segunda-feira, 20 de junho de 2011

CULTURA É RESPONSABILIDADE SOCIAL


PLATEIAS LOTADAS NÃO SIGNIFICAM NECESSARIAMENTE RECONHECIMENTO DE VALOR ARTÍSTICO E CULTURAL

Ninguém é obrigado a deixar de gostar de alguma coisa. Se quiser gostar de brega-popularesco, esteja à vontade.

O problema é que o brega-popularesco, que tanto reclama de "falta de espaço" na mídia, é que se tornou a categoria hegemônica, num crescimento "cancerígeno", na música brasileira. E, junto com essa música, valores retrógrados disfarçados de "coisa moderna".

O fato de muita gente não suportar críticas que determinados blogues, como este, fazem a ídolos brega-popularescos mostra o quanto existe de equívocos e muito pretensiosismo nesses ídolos. E mostra o quanto o gosto musical é algo secundário até mesmo para quem é fã desses ídolos.

Isso porque eles até gostam desses ídolos e praticamente ignoram qualquer outra coisa que vá longe de funqueiros, breganejos, sambregas, axezeiros etc. Mas a preocupação deles em "patrulhar" quem não gosta, em ficar nervoso porque fulano escreveu algo desagradável sobre o ídolo tal, mostra a decadência que está por trás desses estilos musicais de mercado, pretensamente "populares".

E por que existe essa decadência? Porque o brega-popularesco nunca passou de uma forma mercadológica, diluída e deturpada da "cultura popular".

São valores e ídolos propagados durante contextos sociais e políticos conservadores, que na Era FHC passaram a exercer um pretensiosismo violento. De repente, na última hora, ídolos neo-bregas tardiamente descobriram a MPB, e quiseram fazer igualzinho àquela facção engomada e luxuosa da chamada "MPB burguesa" que rolou nas rádios nos anos 80.

De repente, aqueles sucessos "populares" que já haviam tomado as rádios, lotado plateias e conquistado seus espaços, passou a reclamar de "falta de espaço", de "preconceito" e tudo o mais. E aí a alegria que os ídolos brega-popularescos queriam transmitir para o público passou a dar lugar a um péssimo astral que hoje já começa a derrubar muitos ídolos, num efeito dominó.

A "trolagem" que desesperadamente tenta salvar a reputação dos ídolos neo-bregas, e que é definida pela ação revoltada de internautas fãs desses ídolos, só acaba derrubando os mesmos, diante da associação desses cantores, duplas e grupos a uma parte violenta e temperamental de seu público.

Só isso faz as coisas espalharem, e daí para o "povão" achar que os ídolos que rolam nas rádios FM possuem fãs truculentos é um pulo. Já não basta que, nos bares, rodeios e casas noturnas, o sambrega, breganejo, "funk carioca", axé-music e forró-brega já são suficientemente associados aos homens de aparência mais rude ou viril, mesmo os considerados "bonitões" das vaquejadas e das feiras de agropecuária?

PRETENSIOSISMO E FRUSTRAÇÃO

O pretensiosismo leva os ídolos brega-popularescos a não gostarem de seu sucesso. Acham que querem mais, que podem entrar no primeiro time da MPB sem esforço, apenas com um banho de loja, técnica, tecnologia e publicidade.

Por que eles não pensaram duas vezes antes de fazer brega ou neo-brega? Um breganejo que mal ia além de uma pálida fusão de Bee Gees com Waldick Soriano durante mais de dez anos de carreira, dificilmente irá se equiparar a um nome respeitável da música caipira ou ao lirismo dos artistas do Clube da Esquina.

Da mesma forma, um sambrega que mal conseguia fazer apáticos "sambas-canções" de apelo brega, numa pálida fusão de Lionel Richie com Waldick e Odair José com cavaquinhos muito mal tocados, não irá se equiparar aos grandes sambistas e nem a ídolos versáteis como Wilson Simonal.

A questão toda é a criatividade. Os "artistas" popularescos erram muito nos seus primeiros LPs, que tornam-se "sucesso estrondoso" mais pelo esquema de jabaculê nas rádios e na publicidade maciça na televisão. Passam o tempo todo fazendo isso, e então se sentem felizes em tal condição.

Só que, nos últimos anos, com a Internet oferecendo informações culturais que, antes, eram inacessíveis pelo natural bloqueio das rádios, os ídolos popularescos tiveram que correr e, às pressas, foram mudar cenários dos palcos, mudar o vestuário, contratar um time de assessores (que, por sua vez, contratam estagiários que compõem parte dos trollers que vemos na Internet) e encher de covers para tentar uma associação artificial à MPB.

O desespero dos ídolos brega-popularescos se converte em ingratidão. Passam a valorizar menos a popularidade que alcançaram, pelo pretensiosismo bobo de parecerem "sofisticados". Fazem mera música de mercado, dedicada ao consumo fácil do grande público, mas querem parecer que fazem "cultura de alto nível".

Mas com toda a campanha que fazem, da produção de cinebiografias ao reacionarismo dos trollers, nada disso adianta. No fim, eles não conseguem mais emplacar uma música marcante nas rádios, e passam a cansar quando o toca-CD desmente toda a "sofisticação" alardeada nas revistas, na TV, nos jornais ou mesmo em monografias universitárias tendenciosas.

CULTURA É RESPONSABILIDADE SOCIAL

A verdadeira cultura popular inclui em produção de conhecimento, de valores sociais, e é algo que é transmitido pelo convívio social das comunidades. Isso é o que os mais renomados intelectuais afirmam, há muito tempo.

O que se vê sob o rótulo de "cultura popular" - difundido pela grande mídia e por uma geração recente de intelectuais menos esclarecidos - é, na verdade, o que os estudiosos da Comunicação entendiam sob o controverso nome de "cultura de massa".

Sem levarmos em conta as discussões sobre a validade desse rótulo, reconhece-se que o brega-popularesco é, conforme descreve tanto Carmen Lúcia José em Do Brega ao Emergente quanto Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados, uma "cultura" que o povo pobre trabalha a partir de referenciais transmitidos pela classe dominante através da mídia.

Só isso derruba toda uma linhagem de apologia do brega-popularesco feita pela intelectualidade pouco esclarecida (ainda que esforçada e dotada de muita visibilidade), a de que se trata de uma "verdadeira cultura popular".

Com alegações confusas e tendenciosas, essa intelectualidade chega ao ridículo de querer tirar o Oswald de Andrade da pátria espiritual para respaldar as teses engenhosas, mas discutíveis, dessa patota recente de antropólogos, sociólogos, historiadores, cineastas e críticos musicais.

Pois realmente o brega-popularesco, com seus valores conservadores travestidos de modernos, nada contribui para o progresso social das classes pobres - que, lembremos, não se limita a uma mera inclusão no mercado do consumo - e, como expressão de qualidade de vida, se mostra um desastre.

RECONHECER OS LIMITES DO BREGA-POPULARESCO

Certamente pedimos desculpas e compreensão para os ídolos brega-popularescos. Se eles são criticados, é porque algo está errado. Mas reconhecemos as implicações pessoais que um ídolo sambrega ou breganejo sofre quando não tem o mesmo reconhecimento artístico de um nome respeitável da MPB.

O problema é que o pretensiosismo faz, aqui, seu efeito decisivo. O ídolo popularesco não reconhece seus limites. Poderia ser um mero entertainer ou crooner, com uma reputação razoável. Mas a ignorância dos limites faz ídolos assim sofrer frustrações que nem a trolagem raivosa de seus fanáticos conseguem salvar (e, pelo contrário, agravam).

O pretensiosismo cria até condutas estranhas, como os cantores de sambrega e breganejo usando de toda a pompa e luxo para serem reconhecidos como "artistas populares" e gravando CDs e DVDs um atrás do outro, numa sequência que chega a três consecutivos (!), tudo para vender a imagem de "grandes criadores".

O avanço da transmissão de informações na Internet, que mostra artistas esquecidos da MPB autêntica, também não garante o êxito do oportunismo dos ídolos popularescos que, na última hora, "descobrem" Maysa, Wilson Simonal, Egberto Gismonti, Francis Hime, Antônio Adolfo e outros mestres. Porque, quando devia, os próprios ídolos popularescos desdenhavam a MPB autêntica.

Por isso mesmo, reconhecer os limites é a solução. O brega-popularesco de 1990, 1997 e 2002, tal como toda a linhagem de bregas e neo-bregas, não será MPB autêntica sequer em sonhos. Trata-se tão somente do nosso hit-parade, músicas que nada têm de populares, no sentido social do termo, mas tão somente "popularizados".

No brega-popularesco, as classes populares não são sujeitos, mas objetos do mercado de consumo. Por isso é que seu caráter de "cultura popular" é falso. Daí a necessidade de assumir o brega-popularesco como uma mera "cultura de mercado".

Até porque, se essa categoria musical é expressão cultural de alguém, é do empresariado da grande mídia, do entretenimento e das redes de atacado e varejo que investem nesses ídolos. O povo é somente um detalhe, por mais que muitos tentem dizer o contrário.