segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

INTELECTUALIDADE "CULTURAL" EM XEQUE



A hegemonia da pseudo-cultura "popular" midiática não é novidade alguma. Mas, nos últimos quinze anos, ela foi sustentada por uma classe que, independente de gostar ou não de seus ídolos, fazia defesas intransigentes, sob o pretexto de que "rompiam com o preconceito".

Durante anos esses intelectuais gozavam de uma unanimidade e uma imunidade que os faziam semi-deuses da opinião pública ou juízes finais da cultura popular brasileira. Eram sociólogos, antropólogos, historiadores, cineastas e críticos musicais, entre outros, que defendiam a breguice brasileira, uns por boa-fé, outros por puro cinismo, baseado na sua visão, não obstante livresca, rádio-televisionada e paternalista, do que seria para eles a cultura das classes populares.

Questioná-los foi, nesse tempo todo, visto como "atitude preconceituosa", e esses intelectuais prontamente não hesitavam em acusar seus críticos de "moralistas", "higienistas", "elitistas" e outros adjetivos desagradáveis, mesmo se protegendo da roupagem de textos científicos, documentários, teses acadêmicas etc.

Nos últimos anos, porém, a intelectualidade etnocêntrica - que, por mais que fale em defender a "pureza do povo pobre", vê as periferias de forma idealizada pelos conceitos de classe daquela - passou a ser criticada, na medida em que seu ideário mostrava muitas contradições, além de destoar completamente das mudanças sociais ocorridas em todo o mundo, e mesmo no Brasil.

Afinal, de que adianta elogiar como "movimentos sociais" o "funk carioca" e o tecnobrega, se manifestações bem mais relevantes e dotadas de consciência crítica, como a Primavera Árabe e as "ocupações" em Nova York e Londres, chamavam atenção pelo mundo à volta?

Disfarçar o entretenimento brega-popularesco - as "Disneylândias do mau gosto" - numa falta analogia às rebeliões sociais não resolveu o problema da mediocrização cultural dominante, que se tornou clara quando o hype do cantor Michel Teló, do sucesso "Ai, Se Eu Te Pego", foi tido como "fenômeno internacional".

MEDIOCRIDADE EVIDENTE

Síntese mercadológica de tudo que foi produzido na música brega e seus derivados, Michel Teló parecia ser um futuro aspirante a novo "coitadinho" adotado pela intelectualidade, a exemplo de Waldick Soriano, Tati Quebra-Barraco, Leandro Lehart e Gaby Amarantos.

No entanto, Teló mostrou-se um fenômeno irrecuperavelmente crítico, como foi o É O Tchan, e, para piorar, seu "repertório" (feito de músicas compostas por outras pessoas) reúne todas as tendências do brega-popularesco, de uma forma ou de outra, reunindo, num só contexto, nomes como Exaltasamba, Aviões do Forró, Latino, Chitãozinho & Xororó e Asa de Águia.

Há fortes indícios de que o "sucesso mundial" de Michel Teló não passa de uma grande farsa. Afinal, é muito comum a velha mídia exagerar na promoção de seus "artistas" no exterior, jogando-o em turnês em inexpressivos recantos na Europa e às custas de promoções que levassem brasileiros para assistir a esses ídolos no exterior.

Na era da Internet, não é difícil comprovar tal mentira. Afinal, os principais sítios estrangeiros simplesmente não dão muito destaque a esses ídolos popularescos, vistos, na melhor das hipóteses, como coisas ridículas e sem importância. Isso quando tentam dar algum cartaz a eles.

Mas nem Ivete Sangalo ganhou tanto cartaz assim, fora duas matérias pagas na imprensa ianque e um Madison Square Garden alugado para ela fazer sua micareta particular, que ficou nisso mesmo (mas aqui gerou o maior carnaval na velha grande mídia brasileira).

Só que a mentiralhada se dá quando ídolos do "funk carioca" surgidos do nada - alguns MCs que quase ninguém ouviu falar - fazem "turnês pela Europa" assim de repente. Quem é que paga para eles viajarem para o velho continente? Ué, eles não eram pobres, pobres, pobres, de marré de si?

O GOSTO DOS "URUBÓLOGOS"

A intelectualidade que defende o brega-popularesco, aos poucos, vê a sua unanimidade se dissolver. Surgem críticas a essa intelectualidade por outros intelectuais mais lúcidos. Luiz Cúti, da revista Áfricas, chamou a intelectualidade etnocêntrica de "caolha". Já o jornalista suplente do blogue Tijolaço, definiu a mesma intelectualidade como preguiçosa.

Outro fator que permitiu que surgissem críticas a essa intelectualidade permissiva - cujo maior símbolo é o jornalista Pedro Alexandre Sanches, ao lado de nomes como o sociólogo baiano Milton Moura, o historiador Paulo César Araújo e o antropólogo Hermano Vianna - foram as críticas negativas contra a atual edição do Big Brother Brasil 12.

Afinal, o reality show desafia qualquer tese permissiva que louve tudo que, para o intelectualóide de plantão, lhe pareça "expressão popular". O programa é de uma superficialidade escancarada, em que seus concorrentes apelam para os mais baixos valores morais e pela estupidez mais explícita, e, uma vez terminado o programa, com seu respectivo vencedor, seus integrantes seguem suas "carreiras" exibindo sua vaidade e burrice nas noitadas.

Surgem alguns defensores do BBB, querendo "justificar" que o programa "não é para ser levado a sério". Só que é o mesmo discurso que pede para o brega ser levado a sério, até demais. Um discurso cheio de contradições, que só defende o estabelecido pela mídia do entretenimento, sem medir escrúpulos de cometer incoerências e absurdos, mesmo sob a estrutura textual de monografias ou pelo aparato audiovisual dos documentários.

A analogia desses intelectuais etnocêntricos, que defendem o brega-popularesco, com a dos jornalistas políticos mais reacionários - conhecidos como "urubólogos", pela alusão metafórica de seu mau humor ao caráter sombrio dos urubus - , chega a ser exata, embora vários esforços tenham sido feitos para evitar qualquer associação.

Afinal, Pedro Alexandre Sanches tornou-se "colaborador" da imprensa esquerdista, pois, tendo sua formação ideológica feita durante o temível Projeto Folha de Otávio Frias Filho, se valeu do fato dos antigos leitores da Folha de São Paulo terem migrado para periódicos como Caros Amigos, Carta Capital e Fórum.

Mas, na medida em que as contradições de intelectuais como Sanches tornam-se mais evidentes e divulgadas na Internet, essa intelectualidade que se achava "julgadora maior" da cultura popular começa a sentir o sabor provado pelos "urubólogos" pouco tempo atrás.

Afinal, os jornalistas políticos mais conservadores exerceram, durante anos, sua supremacia na opinião pública, se valendo de sua reputação como "intelectuais". Por muito tempo, a Folha de São Paulo era um totem inabalável da grande imprensa, tido como paradigma de um jornalismo dito "moderno" e "atuante".

Até o maior defeito da FSP - a ausência de grandes reportagens - foi vista por muito tempo como uma "qualidade", a pretexto de publicar textos "mais concisos", de acordo com o suposto "dinamismo" de seus leitores mais jovens.

Recentemente, todavia, a supremacia opinativa da qual gozavam nomes como Gilberto Dimenstein, Josias de Souza, Eliane Cantanhede e, em outros veículos, de Merval Pereira, Míriam Leitão, William Waack, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e Bóris Casoy começou a ruir, com a ascensão de uma geração de blogueiros dotados de muito senso crítico.

Essa geração de blogueiros superou a anterior, dos ditos "líderes de opinião", que em seus blogues prometiam fazer uma devassa na velha mídia, quando na prática só publicavam reportagens "normais" de cunho político-administrativo e sindical, não raro elogiando, num texto ou em outro, algum baronete da velha mídia regional que prometesse "defender o bom (?!) jornalismo".

Eram outros tempos, em que a "opinião" não era mais do que um produto do qual o público era incapaz de produzir, mas que os "grandes jornalistas" detinham como seu bem maior (e seu marketing insistia nessa ideia). Só "tínhamos opinião" quando compartilhávamos a "opinião" do "sábio" comentarista jornalístico ou do "âncora" (ou pseudo-âncora, no caso de gente como o medíocre Mário Kertesz, da mídia baiana) de ocasião.

Felizmente, essa verdadeira elitização da opinião pública - que praticamente privatizava a opinião nas mãos e mentes de uns privilegiados - passou a ser energicamente questionada, e a nova blogosfera tornou-se uma força antes inimaginável que tira o sono dos chefões da velha mídia.

Pode ocorrer o mesmo com a intelectualidade que "julga" a cultura popular conforme seus preconceitos "sem preconceitos" de cunho midiático e pseudo-modernista. Vendo que outros intelectuais já começam a questionar a "Disneylândia do mau gosto" do qual defendem entusiasmadamente Sanches, Moura, Araújo e outros, estes se sentirão incomodados quando a "cultura popular" que eles tanto desejavam haver passar a perder o sentido de antes.

Aí, o que se prevê é a raiva que já vemos em gente como Fernando Vives e Matheus Pichonelli, "urubólogos" aninhados em Carta Capital, que mostram o seu nervosismo reacionário quando defendem o "fenômeno" Michel Teló, naquela linha intelectualóide que, desgastada, poderá revelar novos "urubólogos".

Bia Abramo, a filha de Perseu Abramo, já mostrou isso quando, contaminada pelo Projeto Folha (ela trabalhou na FSP), num texto sobre o "funk carioca" preferiu defender a tal "Proibida do Funk" (espécie de "mulher-fruta" da época) em detrimento da classe das enfermeiras ofendidas com as paródias "sensuais" da funqueira.

Pior: Bia preferiu tratar as enfermeiras como se estas é que estivessem erradas, e as acusou de moralismo. Resultado: a Fundação Perseu Abramo teve que tirar do seu portal o texto de Bia Abramo, cujo primo, Cláudio Weber Abramo (filho de Cláudio Abramo), é "visitante" do Instituto Millenium. Pais esquerdistas, filhos nem tanto.

Já dá para imaginar, daqui a dez anos, Pedro Alexandre Sanches fazendo o papel misto de Arnaldo Jabor e Ferreira Gullar de hoje, com um carisma de Sônia Francine. Sanches, ora abraçado com Leandro Lehart, ora recebendo a "prima" Yoani Sanchez, talvez venha a reclamar das saudades do "livre mercado", de um Brasil "mais pop e mais brega", descontente com as conquistas obtidas pelo povo pobre brasileiro, já convertido em novas classes médias dotados de melhor cultura.

Também ninguém imaginou o caráter neocom de gente como o antes insuspeito Fernando Gabeira. O país muda, mudam as mentes, mudam os contextos.

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