segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

"FORA DO EIXO" E A "PANELINHA" DE INTELECTUAIS E PRODUTORES



Uma "panelinha" de intelectuais, produtores, acadêmicos e ativistas "alternativos" pode criar sérios problemas para o cenário alternativo e independente nacional.

O "coletivo" Fora do Eixo - conhecido pela sigla FdE - , à primeira vista, parece um louvável projeto de aglutinação de vários festivais culturais, de movimentos sociais e de críticos e intelectuais considerados influentes. No entanto, a entidade, que pretende "representar" a cultura independente do Brasil, corre o risco de sucumbir ao corporativismo da "panelinha" intelectual envolvida.

Entre os que apoiam a entidade, destacam-se críticos musicais que fizeram parte da fase sombria da revista Bizz, nos anos 90. Dois deles foram notórios seguidores da linha de André Forastieri, Camilo Rocha (ligado à dance music) e Carlos Eduardo Miranda (foto), conhecido produtor musical, jornalista e músico que havia feito parte do júri do programa Ídolos, do SBT.

A geração de Forastieri, Rocha e Miranda estabeleceu as condições para uma "cultura rock" dos anos 90 que culminou, nos últimos anos, no cenário "emo" de grupos como Restart, Fresno e NX Zero.

Junto a eles, está o jornalista Pedro Alexandre Sanches, criado pelo "Projeto Folha" da Folha de São Paulo, o mesmo duramente criticado por José Arbex Jr., um dos editores de Caros Amigos que, talvez pela pressão do mercado distribuidor (ligado a entidades conservadoras, em parte o próprio Grupo Abril), contratou Sanches para escrever uma coluna lá.

Pedro Sanches é conhecido por sua visão complacente com o mercado brega-popularesco. Possui um discurso engenhoso que continua lembrando o dos "calunistas" da velha mídia, se estivessem falando sobre cultura popular. É um dos defensores de ídolos brega-popularescos à beira do ostracismo, diante da competitividade que existe no setor.

Junta-se um Carlos Eduardo Miranda, que criou um mercado pseudo-independente sustentado por uma gravadora multinacional, com um Pedro Alexandre Sanches que sutilmente insere conceitos neoliberais nas suas abordagens sobre a "cultura popular", para vermos o que será uma ideia como o Coletivo Fora do Eixo através de suas influências de de outros que compactuam com o mercado com o qual dizem romper.

A vocação "anti-mídia" do último congresso Fora do Eixo, realizado em São Paulo, em dezembro passado, é contradita pela presença da cantora Gaby Amarantos, principal ícone do tecnobrega paraense. Afinal, a cantora foi cortejada por quase toda a mídia, inclusive a revista Veja, famosa por condenar os movimentos sociais e só elogiar magnatas, e recentemente esteve na Rede Globo participando de um especial com Zezé di Camargo & Luciano.

Se a geração de jornalistas "alternativos" em torno de Carlos Eduardo Miranda e André Forastieri - que, depois de "arrasarem" a Bizz, fizeram a "genérica" General, de curta duração - , defenderam uma "cultura rock" asséptica, um "alternativo" limpinho, sem consciência crítica e de relativa criatividade, da qual são exemplos os lamentáveis Virgulóides, Baba Cósmica, Ostheobaldo e similares, o FdE, nas mãos deles, poderá fazer o mesmo, agora no âmbito mais ambicioso, o da Música Popular Brasileira.

Afinal, o cenário "roqueiro" lançado por veículos como a revista Trip e a rádio 89 FM abriram o caminho para o fenômeno Mamonas Assassinas, cuja tragédia soou como uma "caixa de pandora" abrindo, para o público juvenil, referenciais diversos que incluem dos grupos emo aos "sertanejos" e "pagodeiros", passando pelo Pânico na TV e Big Brother Brasil.

Portanto, uma geração que influiu no inconsciente coletivo juvenil tirando-lhe a consciência crítica e criativa, deixando apenas as aparências formais de "rebeldia" e "modernidade", como falar gírias, vestir-se de forma arrojada ou mesmo adotar posturas "progressistas" que existem até no Instituto Millenium.

Em seu sítio, o FdE aparentemente privilegia a cultura alternativa. Mas sinaliza futuros apoios a eventos de "funk carioca" e tecnobrega. Como inclui vários Estados brasileiros, isso significa priorizar o apoio a brega-popularescos menos projetados no apertado mainstream "popular".

O temor é que artistas realmente alternativos sejam preteridos em razão de "artistas injustiçados" como Gaby Amarantos, Leandro Lehart, Benito di Paula, É O Tchan e Luiz Caldas. O ex-Sheik Tosado China já reclamou da discriminação que muitos grupos independentes sofrem, enquanto o Fora do Eixo faz seu nome e seu marketing para obter recursos públicos e privados.

China já foi espinafrado por Pedro Sanches, no artigo deste publicado na revista Fórum deste mês. Arrogante, Sanches teria descrito China como um "fascista", como é de praxe do badalado jornalista, discípulo enrustido de Otávio Frias Filho. Para Sanches, "senso crítico" é sinônimo de "preconceito", "moralismo" e "higienismo".

Não será surpresa se, dentro de um ano, Michel Teló apareça cortejado pelo FdE abraçado a um cantor ciber-performático. O FdE possui ideais pós-tropicalistas, dentro da visão caetânica, dominante, sobre "cultura de massa". O caso cabe uma análise mais cautelosa. O underground brasileiro pode virar refém do mercado, agora de forma mais intensa e articulada.

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