terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A CAMPANHA DA MÍDIA BRASILEIRA CONTRA MORRISSEY



O cantor inglês Morrissey, de grande talento até mesmo na escolha dos músicos que vão tocar com ele e musicar seus poemas, deu uma entrevista recentemente em que falou da sua preocupação com os rumos da música na atualidade.

Segundo ele, que está sem gravadora mais uma vez, não há uma loja, mesmo na Inglaterra, que toque em seu sistema de som uma canção dotada de mensagem social. Em vez disso, há músicas inexpressivas, como os sucessos de techno dance que são tocados nas boutiques e grandes lojas de roupas.

Eu mesmo ouvi várias delas quando estava numa loja de departamentos. Um desses sucessos tem como refrão "Give-me Everything Tonight" ("Dê-me Tudo Esta Noite"), e aí deu uma ideia de contar uma piada para meu irmão, em que o cantorzinho desse "poperó" recebe uma imagem de que não poderá "receber tudo esta noite" porque não é mais horário comercial e ele terá que esperar a manhã seguinte para que tudo aquilo que ele pediu seja recebido em mãos.

Morrissey é uma figura de destaque dos anos 80, ex-vocalista do maravilhoso grupo The Smiths (do hoje subestimado guitarrista Johnny Marr, um dos maiores compositores e guitarristas de todos os tempos, sem o menor exagero), e por isso é de um tempo em que havia pop descartável, sim, mas havia ainda músicos e músicas de excelente qualidade, como os Smiths e os primeiros trabalhos solo do vocalista gravados então.

A campanha brasileira contra Morrissey não é coisa recente. A mídia brasileira criou um "outro" Morrissey, escrevendo seu nome até com um "s". Era um ser surreal, uma espécie de Boy George de cara limpa e penteado tipo James Dean, meio ranzinza, meio deprê, um chato de galocha que só fazia chiliques no palco. Nem parece a figura admirável que esteve à frente dos Smiths entre 1982 e 1987.

Morrissey, na verdade, é um sujeito solitário, que se desiludiu com as mulheres - um drama que muitos homens brasileiros já vivenciam, com tantas moças legais comprometidas com outros homens e com a maioria de moças estúpidas sobrando no "mercado" - , e por isso prefere viver sua vida do que ser um garanhão estúpido e boçal, desses que não sabem que podem ser abandonados por suas namoradas a qualquer momento, por conta da arrogância deles.

Com tantas desilusões na vida, Morrissey preferiu seguir a carreira de cantor. Seu hobby é escrever letras sobre sua vida e soltar sua voz ao lado de seus músicos, como seus escudeiros Martin Boz Boorer e Alain White, que transformam em melodias os poemas do cantor.

E Morrissey faz turnê sem ter disco gravado, sem ter qualquer pretexto comercial em vista. E faz isso de forma brilhante, o que garante plateias lotadas de fiéis em todo o mundo. Sua apresentação em São Paulo, por exemplo, ficou com ingressos esgotados.

Isso porque Morrissey é um artista que, dentro da crise que vivemos sob o domínio da mediocridade cultural, temos que definir como sendo "da moda antiga". Para ele, a música não pode se desvencilhar da realidade da vida, e realidade mesmo, nada de letras "confessionais" ou atitudes "autênticas" de astros pop que só sabem criar polêmica do nada, fazer Contracultura num copo d'água.

Semanas atrás, eu estava triste em casa, e resolvi ouvir o Louder Than Bombs, coletânea norte-americana dos Smiths, e me animei com o contato auditivo da boa música do grupo de Manchester. E mostra o quanto Morrissey é um grande vocalista e letrista, uma pessoa de credibilidade nem sempre bem compreendida no Brasil.

Afinal, Morrissey também foi hostilizado pela Bizz da fase André Forastieri e seu estúpido niilismo meio poser, meio grunge, sempre pseudo-alternativo. E agora O Globo diz que o cantor reprova o "pop moderno".

O que eles esperavam de Morrissey? Que ele aderisse ao vocoder e gravasse discos com drum machine, vocal robotizado e letras "polêmicas"? Não. Morrissey continua sendo o que sempre foi, e esse é o mérito. Ele mantém coerência com o que ele sempre fez, e por isso mesmo ele têm um público fiel e expressivo, que pode confiar no cantor, porque ele sempre manterá o brilho de seu talento em sua trajetória de mais de 25 anos.

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