segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

GLAUBER ROCHA TERIA REPROVADO TELECINE CULT



Provavelmente, Glauber Rocha, um cineasta famoso por sua consciência crítica afiada, teria assim comentado sobre o TeleCine Cult, o "balaio de gatos" que mistura cinema alternativo com o cinemão comercial mais antigo dos EUA. E eu já vi até documentários macartistas serem transmitidos nesse suspeitíssimo canal da TV paga.

Pelo que se conhece o perfil de Glauber, diretor, produtor e roteirista mas acima de tudo um importante teórico do cinema, ele teria escrito uma resenha com essas palavras:

"TELECINE CULT: O CINEMA FEITO HAMBÚRGUER DE PELÍCULA

Fomos reduzidos a um hambúrguer de película. Nosso trabalho de defender um cinema mais humano e mais crítico foi reduzido a pó por esse canal. Agora nossa inquietação se equipara à fantasia debilóide de Rolyud.

"Nós não nos inquietamos mais. E o que nos inquieta agora que nossas denúncias e nossas questões agora têm o mesmo peso que as cretinices dos burgueses de Nova York. Nossas realidades agora têm o mesmo peso do que as ficções das elites norte-americanas.


"Não temos mais fome, nem nosso sonho é realidade. Agora os 'sonhos' são embalados para consumo, mas os sonhos não são nossos. Rolyud agora tem o mesmo peso da nouvelle-vague, do neo-realismo italiano, do nosso Cinema Novo, e ninguém diz nada.

"Só porque são coisas antigas, as tolices rolyudianas não podem ser classificadas da mesma forma que nosso cinema, que é independente, vivo e atuante, porque os produtores das grandes indústrias norte-americanas não passaram as mesmas dificuldades que nós passamos. Eles tinham o dinheiro todo nas mãos, um mercado gigante para pagar até os prejuízos.


"Para quem não conheceu nosso trabalho e nossa luta, tanto faz se John Wayne e Jean-Luc Godard agora estão no mesmo barco. Mas Rolyud contava com um poder de faturamento, de distribuição e de alcance de mercado que nós não tivemos, e ainda não temos.

"A nossa luta era para criar mercados regionais, criar em cada país uma expressão própria e original de cinema, que falasse para o próprio povo, quer tivesse uma cara. Lutávamos na nossa pequenez contra o gigante norte-americano, que queria nossas reservas de mercado, para vender uma ilusão na qual não nos víamos, não podíamos nos ver. Aqueles romances tolos de Nova York, aquele glamour de Los Angeles, nada era nosso, nem aqueles caubóis que exterminavam os índios de película, para depois exterminarem os índios de outros países, de outros mercados.


"Para quem não sabe, nossos cineclubes eram ambientes de discussão contra esse cinema fantasioso, alienado e conformista do qual nos sentimos ausentes, porque lá não estão nossas realidades, nossas questões, nossos dilemas, nossos desejos. Lá está um outro mundo, nos sentimos como terráqueos dominados pelos alienígenas de Rolyud, a querer que pensemos como eles.


"Um canal que mistura alhos com bugalhos e que despreza o trabalho que fizemos, soa como uma pilhéria para toda a luta que tivemos. Se o cinema independente, dedicado à denúncia, à provocação para o debate, à análise das questões humanas, agora é equiparado a granfinos sapateadores e tolos, que hoje são 'alternativos', é porque andam ridicularizando com nossa luta e nosso sacrifício.

"Isso é uma forma de desviar as atenções para nossa denúncia contra vários problemas enfrentados na vida. Porque nossa voz é amordaçada, na medida em que nosso cinema crítico agora é tratado de igual para igual com aquele cineminha de fantasias debilóides contra o qual lutávamos historicamente. E, mais uma vez, eles é que levam a melhor com esse rótulo de 'alternativo' que não diz a eles".

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