sábado, 18 de fevereiro de 2012

ÔNIBUS DE CURITIBA: A AGONIA DE UM MODELO



A recém-encerrada greve dos rodoviários de Curitiba mostra o lado sombrio e decadente que está por trás de um modelo de transporte coletivo e de mobilidade urbana que, a dois anos da Copa de 2014, demonstra total decadência e saturação.

Um sistema de ônibus baseado no poder concentrado das secretarias de transportes, municipais ou metropolitanas, intermediado por uma paraestatal (tipo SPTrans) que controla o sistema de ônibus, restringindo a autonomia das empresas apenas ao âmbito operacional, técnico e financeiro, e também na organização política de consórcios, demonstra, na prática, estar muito longe do perfil futurista prometido, e já começa a deixar de responder às atuais demandas urbanas da sociedade.

Idealizado por Jaime Lerner em 1974, depois de todo um planejamento técnico na primeira metade dos anos 70, o modelo tecnocrático de transporte coletivo hoje está desgastado, antiquado, complicado e difícil de ser mantido, apesar das promessas mirabolantes de sucessivos secretários de transportes, que se acham dotados de poderes extraordinários para enfrentar qualquer dificuldade.

Pois as dificuldades são tantas e os poderes não são tão extraordinários assim. O portal R7 noticiou, certa vez, que a SPTrans, a "paraestatal" que controla os ônibus da capital paulista, afirmou ter dificuldades para contornar todos os problemas do sistema. Em entrevista a O Globo, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, admitiu que o transporte é um setor muito difícil de ser administrado.

Mesmo assim, parece que impera a vontade masoquista de enfrentar dificuldades tão complicadas e cada vez mais crescentes. Nos últimos anos, numa irônica coincidência da implantação do modelo "curitibanizado" (com devidas adaptações) a cidades como Rio de Janeiro, Niterói e João Pessoa, o modelo já começa a se desgastar, até de forma trágica, nas suas principais cidades de origem, como Curitiba e São Paulo.

Juntando as várias cidades que adotam esse tipo de sistema, os fracassos são sucessivos. Pressões violentas no trabalho de motoristas, que afetam seriamente a saúde destes e ameaçam a vida dos passageiros, ônibus enguiçados, outros queimados, outros acidentados.

Só nas últimas semanas, um micro-ônibus em São Paulo provocou um acidente, com dois mortos e nove feridos. Um ônibus no Rio de Janeiro bateu num poste, que caiu e matou um transeunte em um ponto de ônibus em Madureira. Outro ônibus do Rio de Janeiro foi incendiado na Av. Brasil. E houve a greve dos rodoviários de Curitiba, que afetaram tanto a vida na cidade que bancos chegaram a ficar fechados.

Isso é só o começo. Afinal, o modelo "moderno" de transporte coletivo, na verdade, é uma herança de uma mentalidade tecnocrática que, tida como "atual", no entanto é derivada de uma racionalidade velha, originária da ditadura militar.

Em Curitiba e São Paulo, por exemplo, a implantação desse modelo remete a governos conservadores. Jaime Lerner, o arquiteto e prefeito curitibano em 1974, era filiado à ARENA e bom aluno da UFPR comandada pelo reitor Flávio Suplicy de Lacerda, que depois virou ministro do general Castelo Branco e, com o acordo MEC-USAID, tentou desmantelar o movimento estudantil.

Já em São Paulo, o sistema foi implantado pelo prefeito e banqueiro Olavo Setúbal, já falecido, ligado ao ex-prefeito Paulo Egydio Martins, então filiado à ARENA e hoje ligado ao PSDB. Egydio foi conhecido também quando, nos anos 50, como presidente da UNE, tentou vincular o movimento estudantil à ideologia conservadora da UDN, numa fase trevosa da entidade estudantil.

Se percebermos bem, essa "curitibanização" dos ônibus também está associada a políticos que cometem descasos em setores como Educação e Saúde, são maníacos em privatizar estatais, demitem funcionários públicos com frequência e cometem descasos até na fiscalização de prédios antigos.

Em outras palavras, são políticos totalmente indiferentes ao interesse público, que parecem governar para turistas e investidores estrangeiros, ou, quando muito, para empresários e tecnocratas locais. Eles tentam parecer "inocentes" com seus projetos de transporte coletivo, mas a farsa já começa a ser desmascarada.

É como ocorre na grande imprensa, quando os antigos "senhores" da opinião pública também gozavam de uma "superioridade" invencível, antes que uma geração de blogueiros se encorajasse em desqualificá-los, a ponto da antes inatacável Folha de São Paulo ser apelidada de "falha" e os comentaristas políticos, antes quase santos, fossem classificados como "urubólogos", "calunistas" e "hidrófobos".

As primeiras críticas já começam a vir contra esse modelo de transporte planejado por Jaime Lerner. A padronização visual dos ônibus, "vedete" desse modelo, já começa a perder totalmente o sentido, irritando quem ainda aposta na medida e se recusa a reconhecer o fracasso.

Afinal, os passageiros comuns, sejam aqueles dotados de limitações específicas - gestantes, analfabetos, idosos e deficientes - como aqueles que estão atarefados demais para redobrarem a atenção na espera de um ônibus, sentem dificuldades óbvias para reconhecer um ônibus dentro da mesmice das cores padronizadas, que camuflam diferentes empresas num mesmo visual ou "racham" as frotas de dadas empresas em duas pinturas conforme o tipo de serviço.

Esse modelo, que conta também com um método autoritário de concessão de linhas, da concentração de poder dos secretários de transportes e da formação política de consórcios, também se desgasta na medida em que favorece a corrupção, dificulta a transparência (afinal, não há identidade visual que possibilite o reconhecimento fácil de uma empresa) e cria transtornos para rodoviários e passageiros.

Presentear as populações com ônibus BRTs, piso baixo e motor de marcas suecas não é a solução. Pelo contrário, a sucessão tendenciosa desses paliativos de "renovações" de frotas pode esconder esquemas de superfaturamento e lavagem de dinheiro, sem falar que as construções de "corredores exclusivos" muitas vezes passa por cima de reservas ecológicas e, se deixar, até de patrimônios históricos, tudo em nome de um trajeto planejado por tecnocratas.

A crise, em seus primeiros momentos, parece não sensibilizar as autoridades, que batem o pé e mantém o modelo, como se ele fosse "a mais alta definição em sistema de transporte coletivo". Só que a realidade mostrará mais problemas, mais transtornos, mais dificuldades e até mesmo mais tragédias, e ainda se espera as confusões em que os turistas se meterão diante dos ônibus com visual padronizado que terão que pegar.

Pelo jeito, Jaime Lerner, o "FHC da busologia", tem cada vez menos chances de chegar a 2014 em alta reputação. Seu modelo já se comprova decadente, saturado, ineficaz, cheio de desvantagens. E o povo não merece se sacrificar tanto em nome de supostos benefícios que cada vez mais se revelam insuficientes para os novos tempos.

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