sábado, 25 de fevereiro de 2012

O LADO NADA LIBERTÁRIO DE RONALDO LEMOS


RONALDO LEMOS - O ar "jovial" a-la Yoani Sanchez não nos deixa mentir sobre seu perfil neoliberal.

Ronaldo Lemos, advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas, autor de um livro sobre o tecnobrega (ritmo brega-popularesco de Belém do Pará), há quase um mês se envolve numa causa bastante oposta àquela que o fez parecer aos seus seguidores um líder "libertário" da cibercultura brasileira.

Lemos é um dos conselheiros-membros do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, do Ministério da Justiça, desde o dia primeiro deste mês. O "combate à pirataria" é um dos pretextos usados pela grande indústria a título de combater a veiculação livre de informações digitais.

Afinal, embora seja necessário fortalecer o mercado legal de CDs e DVDs e garantir a renda de artistas, compositores, roteiristas, atores etc, o argumento de "combate à pirataria" é tão somente um ato de repressão à livre informação, sem representar benefícios reais àqueles que deixam de arrecadar em direitos autorais (a maioria do "bolo" fica nas mãos dos grandes editores).

Embora festejado como um "teórico rebelde" da mídia digital, não e esse o único aspecto estranho que envolve a carreira desse advogado, especializado em informática e tecnologia digital. Ronaldo, além da "insuspeita" Fundação Ford, é sustentado pelo Open Society Foundation, organização comandada por George Soros.

Soros é um magnata e especulador financeiro que coopta, para si, os movimentos sociais de todo o mundo, sendo uma das figuras mais perigosas do planeta. Além disso, Soros, um dos maiores defensores do neoliberalismo em todo o mundo, havia dito, sobre a campanha presidencial brasileira de 2010, a célebre frase "ou Serra, ou caos".

Discordâncias com o governo Dilma à parte (já que o assunto aqui não é este), George Soros é autor da teoria do "negócio aberto", que, por trás da fachada de "mídias livres", junta os princípios da "livre iniciativa" (que facilita a competição desleal entre empresas) e da desmobilização dos movimentos sociais, além de, no caso brasileiro, da desqualificação profissional e artística das expressões culturais.

Ou seja, trata-se de um processo nada libertário. Embora, aparentemente, o processo de mediocrização cultural seja feito sob o pano de fundo das "novas mídias digitais", através de um aparato de CDs caseiros ou de sucessos musicais lançados primeiro nas redes sociais (YouTube, com divulgação no Twitter e Facebook), ou de um mercado "independente" de "pequenas" gravadoras e o comércio informal de camelôs, o processo do "negócio aberto" não parece contrariar os interesses dos barões da mídia como se alardeia por aí.

Pelo contrário, Ronaldo Lemos é articulista do jornal O Estado de São Paulo, e sua concepção de mídias digitais é compartilhada até mesmo pelo também articulista do Estadão, Carlos Alberto di Franco, um dos seguidores, ao lado do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, da filial brasileira da seita medieval Opus Dei (que, nos EUA, inclui membros do reacionário Tea Party).

Mas mesmo o tecnobrega defendido por Ronaldo Lemos também é alvo de incoerências de informação. Enquanto Ronaldo, em seu livro co-escrito com Oona Castro (da Fundação Cultural Banco do Brasil - eu a vi pessoalmente), intitulado Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música, afirma que o ritmo paraense foi boicotado pela grande mídia, a realidade mostra o extremo oposto ocorrido com o "fenômeno".

Primeiro, porque no calor do fenômeno, o grupo Maiorana, da maior oligarquia midiática do Estado do Pará e sócia das Organizações Globo no serviço de radiodifusão, sempre deu apoio ao tecnobrega (também conhecido como tecnomelody). A data, 12 de março de 2006, não deixa mentir, e um texto entusiasmado foi publicado no jornal dos Maiorana, O Liberal, além da rádio Liberal FM dar sempre espaço a seus ídolos.

No plano nacional, o tecnobrega ganhou espaço total na velha grande mídia que seus ideólogos dizem "discriminar" o ritmo paraense. Mesmo artistas "menos conhecidos" do gênero, como Viviane Batidão e Mike do Mosqueiro, sem falar da mais conhecida, Gaby Amarantos, a Beyoncé do Pará, apareceram no Domingão do Faustão, da Rede Globo.

E até Nelson Motta deu o maior aval ao tecnobrega e a Gaby, em especial. Mas, como "tudo passa, tudo sempre passará", não é mais o Nelson Motta bacana, o jornalista cultural dos anos 60 nem o letrista de Lulu Santos, mas o cronista do Jornal da Globo e membro do Instituto Millenium que defende o tecnobrega como defende o "funk carioca" e "reconhece" a "importância" de Zezé di Camargo & Luciano.

A Folha de São Paulo, O Globo, o Estadão, a grande mídia toda deu aval ao tecnobrega. Só Caras ainda não, mas um dia receberá Gaby Amarantos de braços abertos. E até a revista Veja, que costuma condenar tudo e todos e falar mal até de movimentos indígenas, se derreteu com a musa do tecnobrega. Que depois foi ao último Congresso Fora do Eixo reclamar que é "discriminada" pela grande mídia.

Se isso acontece com o tecnobrega, então isso mostra o quanto o neoliberalismo "rebelde" de Ronaldo Lemos, o maior propagandista do estilo paraense, quer mesmo dizer. Ele não quer a ruptura com as atuais leis do mercado. Ele não quer romper com a velha mídia que lhe dá uma coluna num de seus principais veículos. E ele não quer que as mídias digitais possam ir além do pragmatismo digital que não assusta as grandes corporações.

Na melhor das hipóteses, Ronaldo Lemos defende apenas a "flexibilização" do mercado, sem que outras regras venham a substituir o neoliberalismo. E, embora ele seja visto pelos menos avisados como uma figura "libertária", o que ele quer é evitar que os efeitos revolucionários das primaveras árabes e das "ocupações" mundiais se reflitam no Brasil, pelo menos da forma como refletiram nos países de origem.

Por isso ele defende a mediocrização cultural, já dominante na nossa mídia, apenas com a diferença do apoio das novas tecnologias digitais. Em outras palavras, ele quer informatizar o brega-popularesco, através de uma fachada "libertária" que não liberta, "contestatória" que nada contesta, "problemática" que não tenha problemas e "transformadora" que não transforme coisa alguma.

As "novas mídias" de Ronaldo Lemos, no fundo, são mais do mesmo. O apoio da velha grande mídia às suas ideias comprova isso, da forma mais clara possível. Só não vê quem nada entende.

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