sábado, 31 de março de 2012

ESTAMOS RINDO DE QUÊ, AFINAL?


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Marco Antônio Araújo faz um comentário coerente sobre a questão do humor, depois que Chico Anysio faleceu. Detalhe: o texto foi escrito pouco antes do falecimento de Millôr Fernandes, mas fica velando em relação a este. Afinal, há cerca de 50 anos atrás tínhamos um humorismo de qualidade, do qual sobram poucos mestres.

Estamos rindo do que, afinal? 

Por Marco Antônio Araújo - Blogue O Provocador

Estamos rindo do que, afinal?

A morte de Chico Anysio encerra simbolicamente um ciclo histórico do humorismo brasileiro. A rigor, Chico representa o tempo em que havia humoristas no Brasil. Acabou, podem fechar o caixão.

O que restou espalhado por aí é de chorar. E pensar que José Vasconcelos, Ronald Golias e Juca Chaves eram considerados pornográficos e vulgares. Tristeza não tem fim, felicidade sim. 

Após as homenagens justas e veríssimas ao professor Raimundo, sobrará o Renato Aragão que, convenhamos, é outro tipo de palhaço, bem menos virtuoso. 

Vai ficar cada dia mais sem graça. Estamos rindo do que, afinal? Dos playboyzinhos do CQC e Pânico? Ou das ridículas patrulhas ideológicas politicamente corretas ainda mais mal-humoradas?

Esses neuróticos que se acham engraçados sendo racistas, homofóbicos, machistas e misóginos deviam rever os quadros do Chico Anysio com negros, gays e mulheres. Sugiro que assistam ajoelhados.

Sapeca, Chico Anysio resolveu morrer ao mesmo tempo que um evento anual chamado Risadaria reúne em São Paulo um amontoado de artistas desesperados por arrancar alguma risada da inadvertida plateia.

Tivessem realmente algum senso de humor e dignidade, cancelavam o evento e botavam uma respeitosa placa na porta: “Fechado por motivo de luto”.

quarta-feira, 28 de março de 2012

MILLÔR FERNANDES E LEGIÃO URBANA



Ontem Renato Russo teria feito 52 anos. Não que eu não me lembrasse dele, preferindo escrever sobre o drama de seu xará e ex-colega da Legião Urbana, Renato Rocha - que agora vive na miséria - , mas não tinha um assunto para trabalhar em pouco tempo que tinha para usar a Internet. Me limitei a colocar um linque para o vídeo da música "Legião Urbana", do Aborto Elétrico, uma curiosidade que, de fato, existiu e está no YouTube.

E hoje Millôr Fernandes faleceu. Aparentemente, não há uma relação entre o humorista da seção O Pif Paf, da revista O Cruzeiro - embrião de uma revista homônima, de curta duração, que circulou em 1964 - , de uma geração mais próxima dos anos 1950 e começo dos 1960, e o vocalista de um dos principais grupos de Rock Brasil, dos anos 80.

Mas havia, sim, e era uma dedicação singela que o humorista e autor teatral, também um dos mentores do jornal O Pasquim, que colocou no encarte do disco As Quatro Estações (1989) uma tradução da letra de "Feedback Song for a Dying Friend", composta em inglês por Renato (que havia vivido nos EUA). A canção não teve versão em português, a tradução está apenas para a leitura dos fãs que se dispuserem a lê-la.

Aqui está a letra original e a respectiva tradução, numa homenagem aos dois que fazem falta neste país tão sofrido pela mediocridade:

Feedback Song for a Dying Friend

Soothe the young man's sweating forehead
Touch the naked stem held hidden there
Safe in such dark hayseed wired nest
Then his light brown eyes are quick
Once touch is what he thought was grip

Tis not his hands those there but mine
And safe,my hands do seek to gain
All knowledge of my master's manly rain
The scented taste that stills my tongue
Is wrong that is set but not undone

His fiery eyes can slash my savage skin

And force all seriousness away

He wades in close waters
Deep sleep alters his senses
I must obey my only rival

He will command our twin revival
The same insane sustain again
(The two of us so close to our own hearts)
I silence and wrote
This awe of coincidence

Feedback Song For A Dying Friend (tradução de Millôr Fernandes)

Alisa a testa suada do rapaz
Toca o talo nu ali escondido
Protegido nesse ninho farpado sombrio da semente
Então seus olhos castanhos ficam vivos
Antes afago pensava ele era domínio
Essas aí não são suas mãos são as minhas
E seguras. Minhas mãos buscam se impor
Todo conhecimento do jorro viril do meu senhor
O gosto perfumado que retém minha língua
É engano instalado e não desfeito
Seus olhos chispantes podem retalhar minha pele bárbara
Força toda gravidade ir embora.
Ele vadeia em águas fechadas Sono profundo altera meus sentidos A meu único rival eu devo obedecer Vai comandar nosso duplo renascerO mesmo
Insano
Sustenta
Outra vez
(Os dois juntos junto de nossos próprios corações)
Calei e escrevi
Isto em reverência
Pela coincidência.

terça-feira, 27 de março de 2012

A TRISTE SITUAÇÃO DE NEGRETE



Um dos grandes músicos de Rock Brasil, Renato Rocha, conhecido como Negrete, virou morador de rua, de acordo com o que divulgou reportagem no Domingo Espetacular, na Rede Record.

Não se trata apenas de um músico de rock, mas de um baixista, aliás, de um excelente baixista, que havia integrado a primeira fase da Legião Urbana, anterior ao disco As Quatro Estações, de 1989.

Negrete chegou a tocar com o Finis Africae, mas como este grupo, também originário de Brasília, deu um sumiço, o músico se viu sem opção. A blogueira Nina Lemos lembrou que Negrete, por ter sido co-autor de muitas músicas da Legião Urbana, poderia pelo menos viver dos direitos autorais das músicas do grupo, registradas pelo ECAD.

Isso mostra o quanto esta entidade não quer saber de repassar o dinheiro dos autores. Numa situação kafkiana, o ECAD impede que os próprios autores das obras obtenham alguma renda pela execução das mesmas. Pior: os autores acabam pagando o dinheiro que não verão de volta, nem sequer o valor rigorosamente equivalente ao que foi pago.

Se fosse o dinheiro arrecadado por cada execução de alguns sucessos da Legião Urbana, talvez Renato Rocha pudesse ter uma renda modesta, mas que desse para viver. Mas ele também poderia estar ativo, tocando numa banda de rock, porque se trata de um excelente músico com muito fôlego e criatividade de fazer boas composições e arranjos.

Só que hoje o mercado está cruel, concentrado com o brega-popularesco. Bandas de rock nem se animam mais a continuar em atividade, já que a hegemonia, por exemplo, do chamado "pagode romântico" do Rio de Janeiro, praticamente faz o mercado refém deste ritmo, e mesmo lugares como Fundição Progresso e Circo Voador deixaram de servir de alternativas para este mercadão pretensamente "popular".

Talvez a culpa seja dos intelectuais, que preferem, a pretexto de "defender o folclore brasileiro", apoiar, até com paranoico desespero, o indigesto cardápio brega de rádios tipo Band FM, Beat 98 e Nativa FM. E acham, com isso, que vão defender a chamada "cultura das periferias". Balelas.

Pelo contrário, eles apenas salvam o "irrit-pareide" à brasileira dos ídolos bregas e derivados, enquanto a verdadeira cultura é que sofre a verdadeira e mais dramática discriminação. Se até um cantor como Lúcio Alves, no final da vida, foi entregue ao mais cruel abandono, então os defensores da mediocrização cultural deveriam estar com vergonha do que fazem.

Pois, para sustentar a mediocridade cultural, até as multinacionais e suas "fundações filantrópicas" fazem. E o pior é que, enquanto músicos medíocres prolongam suas carreiras promovendo sua canastrice e gravando covers de MPB para dissimular sua incompetência brega, em sucessivos e repetitivos CDs e DVDs ao vivo, músicos de verdade é que são discriminados e jogados à própria sorte.

Esperamos que Negrete dê a volta por cima, que alguém possa ajudá-lo e que ele venha a se (re)lançar numa nova banda mostrando o grande talento de músico, compositor e ex-legionário.

segunda-feira, 26 de março de 2012

GLOBO REPÓRTER PODERIA TER FEITO ESPECIAL COM CHICO ANYSIO



É verdade que a Rede Globo está fazendo várias homenagens ao recém-falecido humorista Chico Anysio, mas cometeu um erro ao não criar uma edição especial do Globo Repórter a ele, na ocasião de seu falecimento.

Em outros tempos, a Globo mudava a pauta do Globo Repórter toda vez que falecia uma ilustre personalidade. Muitas vezes, corria-se contra o tempo para criar um especial, mas o acervo da emissora já dispunha de material suficiente para montar um bom programa de 45 minutos.

Pois isso não foi feito com Chico Anysio. E, pelo tempo de carreira dele e sua trajetória riquíssima, ainda é pouco falar de seus feitos nos telejornais e programas de variedades. Só na televisão ele tinha pouco mais de 50 anos de carreira e foi o primeiro comediante a usar o videoteipe (em 1960), além de ter sido roteirista, produtor e diretor de humorísticos, homem de rádio, de teatro, de cinema, literatura etc.

Só a legião de atores, cartunistas, diretores de TV, humoristas, músicos etc com quem Chico Anysio conviveu dão depoimentos de surpreendente variedade. Afinal, a experiência do humorista cearense foi tão rica que deve um bom livro biográfico, desses com mais de 700 páginas, pelo menos.

E uma boa oportunidade de criar um Globo Repórter mostrando fatos pouco conhecidos da carreira de Chico Anysio, sobretudo numa época áurea e hoje pouco conhecida da TV brasileira - a virada dos anos 50/60, de 1958 até 1964, na qual a televisão vivia a transição do amadorismo e do profissionalismo, da TV ao vivo e do videoteipe, da sofisticação e da popularização - , quando a TV vivia o fervor de muitas boas ideias.

Aliás, é até irônico que Chico Anysio, naqueles tempos, tenha uma reputação que hoje se compara a Bruno Mazzeo, seu filho e parceiro, e que certamente honrou e continuará honrando as lições de humor do pai, com o qual já escreveu muitos números de humor, antes de ser conhecido pelo seu caminho próprio em atrações como o seriado Cilada.

Até mesmo Bruno tem muita coisa a dizer do pai e seria uma boa presença no Globo Repórter que deveria ter sido feito. E não havia desculpa da "última hora".

Afinal, quando celebridades se tornam muito doentes, a mídia já prepara obtuários antecipados ou homenagens prévias, e desde que Chico Anysio ficou seriamente doente, em dezembro passado, havia tempo de sobra para a produção da Globo correr para fazer um Globo Repórter especial para ser colocado em qualquer semana que houvesse o falecimento do humorista.

Foi uma boa oportunidade perdida, porque o espaço de homenagens ao humorista é pouco, pela grandeza de seu talento e pela riqueza e versatilidade de sua experiência. E teria sido uma bela e relevante homenagem a uma das figuras mais atuantes e populares da televisão brasileira.

domingo, 25 de março de 2012

MEDIOCRIDADE CULTURAL NÃO MELHORA COM O TEMPO



Quem era considerado baixaria há 20 anos atrás? Se abrirmos mão da memória curta que atinge milhares de brasileiros, seríamos surpreendidos diante das pretensas "preciosidades" de hoje.

Na música brasileira, por exemplo, as baixarias culturais, a vulgaridade mais rasteira era representada, há 20 anos atrás, por nomes hoje "respeitáveis" como Chitãozinho & Xororó, Chiclete Com Banana (fase Bell Marques), Alexandre Pires (então do Só Pra Contrariar), Latino, Leandro & Leonardo, Belo (então do Soweto), Leandro Lehart, Kaoma, Mastruz Com Leite, MC Júnior & MC Leonardo, Zezé di Camargo & Luciano, entre outros.

Se formos mais atrás, veríamos que nomes hoje tidos como "magistrais", como Michael Sullivan, Fábio Jr. (o lado cantor, porque como ator ele realmente é genial), José Augusto, Wando e Waldick Soriano eram considerados risíveis e constrangedores.

Além deles, podíamos citar o hit-parade norte-americano, mesmo em nomes que muitos odeiam ver criticados atualmente, como os falecidos Michael Jackson e Whitney Houston. Ou então personalidades como o apresentador de TV Ratinho, associado à baixaria policialesca, ou Gugu Liberato, ícone da imbecilização mais explícita. Sem falar do É O Tchan, que teve até monografia tentando promover o grupo como um "fenômeno multimídia", "conjunto de lundu" ou coisa parecida.

Mudou o mundo ou mudamos nós? Talvez a segunda resposta seja certa, mas no pior sentido. É certo que as percepções das coisas mudam com o tempo, mas o que se vê é algo que não condiz com o progresso de ideias dos dias de hoje.

Pelo contrário, a relativização da mediocridade revela o quanto os mais jovens são desinformados pelas coisas e o quanto o poder da velha grande mídia é influente para aqueles que não viveram os tempos em que a manipulação midiática, ainda que forte, encontrava resistência em quem conheceu os referenciais culturais mais relevantes.

Afinal, quem é que hoje conhece os grandes mestres musicais de verdade, a maioria deles já falecida? E os valores de cidadania, difundidos por ativistas sociais genuínos, quem é que conhece? A julgar pela trolagem que, volta e meia, acontece na Internet, com aprendizes de urubólogos disparando desaforos contra quem contesta a mediocridade reinante em todos os aspectos, os valores éticos e estéticos estão em crise.

A mediocridade não melhorou com o tempo. O que se viu foi que, recentemente, quem chegou ao poder da mídia, do mercado, da política e do entretenimento são pessoas que se educaram sob o prisma do "milagre brasileiro", em que o mercado liquidou com princípios éticos, estéticos, históricos, sociais.

A situação torna-se tão complexa que os arautos do "deus" mercado tinham que isolar a cultura do contexto sócio-político para permitir a prevalência da mediocridade cultural e seu prolongamento artificial na grande mídia.

Por isso, enquanto a manipulação midiática no âmbito jornalístico, sobretudo na cobertura política, é facilmente denunciada, a outra parte do mesmo processo, que é a mediocrização cultural, é feita sob vistas grossas, como se fosse um fenômeno à parte. Mas não é.

Afinal, é na cultura que se encontra o destino da humanidade, através de hábitos, crenças, expressões. Se a mediocridade cultural é dominante, há algo de errado na nossa sociedade. Essa constatação, que não precisa de diplomas de Sociologia e Antropologia para ser feita, bastando uma observação mais crítica, é no entanto combatida justamente por aqueles que deveriam afirmar tal visão, menos generosa, porém mais verídica e coerente.

Em vez disso, os intelectuais etnocêntricos relativizam a mediocridade cultural ao máximo. Usam como desculpa a ideia discutível de que "nós consideramos isso mediocridade, mas para o povo isso é felicidade", um conceito demagógico que, infelizmente, andou arrancando aplausos acríticos da plateia nada desconfiada, porque é desinformada das armadilhas do entretenimento de hoje.

A mediocrização crescente, a degradação cultural mais explícita, não pode ser desculpa para os medíocres de ontem e anteontem serem os "gênios" e "mestres" de hoje. Nada disso. E defender a mediocridade cultural, a pretexto de que ela "é muito popular", nada contribui para a valorização das classes populares. Pelo extremo oposto, essa "generosa" visão só faz o povo pobre se atolar na mesmice do consumismo cultural sem cidadania plena.

É como se cientistas sociais se apavorassem quando um educador defendesse a alfabetização como modo de melhorar a condição de vida das classes pobres e emergentes. Imagine se transferirmos as ideias "generosas" de Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Paulo César Araújo e Ronaldo Lemos para o âmbito da Educação? Simplesmente estaríamos diante de quatro defensores do analfabetismo, da falta de higiene e do derramamento de lixo nas ruas dos subúrbios, sertões e roças de nossas cidades ao longo do país.

E, se eles odeiam Chico Buarque, certamente odiariam Paulo Freire, Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Jr. e outros mestres da lucidez indiscutível. No entanto, se apropriam de outros mestres de igual valor, mas cujo discurso pode ser manipulado e distorcido ao bel prazer da intelligentzia atual, como no caso do modernista Oswald de Andrade.

Esses arautos da mediocrização cultural, encharcados do mais puro pensamento neoliberal - Pedro Sanches, por exemplo, é claramente discípulo de Francis Fukuyama, suas ideias falam mais do que qualquer desmentimento tendencioso a respeito - , tentam mesclar seus conceitos conservadores, piegas, confusos, por vezes delirantes, por outros reacionários, numa retórica convincente que, até o momento, os promovem como "semi-deuses" da opinião pública média.

E isso torna a situação mais complicada. Afinal, a mediocridade cultural já é defendida abertamente pelo mercado que destrói valores éticos, culturais e históricos, em prol de um vale tudo do entretenimento, de um laissez faire do lazer que deturpa e transforma a cidadania em algo disforme, sem caráter, sem identidade, em algo que pode ser até ridículo, patético e vulgar, mas "se não incomodar, tudo bem".

A defesa intelectual faz piorar a situação, na medida em que há um respaldo "científico" para a mediocridade que temos muito trabalho de combater, nós, gente de muito senso crítico e pouca visibilidade. Enquanto isso, a mídia grande continua faturando horrores com a mediocrização cultural e com a transformação dos medíocres de hoje em pretensos (e falsos) gênios de amanhã.

E não adianta falar mal da grande mídia, se trata bem as "pratas" de suas casas. Atacar a grande mídia e elogiar a mediocridade cultural, a pretexto de mil relativismos e desculpas, é quase que elogiar a mesma mídia, se não ela no seu sentido ontológico, mas através de seu legado.

Em outras palavras, a mediocrização cultural tão associada à "gente simples" é um subproduto do mercado controlado pelos barões da grande mídia. Dissociar um e outro é impossível, apesar de render um discurso envolvente. Mas deixemos as pieguices de lado e, em vez de vermos a pretensa "cultura popular" midiática como uma solução, a vejamos como um problema.

Afinal, daqui a pouco a cultura popular, decaindo como decai hoje, se resumirá daqui ao mais abjeto instinto animalesco ou à mais lacrimosa pieguice.

sexta-feira, 23 de março de 2012

FALECEU CHICO ANYSIO



Não houve jeito. Depois de tantos comediantes da Escolinha do Professor Raimundo terem falecido, é a vez de seu professor deixar de cena.

E era, de fato, um professor de humor e de atuação. Chico Anysio, o humorista de diversos papéis, não aguentou mais o sofrimento de sua saúde frágil e extremamente problemática que o atormentava desde 22 de dezembro passado.

Chico Anysio foi o primeiro comediante a usar o vídeoteipe na televisão brasileira, para permitir a interação de mais de um personagem seu no Chico Anysio Show da TV Rio, a partir de 1960.

Sua trajetória de mais de 50 anos incluiu até mesmo uma hilária paródia dos Novos Baianos e dos tropicalistas, o grupo Baiano e os Novos Caetanos, com o já falecido Arnaud Rodrigues.

Chico já foi repórter esportivo no início de carreira, trabalhou muito no rádio, foi roteirista de filmes da Atlântida, compositor musical. Sua estreia na televisão foi no programa Noite de Gala, na TV Rio. Na mesma emissora, fez também Tintim por Tantan, Só Tem Tantã e o famoso Chico Anysio Show, cujo formato se seguiu por vários nomes e várias emissoras, mais recentemente na Rede Globo de Televisão.

Difícil dizer a trajetória de Chico em poucas linhas. Foi uma carreira muito rica, e muito produtiva. Até papéis não necessariamente cômicos ele fez, enquanto não havia um espaço para ele na programação humorística. Ele foi um grande mestre do humor, versátil na criação de seus personagens e na elaboração de textos humorísticos. E, nos últimos anos, ainda divulgava seus trabalhos como pintor.

Ele fará falta, mas sua lição permanece para as futuras gerações, sobretudo numa época em que o humorismo está em crise.

O DRAMA DE CHICO ANYSIO



Desde o último dia 22 de dezembro o país sofre com a ameaça, infelizmente provável, de perder um de seus maiores humoristas.

Com sérios problemas digestivos, pneumonia e sucessivas internações, Chico Anysio segue internado em estado crítico, com todos os esforços médicos para mantê-lo vivo.

Nos últimos anos, Chico foi deixado de lado pela própria Rede Globo, por não ter lhe dado um programa humorístico à sua altura. Afinal, o cearense é famoso pelas centenas de personagens que criou, com uma habilidade ímpar de desenvolver personalidade própria em cada um deles.

Outra grande façanha é que Chico Anysio foi o primeiro comediante a adotar a tecnologia do videoteipe na televisão brasileira. O recurso, que permite a edição de programas de TV previamente gravados, foi lançada no Brasil a partir de 1959. Chico adotou a tecnologia em 1960, para permitir que um personagem interagisse com outro no Chico Anysio Show, da TV Rio.

Mas, mesmo na "geladeira", Chico havia se virado como ator, mostrando sua capacidade de improvisar seu talento em outras atividades. Até personagem não-cômico em novela ele interpretou, e participou até de um episódio de Cilada, do seu filho e parceiro de roteiros Bruno Mazzeo - hoje um dos grandes nomes do atual humorismo brasileiro - , sobre eleições, fazendo um papel de um candidato político.

Por isso, é algo que se preocupar. Em que pese algumas posturas conservadoras que Chico havia dito anos atrás, ele inegavelmente é um grande mestre da atuação e um notável artista da história da televisão. Numa época de crise de valores e referenciais, uma figura assim fará muita, muita falta.

Esperamos que sua saúde melhore consideravel e definitivamente.

quarta-feira, 21 de março de 2012

CHEGUEI AOS 41



Mas procuro manter a jovialidade de sempre.

SINAL DOS TEMPOS: SUPERMERCADO VIROU PONTO DE PAQUERA



Os tempos estão mudando, aos poucos. Depois que as boates e bares noturnos decaíram, por causa das inúmeras ocorrências criminais associadas à "vida noturna", a busca pela vida amorosa começa a buscar outras alternativas além dos mesmos redutos da "noite".

É certo que ainda não voltamos àqueles tempos em que se paquerava alguém numa praça ou mesmo num campus universitário ou praça pública. Pelo menos, com a frequência e a facilidade que se tinha há 50 anos atrás. Mas a gradual guinada a ser descrita mostra que o monopólio da "vida noturna" começa a ser quebrado de forma significativa.

Há poucos anos, restaurantes começaram a quebrar esse monopólio. Ainda era no período noturno, mas já era bem mais cedo, entre 19 e 21 horas. Por outro lado, as paqueras deixavam de ser feitas entre desconhecidos, passando a ser feitas por pessoas que se conheciam de vista em ambientes sociais, como os de trabalho e de estudo.

Isso se devia por medida de segurança, e derrubava de vez o mito de que todo mundo que estava nos bares e boates é "irmão", o que fazia a "festa" de gente traiçoeira que usa a "vida amorosa" para assaltar ou até violentar pessoas. E que custou a vida de muita gente, incluindo mulheres.

Também os assaltos nas ruas, a dificuldade de voltar para casa de ônibus, a carestia das boates e bares e o próprio caso da embriaguez causada pelo alcoolismo, que faz de muitas pessoas encrenqueiras em potencial, afastaram muitas pessoas da "vida noturna", pelo natural desejo de sobrevivência e segurança.

Muitas vezes, a ilusão "fraternal" de bares e boates não passava de um artifício publicitário de seus donos e gerentes, não raro em parceria com a velha grande mídia - sempre ela - , visando unicamente o lucro.

O "amor" é um tema publicitário eficaz, de forte apelo popular e, portanto, de fácil e alto retorno financeiro. Mas quando começam a serem considerados valores éticos e relacionados à segurança, a situação começa a mudar e aquele "paraíso" dotado de mesas, cadeiras, luzes e bebedeira - para não dizer outras coisas - começa a ser desmitificado drasticamente.

Agora, além dos restaurantes terem virado uma opção, a mudança se amplia pelos supermercados, ambientes que se tornam redutos de paqueras até no período diurno, uma grande heresia se levarmos em conta que, nas redes sociais, ainda impera a visão preconceituosa de que paquera em período diurno é "coisa de mané".

Felizmente, muitos jovens tomam coragem e começam a romper com essa visão preconceituosa, apesar dos gracejos vistos no Orkut e no Facebook pela chamada "galera irada". E aí a antes impensável prática de paquerar nos supermercados - até dez anos atrás isso era visto quase que unanimemente como piada - começa a se tornar uma realidade constante.

A grande novidade, também, é que, embora os supermercados sejam notáveis estabelecimentos comerciais, as paqueras tornam-se mais espontâneas, já que nem todo mundo entra num supermercado para fazer alguma compra. Em muitos casos, apenas há consulta de produtos, para ver se "aquela marca" ou "aquele produto" há naquele estabelecimento.

Por isso, vemos acontecer um quadro bastante transformador. E que pode contribuir para a democratização dos ambientes de paqueras e azarações no Brasil. A nem sempre - ou, talvez, quase nunca - segura ilusão das boates começa a perder terreno, e olha que parecia ontem que até o Fantástico e o Jornal da Band promoviam o "amor" sob o monopólio da "vida noturna".

Por isso, vamos saudar essa nova realidade, de um país que não sacrifica sua cidadania em nome do consumo e dos modismos. E que existem pessoas com autoestima suficiente para entenderem a diferença entre o amor e a simples busca de emoções baratas.

segunda-feira, 19 de março de 2012

MAFALDA E A TELEVISÃO



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O cartunista Quino há muito não desenha mais sua maior personagem, Mafalda, mas até hoje ele é lembrado por essa brilhante criação, de origem controversa (é discutível a lembrança dos 50 anos dela este ano), mas de mensagens políticas bastante contundentes, que fascinaram sobretudo a juventude que militou na Contracultura dos anos 60. E aqui temos uma amostra do perfil crítico desta personagem.

Mafalda e a televisão

Por Alexandre Haubrich - Blogue Jornalismo B

A personagem Mafalda é um ícone da crítica social e do pensamento contestador, inquiridor, construtivo. Sua criação é um marco importante da guerra cultural entre o capitalismo e a construção de um novo mundo, um mundo igualitário e democrático. Há quem diga que Mafalda completou 50 anos no último dia 15, mas seu criador, Quino, já avisou que o nascimento real foi em 1954. Em 1952, Mafalda participou de uma campanha publicitária, mas Quino não considera essa aparição o verdadeiro nascimento da personagem. De qualquer forma, a crítica de Quino (e Mafalda, claro!) à mídia deve ser constantemente lembrada, para não deixarmos de refletir sobre a centralidade da questão midiática na luta por um mundo realmente justo.

sábado, 17 de março de 2012

ESTUDANTE É CONDENADO POR BULLYING NA INTERNET NOS EUA



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Esta é uma boa lição para troleiros brasileiros que se tornam agressivos contra qualquer um que não pense como eles, sobretudo quando estes defendem o "estabelecido" e nem sempre justo que vigora na sociedade.

EUA: estudante condenado por bullying na Internet

Da Agência France Press

NOVA YORK, 16 Mar 2012 (AFP) -Um estudante universitário foi considerado culpado nesta sexta-feira nos Estados Unidos por ter filmado secretamente e divulgado na Internet relações sexuais de um colega de quarto gay, que cometeu suicídio, informou o site nj.com.

Dharun Ravi, que compartilhou as filmagens com amigos de seu dormitório na Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, foi considerado culpado por invasão de privacidade, apesar de ter sido inocentado de acusações envolvendo crimes de ódio, informou um site de notícias.

Ravi pode ser condenado a 10 anos de prisão e possível deportação para sua terra natal, Índia.

Seu advogado concordou que Ravi é culpado pela brincadeira de mau gosto por filmar o colega de quarto Tyler Clementi beijando um homem, escrever no Twitter sobre o que viu e convidar os amigos a assistir o vídeo.

O incidente, seguido em alguns dias do suicídio de Clementi - que se jogou da ponte George Washington -, criou um debate nos Estados Unidos sobre privacidade na era da Internet e homofobia.

Ravi não foi acusado da morte de Clementi, mas recebeu uma série de acusações segundo as quais ele teria sido motivado por sentimentos homofóbicos.

O grupo de defesa dos direitos homossexuais de Nova Jersey, Garden State Equality, elogiou o veredicto, afirmando que este mostrou que o acusado foi motivado pelo preconceito.

"Ravi foi condenado e agora enfrentará as consequências apropriadas", afirmou o presidente da Garden Stante Equality, Steven Goldstein, em comunicado.

"Acreditamos que este veredicto envia uma mensagem importante de que 'brincadeiras infantis' não serão desculpas para praticar bullying."

Além de todas as acusações de invasão de privacidade, Ravi também foi considerado culpado de acusações relacionadas às tentativas de enganar os promotores.

sexta-feira, 16 de março de 2012

SUPERMERCADOS DE NITERÓI FALHAM EM LOGÍSTICA



Os supermercados de Niterói deveriam ser mais ágeis. Não bastasse a lentidão dos trabalhadores de caixas, que não são treinados para ter agilidade na digitação de valores e na manipulação do dinheiro, a logística também peca por não suprir os produtos antes de sumirem das prateleiras.

São marcas de bebidas, de alimentos, de carnes, de produtos de limpeza, ou mesmo produtos inteiros que ficam em falta nos supermercados niteroienses. Em muitos casos, é preciso esperar dez dias para que o produto desejado volte a ser encontrado em algum supermercado.

Além disso, não há uma mentalidade de diversificação e competitividade na venda de certos produtos. É o caso das bebidas lácteas, que não são vendidas em todos os supermercados e, quando são vendidas, a oferta deixa a desejar. Muitos dos supermercados contam apenas com uma marca, e nem sempre a melhor. E não há reposição constante, sempre havendo algum intervalo de dias para que um novo lote de bebidas lácteas seja reposto nas prateleiras.

Mas de uma forma ou de outra, sempre um produto falta num supermercado de Niterói. A mentalidade dos gerentes ainda está presa no padrão anos 80 dos Supermercados Sendas. A agilidade na logística, uma das medidas que se renovou nos anos 90 com a ascensão do grupo baiano Paes Mendonça - que chegou a ter filiais em Niterói - não conseguiu transformar a situação na cidade fluminense.

Neste sentido, Salvador, uma cidade provinciana que nos anos 90 havia sofrido o atraso em vários setores, leva vantagem em relação a Niterói no que se refere aos supermercados. A competitividade causada por outras redes surgidas para concorrer com o Paes Mendonça fez o setor saltar em qualidade, com renovação e disponibilidade constante de produtos, e reposição de estoques ágil e sem deixar faltas.

Niterói precisa sofrer uma transformação drástica no setor de supermercados. É preciso que gerentes aprendam novas ideias e conceitos sobre logística, estudem processos atuais e trabalhem com agilidade e percepção, sobretudo em relação a uma demanda cada vez mais exigente e que não gosta de ficar esperando pela chegada de um produto.

quarta-feira, 14 de março de 2012

MORRISSEY É VISTO COMO "RETRÓGRADO" POR JOVENS CONSERVADORES



Jovens conservadores, cujos referenciais se limitam à indigência que ocorre na televisão aberta, tentaram classificar o cantor Morrissey como "retrógrado".

Um deles, de nome Mário, em mensagens no fórum do portal Terra, chamou o cantor inglês de "obsoleto" e "figura patética", e, numa comparação com o príncipe Harry, que também esteve no Brasil na mesma época do cantor, defendeu o membro da realeza, acreditando que este defendia a cidadania do povo pobre brasileiro.

No entanto, Harry - cuja família real britânica é hostilizada pelo ex-Smiths - nada fez senão atos de marketing pessoal, enquanto o cantor, no alto de seus 53 anos (a serem completos em maio), esbanjou jovialidade e muito senso de humor no palco, além de estar cercado de músicos bem entrosados e talentosos, como Martin "Boz" Boorer, guitarrista que é um dos responsáveis pelas melodias do atual repertório do cantor.

É bom deixar claro que, assim como em 2000, Morrissey realiza sua turnê pelo simples gosto de mostrar música para seus fãs. Como na vez anterior (quando também veio ao Brasil), o ex-Smiths não tinha contrato com gravadora e nem estava divulgando álbum, mas simplesmente estava mostrando que, apesar dos pesares, continua bem na carreira e que sua missão de fazer música é algo incomparável.

Afinal, Morrissey é um dos maiores símbolos da música independente do planeta, pelo seu grande talento e pela sua honestidade.

segunda-feira, 12 de março de 2012

BARÃO VERMELHO ANUNCIA TURNÊ DE DESPEDIDA



O Barão Vermelho, conforme nos lembra o amigo Marcelo Delfino, adotou uma decisão bastante polêmica, a de que, depois da turnê e dos lançamentos comemorativos dos 30 anos de carreira fonográfica, o grupo carioca encerrará definitivamente suas atividades.

Depois que o mundo viu os integrantes do R. E. M. anunciarem seu fim definitivo, ainda que bastante amigável, os brasileiros agora sentirão a tristeza semelhante de ver um prestigiado grupo, um dos mais atuantes do Rock Brasil, encerrar sua carreira.

Sim, isso é frustrante, de qualquer maneira, sob o ponto de vista dos fãs. Eu mesmo senti isso quando os Smiths encerraram suas atividades, em 1987. Isso para não falar da histórica separação dos Beatles, em 1970, que causou um violento impacto entre os fãs.

Mas isso há um lado positivo. Músicos dessa categoria, dotados de integridade, honestidade e competência, têm projetos artísticos que nem sempre cabem na trajetória de um grupo, que em muitos casos têm que compartilhar decisões entre seus integrantes.

O Barão até que cedeu bastante na sua postura radicalmente roqueira, quando Roberto Frejat havia esnobado o então vocalista Cazuza pelo fato deste gostar de Cartola e Lupicínio Rodrigues. Mas depois o próprio Frejat se aproximou também da MPB, vendo que o amigo havia feito uma bela carreira solo mesclando rock e MPB.

Sim, seus integrantes possuem projetos pessoais, e Frejat demonstra ter encontrado um caminho como artista solo. São direitos de escolha, que nem sempre agradam aos fãs, que sempre terão nas lembranças o tempo em que seus grupos musicais preferidos estavam juntos. Sem falar da frustração daqueles que não terão mais a chance de ver tal grupo ao vivo.

Isso é a vida. Mas talvez seja melhor assim. No brega-popularesco, por exemplo, qualquer "sumiço" de dois anos de um grupo de "pagode romântico" ou uma briga envolvendo irmãos "sertanejos" causa tanto desespero nos fãs que o que poderia ser uma extinção bem resolvida se transforma numa promessa de uma volta à rotina de sempre.

E aí são esses ídolos que ficam arrastando nas carreiras, gravando CDs e DVDs ao vivo, com os mesmos covers, os mesmos sucessos, o mesmo lero-lero, a mesma "energia". E, quando criam algo "novo", não passa de cópias de antigos sucessos. A garota Sissi, por exemplo, não é mais do que outro "mineirinho", não tem como duvidar.

Desejamos sucesso na trajetória dos músicos do Barão Vermelho. E que Frejat siga em frente no seu trabalho solo, sem medo de mesclar rock com MPB, um antigo tabu que o músico aprendeu a romper com seu saudoso amigo e parceiro de tantas grandes músicas.

sábado, 10 de março de 2012

O ECAD CAUSARÁ UM COLAPSO NA CULTURA BRASILEIRA

Em três anos de blogue, não há comemoração, diante de uma arbitrariedade dessas.



A decisão do ECAD por cobrar pelo uso de vídeos musicais do YouTube na incorporação em blogues já tornou-se conhecida como o "SOPA brasileiro". Querendo proteger os direitos autorais, o ECAD, cujos diretores exercem influência forte no Ministério da Cultura de Ana de Hollanda, causou uma repercussão bastante negativa para a própria entidade.

O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, através dessa atitude, já vitimou um blogue, o Caligrafitti, que recebeu um comunicado para pagar pela incorporação de vídeos musicais já publicados pelo portal. E a taxa para cada vídeo incorporado é salgada: R$ 352,59.

A medida, embora se baseie numa lei de 1998 sobre direitos autorais, é abusiva, desnecessária e falha. Primeiro, porque o YouTube já paga os direitos autorais das músicas. Segundo, porque a medida não precisa qual a música usada na ocasião, além da cobrança não considerar se os vídeos incorporados são sempre tocados pelos leitores de um blogue.

Mas o terceiro motivo pode ser ainda pior. E é o que causará mais problemas para o ECAD e seus diretores, além dos próprios artistas associados. E isso vai criar um violento colapso para a cultura brasileira.

Primeiro, porque a cobrança desestimulará qualquer divulgação de uma música em um blogue, sobretudo nos tempos em que a mediocrização cultural é dominante e é necessário que se divulgue algum artista de qualidade para que leitores de blogues, muitos bastante leigos, conheçam.

A divulgação gratuita dos vídeos incorporados nos blogues são uma forma de ilustrar textos e, no caso de músicas, dar um exemplo do trabalho do artista citado. Imagine um blogueiro escrever sobre João Gilberto, e ser proibido de colocar um vídeo dele cantando "Chega de Saudade" ou "O Samba da Minha Terra"? Certamente, o texto ficaria capenga, sem sua ilustração.

ELITIZAÇÃO DA MÚSICA COM COPYRIGHT

A atitude do ECAD foi feita de acordo com a lei, mas isso provocará sérios problemas para seus artistas protegidos, porque os meios de divulgação diminuirão assustadoramente. A visibilidade dos artistas que possuem registros de direitos autorais cairá drasticamente, e a elitização da apreciação de qualquer música que tenha registro de copyright no Brasil. Mesmo as estrangeiras representadas por editoras atuantes no país.

Isso porque quem poderá pagar pode incorporar o vídeo sem qualquer problema. Mas quem carece de dinheiro, não. Mas a coisa é ainda mais grave do que se parece, porque a elitização da música de qualidade, cada vez mais crescente - é de se notar, por exemplo, que o brega-popularesco chegou, feito uma tsunami, já atinge públicos de classe média e formação universitária no Brasil - , pode favorecer o agravamento da mediocrização cultural no país.

Imagine a situação. Proibe-se o uso de vídeos do YouTube de canções conhecidas e admiráveis. Para compensar, o que é que o internauta vai fazer? Vai compor uma bobagem com temática similar no lugar. Ou então, vai usar vídeos de canções medíocres, como as divisões inferiores do brega-popularesco, que não têm registro de copyright e operam por gravadoras pequenas, supostamente "independentes".

Ou seja, o que sobrarão serão justamente as tolices musicais que são gravadas por selos fonográficos locais. Sobretudo quando são lançadas primeiro na Internet. O tecnobrega, o forró-brega, o "funk carioca", o "pagodão baiano" e outras tendências do brega mais grotesco.

Isso porque nem todo brega-popularesco será acessível à incorporação livre. Os ditos "sofisticados", como certos medalhões do "pagode romântico", axé-music e "sertanejo", que mercadologicamente se equiparam à elite da MPB (uma visão bastante discutível, mas que segue a lógica dos executivos de gravadoras), também são protegidos por direitos autorais.

Portanto, isso significa que a coisa será pior do que se imagina. Se a música de gosto duvidoso dos medalhões do "pagode romântico", "sertanejo" e axé-music que aparecem no Domingão do Faustão também são difíceis de serem incorporadas em blogues, o que é que sobrará então?

O blogueiro só terá como opção cantar qualquer bobagem de punho próprio no chuveiro e gravar vídeo para mostrar aos amigos no YouTube, ou então baixar o que tiver de "bacana" (se é que isso é possível) em vídeos de nomes como Mike do Mosqueiro, Gaiola das Popozudas, Layrton dos Teclados ou qualquer mecânico de automóvel que componha música para o grupo de forró-brega da moda, desses que gravam com selos "independentes" que dependem das verbas dos latifúndios da região.

ARTISTAS NÃO SAIRÃO GANHANDO; EDITORES E EMPRESÁRIOS, SIM

Enquanto isso, a música de qualidade é que será prejudicada, mais uma vez. O preconceito contra ela é muito, muito grande. Nomes como Turíbio Santos, Toninho Horta e Fátima Guedes são vistos como "chatos de galocha" por muitos internautas. E ninguém pense que os artistas serão os maiores beneficiados pela atitude do ECAD de cobrar por incorporação blogueira de vídeos.

Os artistas só serão beneficiados se venderem muitos discos e fazerem muito sucesso. Mesmo assim, quem fica com a maior parte sempre são os editores e empresários artísticos, gerentes de gravadoras e tudo o mais. Cantores, músicos, compositores e arranjadores apenas lucram com as taxas do ECAD se já lucrarem também com o sucesso de sua fama e popularidade.

Caso contrário, os artistas não verão senão pequenas migalhas financeiras em suas mãos. Talvez dê para pagar algum aluguel, alguma conta de luz, ou garantir as refeições de uns dias a mais. Mas nada que garanta o mérito da medida, porque ela já demonstra ser antipopular, impopular e, praticamente, suicida.

E, além do colapso violento que, em tempos de blogosfera atuante, o ECAD causará no setor, a própria reputação da entidade, já bastante abalada, cairá ainda mais. E seus técnicos só poderão sair às ruas se forem protegidos por seu semi-anonimato, porque, se forem reconhecidos pela multidão, serão vaiados.

Isso sem falar que o sítio do ECAD já recebeu um aviso de que poderá ser invadido pelo Anonymous a qualquer momento. O grupo de hackers já é conhecido por ter invadido sítios do FBI e da Universal norte-americana.

Portanto, em vez de usar medidas arbitrárias para proteger os direitos autorais, seria melhor que se discutisse uma medida que protegesse a propriedade intelectual dos artistas sem que sacrifique os bolsos de muita gente comum.

A cada dia se discutem meios de criar um meio-termo que não apele para a pirataria nem para as restrições violentas de divulgação de bens culturais. É como na escola, quando se condena tanto o vandalismo de alunos quanto o moralismo violento dos velhos professores.

No fundo, não há uma diferença fundamental entre alunos destruindo bens escolares e professores punindo estudantes com surra de régua ou mandando-os para o confinamento em salas escuras. São atitudes extremas, de comprovada inutilidade social e moral.

Na cultura brasileira, deveria-se, portanto, criar alternativas que não caiam nessa restrição tão séria que põe o ECAD no alvo perigoso da indignação popular.

E, mais uma vez, a gestão de Ana de Hollanda é posta na berlinda pelo público.

sexta-feira, 9 de março de 2012

ROSANA JATOBÁ DEIXA A TV GLOBO



Minha ex-colega de faculdade, a jornalista Rosana Jatobá, deixou a TV Globo em comum acordo com os executivos da emissora.

Segundo o portal Terra, Rosana estaria se sentindo desprestigiada, porque imaginava que, com as trocas feitas no Jornal Nacional, com a ex-apresentadora do Fantástico, Patrícia Poeta, substituindo Fátima Bernardes, a baiana seria promovida a repórter especial do programa dominical.

No portal G1, a jornalista já divulgou o texto de despedida. Aparentemente, não foi divulgado o que Rosana fará em breve, mas ela aproveitará o tempo para ficar com o marido e os filhos.

Rosana fazia as previsões do tempo no JN. Para seu lugar, Flávia Freire foi chamada para ser a nova titular. Para isso, também o Radar SP, que tinha Flávia como titular, passa a ser comandado pela então suplente Glória Vanique.

quinta-feira, 8 de março de 2012

A LIÇÃO DE DESPRETENSÃO DOS MONKEES



No Brasil, muita gente procura algum "cantor de protesto" por trás dos anódinos cantores bregas, às custas de muita pieguice e muita choradeira, como se a simples rejeição da intelectualidade especializada (e não-etnocêntrica, preocupada com a mediocridade cultural tal qual os educadores em relação ao analfabetismo) fosse uma "bandeira de luta" dos ídolos cafonas.

No exterior, porém, a história é outra. Mesmo ídolos mais comerciais, como Pat Boone e Ricky Nelson, quanto ídolos musicalmente mais "pueris", como Chubby Checker e os Monkees - que no último dia 29 de fevereiro havia perdido seu vocalista, Davy Jones, morto aos 66 anos por ataque cardíaco - , nunca se atreveram ao pretensiosismo mais preciosista, nem a serem associados a um ativismo político que não lhes interessava.

Os Monkees, aliás, eram até de fato injustiçados. Seguindo um filão juvenil do qual outro símbolo maior (e, igualmente, "saco de pancadas") , eram os fictícios Archies, os Monkees surgiram como comediantes que parodiavam os Beatles através de um divertido seriado lançado pela rede estadunidense NBC e que levava o nome do grupo.

Os membros Davy Jones, Mickey Dolenz, Peter Tork e Michael Nesmith eram também músicos, de fato, e com expressivo talento, mas nos primeiros discos eram proibidos pelo seu empresário de gravarem suas colaborações instrumentais, se limitando a cantar acompanhados de outros músicos.

Suas músicas não tinham a sofisticação melódica que envolvia os grupos psicodélicos de então, e mesmo os Beatles haviam se evoluído, com uma ajuda indireta dos outrora "pueris" Beach Boys (que haviam lançado o impactuante Pet Sounds), para um som mais refinado.

Mesmo assim, havia boas melodias nas músicas dos Monkees, dentro de uma roupagem de rock da safra 1964-1965 que, se não oferecia grande poesia, pelo menos trazia melodias assobiáveis e vibrantes.

O grupo era o que, recentemente, se vê no fenômeno Jonas Brothers. Mesmo nas suas limitações de pop comercial, havia competência, talento e boas ideias, sem a pretensão de querer mudar o mundo e se passar por "coitado" ou por "provocador da moral elitista".

Certamente, se compararmos os Monkees, por exemplo, a grupos como Strawberry Alarm Clock, Byrds e Jimi Hendrix Experience, ou então os Doors do poeta Jim Morrison, o grupo de Davy Jones fica muito a dever. Mas, dentro de sua proposta, o grupo que deu aos fãs sucessos como "I'm a Believer" e "Last Train to Clarksville" até fez simpáticos álbuns psicodélicos, como Pisces, Aquarius, Capricorn & Jones Ltd. (1967), The Birds, The Bees & the Monkees (1968) e Head (1968), que podem não terem a força das bandas de garagem de então, mas mostravam bons arranjos e boa estética do gênero.

No fim, até os Beatles se mostraram simpáticos aos Monkees. George Harrison, com seu "coração de mãe" - na sua carreira-solo, o saudoso ex-beatle era famoso por chamar muitos músicos convidados - , até convidou um dos Monkees, Peter Tork, para tocar no disco Wonderwall Music (a estreia solo do autor de "Taxman" e "Something"), de 1968, usando um banjo que pegou "emprestado" de Paul McCartney.

Portanto, os Monkees dão uma excelente lição de despretensão. Eles nunca foram marcados pela arrogância e nem pela falsa modéstia. Não queriam ser os pretensos salvadores da música mundial. Nem a Contracultura da época foi usada como pretexto para eles.

Pelo contrário, até o fim eles atuaram com um mínimo de humildade possível, fazendo aquilo que sabiam e puderam fazer. Deixaram marca dentro de sua proposta como uma banda de rock bubblegum e como talentosos comediantes de seu seriado e seus longas.

Os Monkees, assim, são uma boa lição de despretensão que existe nos EUA, em que os nomes pop dos anos 60 não se passavam por "artistas de protesto" nem como usurpadores dos louros da Contracultura.

E essa lição serve muito bem para o Brasil, onde até os ídolos menores da Jovem Guarda e os ídolos da música brega são vistos como "artistas de protesto" e superestimados como "coitadinhos" que "revolucionaram" (sic) a cultura popular brasileira.

terça-feira, 6 de março de 2012

O PARTIDO DA BUSOLOGIA CARIOCA



Os recentes e lamentáveis episódios envolvendo uma elite reacionária da busologia fluminense e sua campanha "higienista" para a implantação do "pensamento único" no hobby mostram o quanto os busólogos do Rio de Janeiro andam não só divididos, mas também contribuem para piorar a má imagem que costuma ter o hobby na sociedade.

Uma elite seguidora do projeto de "mobilidade urbana" de Alexandre Sansão secretário de Transportes do prefeito do Rio de Janeiro, que inclui a padronização visual dos ônibus cariocas, andou fazendo comentários ofensivos contra quem discordasse de seus pontos de vista.

Seja através de críticas grosseiras nos fóruns de debates virtuais, seja no violento ataque através de fakes, ou seja, pseudônimos usados nas mensagens digitais, os chamados "busólogos pró-padronização" mostraram um espetáculo de intolerância, reacionarismo e até de completa imprudência, na obsessão de transformar comunidades sobre busologia fluminense - como a "franquia" BUSÓLOGOS DO RJ no Orkut e Facebook - em redutos do pensamento único tecnocrático.

Aliás, na prática, o Busólogos do RJ acabou se tornando o Partido da Busologia Carioca, tamanho o caráter chapa-branca que os busólogos tem aos políticos cariocas, num adesismo histérico e condescendente com os erros.

A intolerância chega ao ponto de tais busólogos reacionários usarem os nomes de seus discordantes como fakes para fazer comentários irônicos, alguns de cunho homofóbico, outros de cunho pornográfico. Muitas baixarias foram feitas até mesmo numa petição pública contra a padronização visual dos ônibus cariocas.

Imagine você discordar do ponto de vista deles e, se você for solteiro, ser xingado de "Virgem!". Ou então você ter seu nome usado por um deles como um fake que escreve um comentário pornográfico do mais baixo nível. Coisas assim são feitas impunemente, tudo em nome da preservação do "pensamento único" dos busólogos pró-padronização.

IMPRUDÊNCIA TERÁ REFLEXOS FUTUROS

É através dessa manifestação de pura intolerância que os busólogos pró-padronização dizem a que veio. Faz sentido. A padronização visual é uma medida que segue o sentido ideológico dos governos autoritários, pois se padroniza o visual dos ônibus, se padroniza também o tipo de pensamento a ser aceito, padronizam-se corações e mentes das pessoas.

Daí o autoritarismo desses busólogos, muito bem conhecidos nos bastidores. Insatisfeitos com seus próprios espaços, incluindo blogues específicos no mesmo Blogger, sem falar do monopólio de seus pontos de vista no Busólogos do RJ, querem invadir espaços que não lhes condizem, através de fakes para desmoralizar quem pensa diferente.

Eles até tem direito de defender a tenebrosa padronização visual dos ônibus. Eu mesmo nunca invadi um blogue deles para ridicularizá-los por essa medida tão restritiva e incômoda para os cidadãos cariocas. Confirmadamente, estes mostram suas caras de incômodos, quando em avenidas como a Presidente Vargas, precisam discernir um Acari de um Matias, um Braso Lisboa de um São Silvestre, um Pégaso de um Bangu.

No entanto, os busólogos reacionários invadem espaços que não correspondem ao ponto de vista deles para fazer vandalismo virtual, mostrando o quanto podem fazer no futuro contra o povo, quando se envolverão em política, já que vários deles trabalham para a Prefeitura do Rio de Janeiro ou em outras prefeituras simpáticas ao grupo político de Eduardo Paes e seu protetor Sérgio Cabral Filho.

DO VANDALISMO VIRTUAL À PRISÃO DE GREVISTAS

Alguns desses agressivos busólogos sonham com a carreira política. Por isso dão um apoio incondicional a Eduardo Paes, Sérgio Cabral Filho e Alexandre Sansão, e se sentem incomodados com as críticas feitas a eles.

Uns querem ser vereadores, outros membros do gabinete de Alexandre Sansão, e por isso estabelecem seu caminho, sobretudo através de seu "bilhete único" para o trampolim eleitoral, a promoção do "pensamento único" nos debates sobre busologia carioca.

Só que eles se tornaram imprudentes ao promoverem ações de intolerância violenta contra quem pensa diferente. Antes de pensar no seu eleitorado, eles primeiro pensaram em criar sua base de oposição, porque sabem muito bem que os que foram ultrajados por esses busólogos arrogantes e autoritários não iriam apoiá-los numa futura campanha eleitoral.

Não dá para pedir desculpas na hora do palanque. Os busólogos pró-padronização, ao fazer seus ataques, perderam boa parte do apoio. Além disso, suas atitudes já começam a vazar entre busólogos de outros Estados brasileiros, preocupados com o "estrelismo" de certos cariocas.

Não bastasse isso, a atitude já começa a preocupar pessoas que nada têm a ver com busologia, piorando cada vez mais a já preconceituosa imagem do admirador de ônibus no Brasil. E que ninguém pense que os busólogos pró-padronização estão a salvo dessa imagem pejorativa.

Pelo contrário, talvez o semi-anonimato deles lhes sirva como proteção. Dentro da busologia, eles são bem conhecidos, mas fora dela, são quase anônimos. Não fosse assim, os busólogos pró-padronização seriam hostilizados por uma população furiosa que, na melhor das hipóteses, os receberia com vaias e xingações.

Afinal, a atitude intolerante desses busólogos é uma amostra de seu caráter antipopular e antidemocrático. Poderiam ter ficado na sua e deixassem que petições contra seus pontos de vista fossem feitas já que elas, em si, são um sacrifício árduo para combater o "estabelecido".

Em outras palavras, a vontade desses busólogos já era prevalecente por causa dos interesses políticos em jogo, eles nem precisavam empastelar petições contra aquilo que eles acreditam e defendem.

Mas, fazendo esse jogo torpe, eles mostraram o quanto poderão fazer para a população, fora do âmbito da busologia, se eles forem parlamentares ou prefeitos.

Se eles são capazes de criar fakes para disparar ofensas morais ou mensagens pornográficas, poderão, como parlamentares, votar em favor de cortes salariais de trabalhadores ou pelo leilão de privatização de empresas públicas.

Na prefeitura, então, esses "donos da verdade" fariam algo pior, reprimindo manifestações de greve com a violência policial e prendendo trabalhadores que realizassem piquetes nos locais de trabalho.

Ou seja, a sociedade como um todo é que precisa se preocupar com esses busólogos. Hoje eles são apenas os "admiradores de um hobby excêntrico", amanhã, alçados à carreira política, serão os inimigos do povo que dizem tanto defender.

Eles serão mais uma geração de políticos fisiológicos preocupados mais com suas vantagens pessoais do que com o interesse público. E seu currículo de terrorismo virtual e ofensas pessoais será uma mancha que não se apagará nos discursos de palanque e nos afagos eleitoreiros na população.

Isso porque eles provaram que suas visões antipopulares e suas atitudes fascistas não são processos passageiros. E o futuro será um enérgico cobrador de suas personalidades desgovernadas.

domingo, 4 de março de 2012

OS ESTADOS UNIDOS DE SERRA



Foi divulgado que o demo Demóstenes Torres (DEM-GO) e o tucano Marconi Perillo estabeleciam ligações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, através de gravações que só a velha grande mídia não mostrou.

O que mostra o quanto a fauna demotucana é o bicho. Mas se há um bicho preferido desse pessoal todo, o bicho é o mico.

O que, por sinal, é o bicho de estimação do economista e político José Serra.

Em entrevista ao insuspeito Bóris Casoy, José Serra cometeu um deslize de informação, desses que constrangem por conta do desconhecimento de uma informação tão fácil.

José Serra havia citado o nome Estados Unidos do Brasil como o nome completo de nosso país. Bóris, por mais reacionário que seja, pelo menos tem a obrigação de acompanhar os rumos de nossa história, e tentou corrigir o entrevistado gentilmente.

- O nome é República Federativa do Brasil. - disse o âncora.

Ao que serra respondeu:

- Mudou?

Bóris respondeu afirmativamente.

Foi uma grande gafe do mesmo ex-presidenciável que, na sua "histórica" campanha de 2010, foi "seriamente atingido", segundo a Rede Globo de Ali Kamel, por um "objeto estranho" que, sabemos, não foi mais que uma bolinha de papel.

O pior é que Serra, líder estudantil na primeira metade dos anos 60, havia se exilado para outros países, depois do golpe de 1964. Pelo menos poderia ter se informado de que o Brasil deixou de ser "Estados Unidos" em 1968, passando a adotar o nome jurídico atual de República Federativa do Brasil.

Mas talvez José Serra queira que o Brasil seja integrado aos Estados Unidos da América. Sua ideologia neoliberal demonstra que isso faz sentido. Só que a gafe historiográfica indica o quanto Serra mostra-se retrógrado e pouco identificado com o país. E que já começa a ser malvisto até pelos seus colegas do PSDB.

Aécio Neves deve estar rindo muito, até hoje.

quinta-feira, 1 de março de 2012

CRÔNICA SOBRE OS 30 ANOS DA FLUMINENSE FM




Sinceramente. Com todo o respeito aos jornalistas da Band News Fluminense FM, rádio FM all news é um saco. Não que FM não pudesse ter notícia, mas essa conversa de "notícia 24 horas" é papo para boi dormir (de tédio).

Além disso, o conteúdo acaba sendo em boa parte supérfluo, e as pressões da audiência fazem com que se rompam as fronteiras entre redações de radiojornalismo e mesa de botequim, indo ao tal showrnalismo light.

E ver que nem os intervalos comerciais colaboram, com o blablablá caricato que nos faz concluir que boa parte dos publicitários vive fora de órbita, dá vontade de, se eu fosse músico de rock, sair musicando tudo que é comercial de rádio all news, adaptando os textos publicitários para versos rimados e rastreando as informações para colocar o autor do texto publicitário como parceiro letrista.

Que vontade de dar um arranjo hendrixiano para os insossos comerciais de consultórios médicos, ou jogar arranjos tipo Strawberry Alarm Clock em comerciais de supermercados. Ou transformar propagandas institucionais em clássicos do rock bem pesados. Criar meus próprios jingles, jogar os autores desses textos publicitários como meus co-letristas, a revelia deles.

Se bem que pensei até mesmo de transformar em músicas de rock boletins esportivos da Band News, previsões do tempo, comentários ou até notícias.

Este relato acima tem todo o espírito da antiga Fluminense FM. Porque, até hoje, não apareceu uma rádio à altura da antiga emissora, que para agravar foi injustiçada e humilhada nos anos 90, ano em que começou a mediocrização cultural que atinge hoje níveis mais extremos.

Ouvia a Fluminense, a princípio, através do rádio ligado por um vizinho guitarrista, num condomínio no Centro de Niterói, já em 1982. Em 1983 já comecei a conhecer a rádio por intermédio dos colegas, mas só comecei a ouvir a rádio, regularmente, de 1984 a 1990. Estava entre o fim da infância e o começo da puberdade.

Era irônico isso, porque aos onze anos ouvia uma rádio rock adulta e a entendia bem, e quando tornei-me adulto me faltavam rádios assim, mas haviam rádios pseudo-roqueiras idiotas, feitas para pré-adolescentes (rádios que comentarei a seguir).

A emissora teve um projeto de radialismo rock que é compreendido superficialmente por muitos. Pouca gente sabe, por exemplo, que, sobretudo na era dos arquivos de MP3, não dá para uma "rádio de rock" hoje em dia ter locução e vinhetas atropelando as músicas, porque senão o ouvinte vai desligar o rádio e vai baixar a música no YouTube ou nos mecanismos de download, porque ela sai mais completa.

Mas mesmo coisas mais óbvias, como o fato de que uma rádio de rock não pode ter o mesmo estilo de locução de uma rádio de dance music. Isso deu numa distorção movida por motivos profissionais.

O segmento do pop dançante gerou uma ampla demanda de locutores, tão grande que nem todos foram aproveitados profissionalmente. Aí parte deles resolveu invadir o radialismo rock se aproveitando dos diplomas de cursos, coisa que muitos grandes entendidos de rock só conseguem obter em última hora, apesar de seu talento intuitivo de locução.

Infelizmente, nos anos 90, muitos sucessores de Luiz Antônio Mello, Alex Mariano, Philip Johnston, José Roberto Mahr, Paulo Sisino - e, no caso paulista, de Leopoldo Rey, Valdir Montanari e Kid Vinil - e outros foram parar nas oficinas de consertos de aparelhos eletrônicos, ouvindo solitariamente seus vinis de rock clássico.

Estive em Salvador e a cidade, até hoje, não teve uma única rádio autenticamente rock 24 horas no ar. O que houve lá foi a mais cafajeste deturpação do radialismo rock, a mais caricata, equivocada e patética diluição do segmento, a 96 FM. A única exceção estava num bom programa de Luís Cláudio Garrido, jornalista baiano que, curiosamente, era meio um clone de Luiz Antônio Mello.

Mas em outras partes do Brasil, o brilho da Fluminense FM só era apenas um rumor distante. Nos anos 80 e 90, muitas rádios que usavam o rótulo "rock" eram na verdade emissoras de hit-parade com vitrolão roqueiro já previamente preparado pelas gravadoras. Rádios pseudo-roqueiras cujas vinhetas tinham um cara que falava a palavra "rock" como se estivesse arrotando.

Locutores com vozes de animadores de ginástica aeróbica falando em cima até de introduções ou finais de canções de rock pesado. Repertório limitado a nomes manjados ou caricaturas comerciais tocados em 60 músicas repetidas todo dia, em prazos de quatro em quatro meses. Tudo isso ignorando as boas lições da Fluminense de 1982-1985 (e até, com alguns deslizes relativos, a de 1986-1990), que nunca repetiu muito as músicas e tocava, na programação diária, até lados B de compacto, músicas longas e faixas instrumentais.

Difícil dizer todas as virtudes da Fluminense em um único texto. Mas sabe-se que a Fluminense errou em suas limitações financeiras e nos conflitos que LAM teve com o hoje falecido Ephrem Amora, então superintendente do Grupo Fluminense de Comunicação. E isso fez a emissora cair e não se preparar para os anos 90, enquanto rádios muito menos competentes mas com departamento comercial impecável passavam a rasteira.

O radialismo rock viveu até mesmo sua idade das trevas, com o reacionarismo acima dos limites de adeptos da Rádio Cidade, rádio cuja trajetória nunca teve a ver com o rock e, em 1995, arriscou o segmento sem ter a menor competência para isso. E, pior: transformou a ex-locutora da Fluminense, Monika Venerabile, em caricatura de si mesma e hoje ela, com a moral baixa entre os roqueiros, trabalha com fofocas sobre famosos.

Em tempos em que tenho que suportar o reacionarismo extremo de uma elite de busólogos - os tais entusiastas de ônibus que se venderam para o prefeito carioca Eduardo Paes e seu secretário Alexandre Sansão, defendendo a antipopular padronização visual dos ônibus - , me relembro do reacionarismo similar com os adeptos da Rádio Cidade, cujo reflexo se deu até na comunidade "Eu Odeio Acordar Cedo" no Orkut, há cinco anos.

E isso mostra o quanto tem gente boçal, reacionária, medieval, neste país. Gente que parece moderna, com roupas arrojadas, linguagem informal até demais, mas com ideias que parecem fazer os líderes da Opus Dei ficarem de cabelos em pé. Gente que defende o "velho" sob o verniz do aparentemente novo, e reage com raiva contra aqueles que não veem validade nesses projetos retrógrados.

Mas até o Tea Party tem verniz moderno. Afinal, o nome é ambíguo, podendo ser tanto o "partido do chá" como a "festa do chá". E se a descolada Sarah Palin tem ideias medievais, as "nações roqueiras" da Rádio Cidade dos anos 90 e os holdings busólogos não agem de forma diferente.

Felizmente, a Internet - e, modéstia à parte, através de muita luta minha - fez o radialismo rock verdadeiro voltar ao reconhecimento público. As web radios estrangeiras faziam sua parte, o que inevitavelmente fez derrubar a 89 FM e a Rádio Cidade que faziam seu "radialismo rock à moda da casa", e com linguagem tipo Jovem Pan 2.

Não dava para valorizar esse "irrit-pareide roqueiro" enquanto rádios digitais de outros países - e, no Brasil, houve a Rocknet - tocavam bandas menos conhecidas e músicas mais empolgantes do que a mesmice do paradão popirroque tocado no Brasil. Isso fez irritar as "nações roqueiras" ultrareacionárias, fascistas, autoritárias, mas eles tiveram que engolir e aceitar os novos tempos.

E as duas "rádios rock" comerciais, 89 e Cidade, que davam a impressão de estarem preparadas para serem "roqueiras" até numa hecatombe nuclear, em 2006 tiveram que migrar rapidamente para o pop, de tão "queimadas" com a pressão da Internet.

Ironicamente, os "roqueirões" dessa época, que chegaram a rogar "morte aos pagodeiros, sertanejos e funqueiros", hoje são justamente os maiores defensores do "pagode romântico", "sertanejo" e "funk carioca" que rolam na Nativa FM (que absorveu ex-produtores da 89) e Beat 98 (que absorveu ex-produtores da Cidade).

E hoje a Fluminense FM voltou em alta, com anúncio de filme "romanceado", reedição de A Onda Maldita e de uma onda de comemorações sobre sua lembrança. E LAM continua mantendo sua lucidez e seu senso crítico nas redes sociais e nos seus artigos de imprensa e Internet, onde tem um blogue. Até mesmo a Band News FM terá que falar da emissora, com os executivos da emissora noticiosa engolindo a seco.

Mas não nos preocupemos. Sigamos em frente para lembrar de uma das primeiras emissoras de rock que apostou em demos de bandas novas, em oferecer músicas pouco conhecidas e até "difíceis" para os ouvintes na programação diária e em adaptar a cultura rock para uma realidade bem brasileira, a nossa eterna Fluminense FM, a Maldita.

Quem sabe, se eu puder ter uma banda de rock, vou musicar umas propagandas não musicais nos intervalos da Band News e colocar arranjos mais roqueiros em cima. Aí os anunciantes também terão que engolir a seco.