quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ALUGAM-SE OS TITÃS



Sim, nossos heróis dos anos 80 podem não terem morrido todos de overdose, mas vários deles se venderam para o mercado e para os pactos da visibilidade.

Se já vimos Dado Villa-Lobos e os paralamas Bi Ribeiro e João Barone se venderem para a Banda Calypso, a troco de possíveis inclusões em festivais do interior do país - agora com a articulação de produtores culturais no Coletivo Fora do Eixo, isso ficou mais fácil - , e ver um Clemente tendo clemência com Gaby Amarantos, agora são os Titãs que se vendem para o funqueiro Mr. Catra, a preço de banana.

Pode ser influência espiritual de Marcelo Fromer, o titã que não via o brega-popularesco como se fosse uma piada. Nos idos de 1984, quando os Titãs lançaram seu primeiro LP, eles parodiavam a música brega, a viam como piada, e os caras no fundo preferiam a MPB autêntica, algo que eles apresentaram depois ao público através de O Blésq Blom, de 1989.

Eram grandes tempos, e víamos como Os Paralamas do Sucesso e os Titãs, através das influências da MPB, estimularam o fortalecimento de cenas como a do mangue beat, em 1994. E até mesmo a Legião Urbana tinha uma pegada de MPB, "Andréa Dórea" poderia ser gravada por Chico Buarque, sem problema. E Renato Russo virou parceiro de Marisa Monte, Leila Pinheiro e Flávio Venturini.

O Rock Brasil podia se integrar à MPB. Tinha conhecimento de causa. Não é o mesmo que o brega-popularesco que domina hoje na mídia, porque este sempre desprezou a MPB e nunca se interessou por ela de verdade. Só recorre à MPB quando as circunstâncias exigem, algo bastante tendencioso.

E ver que os Titãs se renderam a um funqueiro machista e retrógrado é um horror. Se tentaram ser provocadores com isso, não tiveram resultado. O que fizeram foi desagradar mesmo, como os paralamas e o legionário com Chimbinha.

Na verdade, foi mais uma mendicância que os roqueiros atuais, já perdendo espaço nas rádios, pedem aos verdadeiros "donos do poder", que são os ídolos brega-popularescos que estão abraçados aos barões da grande mídia. Os Titãs, como outros roqueiros brasileiros, se alugaram em troca de vaquejadas, micaretas e festivais de agronegócio no interior do país.

É justamente isso que faz os roqueiros brasileiros e os medalhões da MPB fazerem duetos com ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas (sim, existe pós-brega agora, Gaby Amarantos e Michel Teló são exemplos). Não se trata de confraternização cultural alguma e também não é uma forma de reconhecer o brega-popularesco como "a nova força da MPB". Muito pelo contrário, porque o brega-popularesco é algo altamente perecível, descartável.

Hoje os roqueiros brasileiros mais parecem dinossauros. Para quem tem menos de 35 anos, então, a Legião Urbana é tão "geriátrica" quanto Os Cariocas. Os Titãs mais parecem os Demônios da Garoa. Mas isso não é desculpa para os roqueiros se venderem para o popularesco fazendo "parcerias" com os canhestros da hora.

Nem os dinossauros do rock internacional chegariam a tanto. Mas aqui, se na próxima vez Nazi fazer dueto com Michel Teló, sabemos qual será o motivo. Em nome do mercado e da visibilidade, vale tudo. Até sacrificar princípios.

Nenhum comentário: