previsões do tempo, comentários ou até notícias.

Este relato acima tem todo o espírito da antiga Fluminense FM. Porque, até hoje, não apareceu uma rádio à altura da antiga emissora, que para agravar foi injustiçada e humilhada nos anos 90, ano em que começou a mediocrização cultural que atinge hoje níveis mais extremos.

Ouvia a Fluminense, a princípio, através do rádio ligado por um vizinho guitarrista, num condomínio no Centro de Niterói, já em 1982. Em 1983 já comecei a conhecer a rádio por intermédio dos colegas, mas só comecei a ouvir a rádio, regularmente, de 1984 a 1990. Estava entre o fim da infância e o começo da puberdade.

Era irônico isso, porque aos onze anos ouvia uma rádio rock adulta e a entendia bem, e quando tornei-me adulto me faltavam rádios assim, mas haviam rádios pseudo-roqueiras idiotas, feitas para pré-adolescentes (rádios que comentarei a seguir).

A emissora teve um projeto de radialismo rock que é compreendido superficialmente por muitos. Pouca gente sabe, por exemplo, que, sobretudo na era dos arquivos de MP3, não dá para uma "rádio de rock" hoje em dia ter locução e vinhetas atropelando as músicas, porque senão o ouvinte vai desligar o rádio e vai baixar a música no YouTube ou nos mecanismos de download, porque ela sai mais completa.

Mas mesmo coisas mais óbvias, como o fato de que uma rádio de rock não pode ter o mesmo estilo de locução de uma rádio de dance music. Isso deu numa distorção movida por motivos profissionais.

O segmento do pop dançante gerou uma ampla demanda de locutores, tão grande que nem todos foram aproveitados profissionalmente. Aí parte deles resolveu invadir o radialismo rock se aproveitando dos diplomas de cursos, coisa que muitos grandes entendidos de rock só conseguem obter em última hora, apesar de seu talento intuitivo de locução.

Infelizmente, nos anos 90, muitos sucessores de Luiz Antônio Mello, Alex Mariano, Philip Johnston, José Roberto Mahr, Paulo Sisino - e, no caso paulista, de Leopoldo Rey, Valdir Montanari e Kid Vinil - e outros foram parar nas oficinas de consertos de aparelhos eletrônicos, ouvindo solitariamente seus vinis de rock clássico.

Estive em Salvador e a cidade, até hoje, não teve uma única rádio autenticamente rock 24 horas no ar. O que houve lá foi a mais cafajeste deturpação do radialismo rock, a mais caricata, equivocada e patética diluição do segmento, a 96 FM. A única exceção estava num bom programa de Luís Cláudio Garrido, jornalista baiano que, curiosamente, era meio um clone de Luiz Antônio Mello.

Mas em outras partes do Brasil, o brilho da Fluminense FM só era apenas um rumor distante. Nos anos 80 e 90, muitas rádios que usavam o rótulo "rock" eram na verdade emissoras de hit-parade com vitrolão roqueiro já previamente preparado pelas gravadoras. Rádios pseudo-roqueiras cujas vinhetas tinham um cara que falava a palavra "rock" como se estivesse arrotando.

Locutores com vozes de animadores de ginástica aeróbica falando em cima até de introduções ou finais de canções de rock pesado. Repertório limitado a nomes manjados ou caricaturas comerciais tocados em 60 músicas repetidas todo dia, em prazos de quatro em quatro meses. Tudo isso ignorando as boas lições da Fluminense de 1982-1985 (e até, com alguns deslizes relativos, a de 1986-1990), que nunca repetiu muito as músicas e tocava, na programação diária, até lados B de compacto, músicas longas e faixas instrumentais.

Difícil dizer todas as virtudes da Fluminense em um único texto. Mas sabe-se que a Fluminense errou em suas limitações financeiras e nos conflitos que LAM teve com o hoje falecido Ephrem Amora, então superintendente do Grupo Fluminense de Comunicação. E isso fez a emissora cair e não se preparar para os anos 90, enquanto rádios muito menos competentes mas com departamento comercial impecável passavam a rasteira.

O radialismo rock viveu até mesmo sua idade das trevas, com o reacionarismo acima dos limites de adeptos da Rádio Cidade, rádio cuja trajetória nunca teve a ver com o rock e, em 1995, arriscou o segmento sem ter a menor competência para isso. E, pior: transformou a ex-locutora da Fluminense, Monika Venerabile, em caricatura de si mesma e hoje ela, com a moral baixa entre os roqueiros, trabalha com fofocas sobre famosos.

Em tempos em que tenho que suportar o reacionarismo extremo de uma elite de busólogos - os tais entusiastas de ônibus que se venderam para o prefeito carioca Eduardo Paes e seu secretário Alexandre Sansão, defendendo a antipopular padronização visual dos ônibus - , me relembro do reacionarismo similar com os adeptos da Rádio Cidade, cujo reflexo se deu até na comunidade "Eu Odeio Acordar Cedo" no Orkut, há cinco anos.

E isso mostra o quanto tem gente boçal, reacionária, medieval, neste país. Gente que parece moderna, com roupas arrojadas, linguagem informal até demais, mas com ideias que parecem fazer os líderes da Opus Dei ficarem de cabelos em pé. Gente que defende o "velho" sob o verniz do aparentemente novo, e reage com raiva contra aqueles que não veem validade nesses projetos retrógrados.

Mas até o Tea Party tem verniz moderno. Afinal, o nome é ambíguo, podendo ser tanto o "partido do chá" como a "festa do chá". E se a descolada Sarah Palin tem ideias medievais, as "nações roqueiras" da Rádio Cidade dos anos 90 e os holdings busólogos não agem de forma diferente.

Felizmente, a Internet - e, modéstia à parte, através de muita luta minha - fez o radialismo rock verdadeiro voltar ao reconhecimento público. As web radios estrangeiras faziam sua parte, o que inevitavelmente fez derrubar a 89 FM e a Rádio Cidade que faziam seu "radialismo rock à moda da casa", e com linguagem tipo Jovem Pan 2.

Não dava para valorizar esse "irrit-pareide roqueiro" enquanto rádios digitais de outros países - e, no Brasil, houve a Rocknet - tocavam bandas menos conhecidas e músicas mais empolgantes do que a mesmice do paradão popirroque tocado no Brasil. Isso fez irritar as "nações roqueiras" ultrareacionárias, fascistas, autoritárias, mas eles tiveram que engolir e aceitar os novos tempos.

E as duas "rádios rock" comerciais, 89 e Cidade, que davam a impressão de estarem preparadas para serem "roqueiras" até numa hecatombe nuclear, em 2006 tiveram que migrar rapidamente para o pop, de tão "queimadas" com a pressão da Internet.

Ironicamente, os "roqueirões" dessa época, que chegaram a rogar "morte aos pagodeiros, sertanejos e funqueiros", hoje são justamente os maiores defensores do "pagode romântico", "sertanejo" e "funk carioca" que rolam na Nativa FM (que absorveu ex-produtores da 89) e Beat 98 (que absorveu ex-produtores da Cidade).

E hoje a Fluminense FM voltou em alta, com anúncio de filme "romanceado", reedição de A Onda Maldita e de uma onda de comemorações sobre sua lembrança. E LAM continua mantendo sua lucidez e seu senso crítico nas redes sociais e nos seus artigos de imprensa e Internet, onde tem um blogue. Até mesmo a Band News FM terá que falar da emissora, com os executivos da emissora noticiosa engolindo a seco.

Mas não nos preocupemos. Sigamos em frente para lembrar de uma das primeiras emissoras de rock que apostou em demos de bandas novas, em oferecer músicas pouco conhecidas e até "difíceis" para os ouvintes na programação diária e em adaptar a cultura rock para uma realidade bem brasileira, a nossa eterna Fluminense FM, a Maldita.

Quem sabe, se eu puder ter uma banda de rock, vou musicar umas propagandas não musicais nos intervalos da Band News e colocar arranjos mais roqueiros em cima. Aí os anunciantes também terão que engolir a seco.

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