domingo, 19 de fevereiro de 2012

O EXAGERO DE FERNANDO MEIRELLES



Elis Regina, Raul Seixas, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Itamar Assumpção, Renato Russo, Leila Diniz, Dom Rossé Cavaca, Chico Science, Glauber Rocha. Se o pior é a ausência deles do nosso convívio e a impossibilidade dos mesmos de lançar novas obras e ideias atuais, é o fato de que eles não podem mais reclamar quando são "usados" em contextos que estão fora de seus propósitos originais.

Para não dizer também os casos de Gregório de Matos, o poeta baiano usado para "justificar" qualquer baixaria da mediocrização cultural de hoje, e Antônio Conselheiro, o ativista social agora usado para "defender" até o "funk carioca".

Não bastasse um Chitãozinho & Xororó (ab)usando de Raul Seixas em nome da promoção pessoal da medíocre dupla, Alexandre Pires se dizendo "influenciado" por Maysa, um Pedro Alexandre Sanches "dono" das ideias de Oswald de Andrade e de Itamar Assumpção e, em outros tempos, Fernando Collor "psicografando" (ou melhor, plagiando) frases de José Guilherme Merquior, vemos o pretensiosismo render ainda novos exageros.

Num desfile de uma escola de samba de São Paulo, Águia de Ouro, cujo tema homenageou o Tropicalismo, o cineasta Fernando Meirelles, num tom de exagero pretensioso, disse que "sentiu-se o próprio Glauber Rocha".

Com todo o talento que possa ter Fernando Meirelles, ele não pode ser comparado a uma mente audaciosa, revolucionária e altamente crítica como Glauber. O cineasta baiano foi uma figura ímpar, e uma personalidade tão difícil quanto controversa, uma mente tão audaciosa, criativa e agitadora que dizia-se, sobre o sentido de ser do Cinema Novo, que ele só existia quando Glauber estava no Rio de Janeiro.

Fernando, por sua vez, é de um contexto muito diferente, menos ousado até do que os menos ousados do Cinema Novo. Ele é de um outro contexto, de cineastas com experiência de comerciais de TV, da produtora Conspiração Filmes (mais identificada a uma mentalidade comercial, em que pese sua competência e profissionalismo inegáveis), de uma mentalidade crítica ainda menos ousada do que os menos ousados do Cinema Novo.

Quando muito, Fernando Meirelles poderia ter se comparado a Cacá Diegues, mas este, vivo e ativo - quase que um "Nelson Pereira dos Santos" da turma da Conspiração - , dificilmente renderia uma comparação de impacto.

Se a comparação tivesse como alvo o Anselmo Duarte, talvez fosse menos pretensioso. Mas Anselmo, que há 50 anos finalizou o filme O Pagador de Promessas, não tinha a ver com o Cinema Novo e muito menos com o Tropicalismo.

É bom deixar claro que o filho de Glauber, Erik Rocha, havia comprado uma briga com os cineastas da Conspiração, acusando estes de fazer "cinema novinho e arrumadinho". Se o pai falava na "estética da fome", como proposta de cinema crítico, analítico e combativo - seguido, com as devidas diferenças de estilo, pelo seu filho - , Erik ironizava a pretensa herança cinemanovista que os diretores da Conspiração julgam ter, quando na verdade eles estão muito distantes dos propósitos originais do Cinema Novo.

E, com toda a certeza, os cineastas da Conspiração, por mais que tenham seus méritos, estão muito distantes de Glauber Rocha. Não dá para comparar o pragmatismo daqueles com as ousadias deste. E, num tempo de mediocrização cultural dominante, qualquer um quer ser gênio e revolucionário.

É como diz o ditado popular, "Água benta e pretensão, todo mundo toma quando quer". E, como havia lembrado Luiz Antônio Mello, que aniversariou ontem (parabéns LAM), no seu livro A Onda Maldita, toma-se muito da primeira, mas toma-se ainda mais da segunda.

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