segunda-feira, 6 de junho de 2011

OS INCOMODADOS QUE SE MUDEM



Não existe coisa mais chata que reacionário preferir ler o que não gosta e sair esculhambando quem escreveu. Existe uma grande diferença entre uma discordância sadia e uma discordância impositiva.

Esta, quase arbitrária, chantagista e arrogante, vinda sobretudo de internautas reacionários que ainda mandam o escritor discordante "para a m...", não quer o debate sadio, mas a imposição de uma "verdade" que o internauta reacionário e seus amiguinhos acreditam, geralmente relacionados ao establishment político, econômico e cultural.

Nota-se que o reaça em questão se sente incomodado quando seus valores e totens são questionados por um blogue que, certamente, não foi feito para ele. Ele tenta ser preciosista, usa a sociedade para "legitimar" valores que só ele e seus pares acreditam, e ele ainda tenta usar argumentos mais espalhafatosos possíveis.

Esses argumentos podem ser duvidosos, mas são verossímeis. Algo como tentar equiparar lata velha com barra de ouro. Ou dizer que as fezes, só porque são excrementos vindos da comida ingerida, têm o mesmo valor e sabor do caviar ("não precisa gostar, mas tem que reconhecer que as fezes são parte integrante de nossa culinária", diriam).

As alegações podem variar, mas podem até mesmo transformar valores conservadores em "progressistas", a depender dos contextos que permitem certos pretextos.

É como, por exemplo, chamar as "mulheres-frutas" de "feministas" pelo fato delas aparecerem na mídia sem namorados ou maridos, quando, na verdade, elas representam a exploração da imagem da mulher promovida pelo machismo.

O problema é quando a argumentação se esgota e o internauta incomodado passa a xingar, esculhambar etc. E fica viciado nisso. Manda mensagens nervosas, irritantes, chantagistas, como se fosse um "AI-5 de bolso", um censor de miniatura, uma espécie de mistura de Justin Bieber com Sérgio Paranhos Fleury, com ataques pseudo-esquerdistas de um Cabo Anselmo.

Só que um blogue não foi feito para o agrado desse internauta enfezado. Ele não pode bancar uma espécie de sub-editor frustrado do blogue. Não pode se enfezar se a pauta apresentada pelo blogueiro não é de seu agrado.

Também não adianta bancar o pseudo-democrático e estufar o peito dizendo "Claaaro! Você não é obrigado a escrever para me agradar" e depois sair disparando desaforos sob o pretexto da "saudável discordância". Porque adotar posturas é a coisa mais fácil do mundo, a prática é que mostra o lado "Mr. Hyde" de todo "Dr. Jeckyll" metido a "candidato ao Nobel da Paz".

INTERNAUTA ENFEZADO VIRA PÉ-FRIO DE SI MESMO

Por que esse internauta não esquece o blogue que o desagrada, e visita apenas aqueles de seu bel prazer? Tantas páginas boas na Internet, tantas páginas instrutivas, tanta coisa positiva para pesqusar, e o internauta achando que será o Herói da Pátria porque mandou o blogueiro do qual discorda para a "p... que p...".

Engana-se o internauta que pensa assim, porque suas bravatas reacionárias podem lhe trazer muitas desilusões na vida. Se seus colegas soubessem do quanto esse internauta escreve, vão chamá-lo de paranóico, e se afastarão até dele por causa de seu niilismo digital.

Além disso, há um ditado popular que diz: "quando a cabeça está quente demais, o pé fica demasiado frio". O internauta que se preocupa em disparar mensagens contra blogues com os quais não concorda, de maneira furiosa e desrespeitosa, pode ser contaminado com sua própria irritabilidade, podendo gritar com seus próprios amigos ou até com seus pais, além de atrair para si outros infortúnios na vida.

Quando eu critico os totens e valores do establishment do entretenimento brasileiro, nunca investi no desaforo ou na humilhação. Procurava fazer críticas, sim, e até enérgicas, mas isso é muito diferente do que fazer ataques gratuitos e ferozes.

Além disso, eu NUNCA fui para um blogue ligado a ídolos popularescos para xingar o blogueiro tal, o ídolo qual e mandar fulano e sicrano "para a m...". Sempre tolerei a ação deles e também nunca esculhambei tais blogues por adotar esta ou aquela postura.

No entanto, eu recebo ataques desses fãs, que por mais que falem em "democracia" - com a mesma fúria que vemos num Daniel Dantas, num Beto Richa, num Ali Kamel - , atuam de forma autoritária e arrogante, como se fossem dublês de editores de meu blogue. Se fosse nos tempos do regime militar, eles seriam os primeiros a se candidatarem para serem meus censores.

Mas não sou só eu que recebo esses ataques. Tantos blogueiros que criticam o estabelecido sofrem ataques desse tipo. Só que os internautas que fazem isso, a pretexto de algum suposto heroísmo pessoal, só estão se expondo negativamente, passam a ser vistos como pitboys ou bullies digitais, além de demonstrarem não passar de gente frustrada e de mau com a vida.

Só para se ter uma ideia, até mesmo blogueiros com maior visibilidade como Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna, Emir Sader, Raphael Tsavkko Garcia e Eduardo Guimarães sofrem esses ataques. Não se pode agradar a todos. O problema é que quem se sente incomodado com certas verdades perde o tempo pegando no nosso pé, mais preocupado em quem discorda dele do que em quem concorda.

Paulo Henrique Amorim, então, nem se fala. Além dele também receber ataques assim, ele têm que enfrentar dezenas de processos judiciais, o que mostra o quanto o reacionarismo muitas vezes acaba nos tribunais.

Isso em si traz muito azar. Porque o internauta, por mais que defenda algo que ele acredite ser apoiado pela maioria das pessoas, se isola completamente, porque se preocupa mais em reagir aqueles que discordam dele do que em se amparar com aqueles que com ele concordam. Esse isolamento pode trazer sérios danos sociais no futuro, e pode fazer o internauta ter fama de intolerante e antipático.

Se esses internautas enfezados não querem que blogues critiquem valores e totens "estabelecidos", simplesmente fujam desses blogues. Deixem de lê-los. Vão ler Caras, Contigo, Fuxico, Blogs pela Democracia, Instituto Millenium, e deixem os blogueiros que não concordam com eles em paz.

O tempo em que um internauta perde para defender popozudas, cantores de "pagode romântico", "sertanejos universitários" etc poderia servir para ele admirá-los pessoalmente, pouco importa quem não goste deles.

Por outro lado, atacar blogueiros que não apreciam tais ídolos não salva a reputação destes. De jeito nenhum. Pelo contrário, poderá transferir a má reputação dos internautas esquentadinhos para os próprios cantores, grupos, duplas e musas, que correrão risco maior de perder sua popularidade e pôr suas carreiras à deriva, na medida em que passam a ser associados a fãs agressivos, esquentadinhos e desumanos.

Imagine um cantor de "pagode romântico" associado à alegria, ou a dupla "sertaneja" associada ao romantismo, de repente serem famosos pelo reacionarismo de fãs que não toleram uma crítica sequer a seus ídolos? Isso contradiz seriamente o astral que eles gostariam de transmitir e tais ídolos acabam sendo destruídos, ainda que de forma indireta, pelos próprios fãs.

Portanto, os incomodados que se mudem.