sábado, 11 de fevereiro de 2012

GOSTO MUSICAL E RESPONSABILIDADE SÓCIO-CULTURAL


CINARA LEAL DIZ CURTIR IVETE SANGALO; NATÁLIA RODRIGUES NEM CHEGA PERTO.

Quem é que gosta de brega-popularesco mesmo? Dizem que gosto não se discute, mas boa parte do "gosto natural" das pessoas vem da indigência ditada pelas emissoras de rádio e de TV aberta, controladas por empresários ligados a famílias que detém o poder econômico de nosso país.

Por isso é que, independente de gostar ou não de intérpretes popularescos, o gosto musical, aparente ou não, declarado por gente famosa acaba por influir negativamente na cultura brasileira, tão carente de bons referenciais.

Sobretudo quando envolvem mulheres solteiras que, famosas ou não, têm preguiça de desapegar-se aos péssimos referenciais culturais ditados pelo rádio e pela TV. As atrizes, sobretudo, acabam influindo mal nisso, porque elas são formadoras de opinião e influem mesmo na "ditabranda do mau gosto" que emperra o progresso cultural brasileiro, seja musical, seja em outros valores.

Me lembro dos tempos em que havia o Menudo, nos anos 80. Era um grupinho vocal muito tolo, com péssimas músicas, cujos integrantes quase nada faziam, porque tudo era feito pelos seus produtores e empresários. Tudo bem, as garotas adolescentes adoravam o grupo, eram fãs histéricas, mas passada a moda, elas deixaram de curti-los naturalmente e a idolatria tornou-se coisa do passado.

Só que hoje envergonha o apego que os jovens adultos, sobretudo moças, têm ao brega-popularesco. Nomes como Exaltasamba e Ivete Sangalo não são muito diferentes do Menudo, artisticamente são igualmente intragáveis. Só que a idolatria ultrapassa mesmo a marca dos 35 anos, os diplomas universitários, os estágios probatórios dos serviços públicos.

Não é à toa que o jornalista Carlos Nascimento disse que um dia fomos mais inteligentes. Eram tempos em que as pessoas não eram robôs de trios elétricos, e naquela época a mediocrização cultural existia, mas não atingia índices tão avassaladores. Ver Michael Sullivan entre os mais tocados da MPB FM, por exemplo, é uma grande vergonha. É como dar o Prêmio Nobel da Paz a Paulo Maluf.

Deixar de curtir Ivete Sangalo, longe de ser uma covardia, é um ato de coragem. Existem centenas e centenas de cantoras mil vezes melhores do que ela. Ivete é mera entertainer, juntando a si os chiliques da Gisele Bündchen, os aparatos tecnológicos da Britney Spears e o poder massificante de Madonna. E além disso, Ivete não é uma figura humana que justifique tamanho fanatismo ou qualquer apego de tietagem.

A atriz Cinara Leal, numa revista, citou como cantoras preferidas Ivete e Marisa Monte. Por que não citou somente a Marisa Monte? Ou poderia ter citado também Maria Rita Mariano, cuja desenvoltura no palco dá um belo banho na "Madonna baiana".

Pode-se citar outros casos. Roberta Sá é musicalmente mais instigante que Ivete Sangalo. E, dentro da música baiana, Margareth Menezes é bem mais representativa e expressiva que a "Yoani Sanchez da música baiana".

Garimpando as lojas de discos e fugindo dos ditames do rádio FM e da TV aberta mais comerciais, encontra-se coisas muito mais interessantes, mil vezes melhores. Não precisa esperar que a música de qualidade chegue nas trilhas de novela da Globo para ela ser apreciada.

Muitas solteiras acham que são felizes quando ouvem Ivete Sangalo, Exaltasamba e Bruno & Marrone. Grande engano. Não raro, eles eram ouvidos nos momentos de pura infelicidade, raiva ou depressão, e de repente virou vício. O "pagode romântico", o "sertanejo" e a axé-music de sua coleção de CDs nem de longe acrescentou coisa alguma nas suas vidas, o apego viciado se assemelha à chupeta usada por um bebê.

É certo que atores e atrizes que "defendem" os ídolos brega-popularescos precisam de ganha-pão. Afinal, eles vão para os camarins de Ivete, Exaltasamba, Chiclete Com Banana, Victor & Léo e até Psirico e MC Naldo não porque gostam deles - no fundo detestam - , mas porque está no contrato.

Até mesmo as baixarias do tecnobrega, forró-brega e "funk carioca" fazem parte do caminho de atores emergentes para obter papéis de destaque na novela da Globo ou para atrizes fazerem comerciais de cosméticos e atores fazerem comerciais de cursos de inglês.

Portanto, isso é um ato de responsabilidade sócio-cultural. A curto prazo, ir às apresentações de Ivete Sangalo, Exaltasamba e companhia pode representar um bom contrato para um grande papel na próxima "novela das nove".

Mas, a longo prazo, poderá representar uma propaganda da mediocrização cultural, já que no fundo gostar de brega-popularesco soa tão "espontâneo" quanto fazer um comercial de automóvel ou de sabão em pó. E pode pegar tão mal quanto Débora Falabella, a gracinha superbacana de Belo Horizonte, fazer um comercial para o governo do Estado.

Daí que quem se apega ao brega-popularesco acaba marcado por ser uma celebridade sem diferencial, sem vontade própria, que, apesar de ter talento para atuar e desenvoltura para dar entrevistas, ainda é um fantoche dos programadores de rádio e TV e do mercado do entretenimento. E sempre ganha quem rompe corajosamente com tudo isso, como a atriz Natália Rodrigues, que recentemente disse que não curte axé-music.

A RECEITA DA FELICIDADE NÃO ESTÁ COM OS PROGRAMADORES DE RÁDIO FM

Daí que não custa romper com os ditames da mídia sobre a cultura popular. A felicidade humana não está no cardápio radiofônico da Nativa FM, Band FM, Piatã FM, Beat 98, Atlântida FM, O Liberal FM, Transcontinental FM e outras rádios porqueiras. Depender dos programadores dessas rádios para ser feliz é uma das coisas mais humilhantes que se pode haver na vida.

A felicidade envolve autoestima, e nada melhor do as pessoas famosas darem um exemplo para a sociedade e desligarem o rádio, deixarem micaretas, vaquejadas e "bailes funk" de lado e partir para referenciais musicais de qualidade, ler bons livros, ver exposições de artes plásticas, se interessar por coisas melhores.

Talvez isso possa fazer também atores e atrizes se imporem, a ponto de não aceitarem essa pouca vergonha de "defender" referenciais musicais duvidosos em troca de papéis melhores em novelas. Quanto mais atores e atrizes se rebelarem com isso, menos riscos terão de depender de funqueiros, axezeiros, "pagodeiros românticos" e "sertanejos" para subirem na carreira.

Melhor: rompendo com o mercadão popularesco, atores e atrizes ainda estarão fazendo um grande benefício para a sociedade.

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