quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A MORTE DE CHICO SCIENCE E A CRISE NA VANGUARDA MUSICAL BRASILEIRA



Há quinze anos, na manhã de 02 de fevereiro de 1997, um acidente de carro tirou a vida do cantor Francisco de Assis França, o Chico Science. Ele estava a pouco mais de um mês para completar 31 anos de idade e, coincidência ou não, ele faleceu num dois de fevereiro, feriado celebrado em Salvador, terra da axé-music.

Afinal, o líder do mangue bit era visto com muita inveja pelos medalhões da axé-music (com algumas exceções, como Daniela Mercury, que sempre respeitou o legado do pernambucano). Afinal, o mangue bit (ou mangue beat) não tinha a visibilidade e o sucesso comercial da axé-music, mas em compensação a axé-music não tinha o prestígio cultural dos garotos-mangues. E a axé-music já tinha essa obsessão imperialista de expandir suas reservas de mercado, até mesmo em Recife.

Chico Science, na ocasião, iria visitar o músico Jorge Du Peixe, percussionista do grupo Chico Science & Nação Zumbi, quando morreu. Jorge acabou sentindo a herança, pois o grupo segue até hoje, apenas como Nação Zumbi, sendo Jorge o atual vocalista.

O grupo pernambucano liderou uma cena produtiva e transformadora que foi o mangue bit. Havia outros grupos no movimento, o mais famoso deles o Mundo Livre S/A, de Fred 04. Era a verdadeira amostra da antropofagia cultural de Oswald de Andrade, tão deturpada pelos oportunistas de plantão, mas respeitada pelos garotos-mangues.

Afinal, o mangue bit assimilava o hip hop norte-americano, além do rock pesado e do pós-punk. E ainda assimilava o Rock Brasil independente, da linha dos contratados das Baratos Afins, como Fellini (cujo vocalista Cadão Volpato tornou-se fã e amigo dos garotos-mangues e teve uma música gravada por CS&NZ).

Mas, por outro lado, o mangue bit também assimilava as tradições pernambucanas, como o maracatu, o coco, o maxixe e outros ritmos brasileiros. E falava em novas tecnologias e novas mídias sem esse exagero de submeter periferias e underground à subordinação às máquinas.

Chico Science era um grande agitador cultural. Por isso seu falecimento prematuro e no auge da carreira fez a cena pernambucana perder seu grande líder e mentor. O mangue bit tentou continuar, e até alguns de seus intérpretes (Mundo Livre S/A, Otto e Nação Zumbi) continuam bem, mas o movimento, tal qual era entre 1993 e 1996, acabou.

A mediocrização cultural, na época puxada pela axé-music e seus subprodutos (como o "pagodão" do É O Tchan, Terrasamba e Companhia do Pagode, entre outros), cresceu de forma assustadora com a associação entre indústria cultural, velha mídia, intelectuais etnocêntricos, rádios FM oligarquicas e os maiores comandantes dessa farra toda, Fernando Henrique Cardoso e o senador Antônio Carlos Magalhães, o maior "mecenas" da axé-music no plano nacional.

Com o tempo, veio a "panela" de intelectuais defensores da mediocridade cultural, que pelo seu violento lobby fez o brega-popularesco, mesmo desgastado, se prolongar e se repetir em tendências apenas recicladas nas estratégias de marketing (que não tornam nomes como Mr. Catra, Gaby Amarantos, Banda Calypso e Michel Teló mais "geniais", mas tão somente produtos mais "digestíveis").

Isso acabou fazendo o brega-popularesco se expandir como um câncer, ameaçando a cultura brasileira através da "ditabranda" mercadológica. E logo vieram vozes dignas de um Francis Fukuyama, como a de Pedro Alexandre Sanches que, modernizando o dramalhão monográfico de Paulo César Araújo e sofisticalizando o discurso de Hermano Vianna, anunciou o "fim da História" da MPB, submetendo a cultura brasileira a um "deus mercado" tão defendido na prática quanto negado no discurso.

E isso refletiu até mesmo em antigos eventos do mangue bit, como o Abril Pro Rock e, sobretudo, o Recbeat - entregue à mediocrização mais escancarada, acolhendo bregas, funqueiros e tecnobregas - , que simplesmente viraram meros realimentadores do mercadão musical da velha grande mídia, mesmo sob o rótulo de "novas culturas" e "novas mídias".

E, com a mediocrização cultural que havia sido forte entre 1990 e 1994, mas por um breve momento foi ameaçada por um cenário produtivo de MPB autêntica, para depois voltar ainda com muito mais força, Chico Science é pouco lembrado hoje.

Num país onde muitos incautos pensam que o "funk carioca" é "vanguarda" - tudo isso por conta de um irritante som que, na sua forma atual, reúne buzinas, balbuciações, sons de galopes e letras chulas ou risíveis - , o falecido cantor é tratado com grande desdém por aqueles que pensam que vivemos um grande momento de nossa cultura. Infelizmente, não vivemos.

Até a vanguarda cultural está em crise, quando vemos artistas performáticos que preferem a provocação como um fim em si mesmo nunca representarem uma ameaça ao mercadão musical. E mesmo cantores do porte de Zeca Baleiro e seus sucessores, gente cheia de referenciais culturais, acaba adotando uma atitude cordeirinha com o mercadão brega-popularesco, consentindo com a mediocridade cultural dominante.

Não temos mais grandes movimentos criadores, enquanto colecionamos grandes nomes da música brasileira que faleceram precocemente, como Noel Rosa, Assis Valente, Garoto, Newton Mendonça, Sílvia Telles, Sidney Miller, Nara Leão, Raul Seixas, Renato Russo, Elis Regina, Cazuza, Chico Science, entre outros.

Tudo isso quando muita gente é enganada pela choradeira dos "coitadinhos" do brega-popularesco (Waldick Soriano, Zezé di Camargo & Luciano, Gaby Amarantos, Leandro Lehart, Mr. Catra etc) que no fundo não passa de um artifício das tendências brega-popularescas, a pretexto de "serem incluídas no panteão da MPB", participarem do mesmo bacanal da "MPB burguesa" já complacente com o mercadão fonográfico.

Dessa forma, o Brasil, em vez de ter uma cultura de verdade, sólida e vigorosa, se submete ao comercialismo que transforma tanto a MPB mais sofisticada quanto a antiga música das classes populares em formas diluídas, assépticas, inofensivas, conformistas.

Chico Science até que tentou. Sua tentativa valeu. Mas ela servirá para uma outra análise sobre nossa cultura, depois de passar a euforia demagoga da intelectualidade etnocêntrica.

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