terça-feira, 26 de abril de 2011

"QUE TCHAN É ESSE" E O PADRÃO INTELECTUAL DA "CULTURA POPULAR" DA ERA FHC



Tomei conhecimento há poucos dias de um livro escrito sobre o fenômeno É O Tchan e outros fenômenos da "música popular" dos anos 90, aquilo que eu chamo de Música de Cabresto Brasileira ou música brega-popularesca. Sabemos que o famigerado grupo de "pagodão" baiano é uma armação de mercado comandada pelo seu empresário, Cal Adan.

O livro é mais um daqueles livros, artigos, documentários e outros recursos midiáticos que as ciências sociais da Era FHC usaram para tentar salvar a mediocridade musical brasileira de seu natural desgaste.

O livro Que Tchan é Esse, de Mônica Neves Leme (Anna Blume, 2003), é um desses produtos da intelectualidade etnocêntrica que domina os meios acadêmicos no Brasil. Com texto de "orelha" de Hermano Vianna - o antropólogo que se vendeu para a Rede Globo - , por sinal, entusiasmado com o tema, o livro de Mônica Leme não deixa de ser ambicioso, na sua manobra discursiva.

Digamos que o recurso que Mônica usa pode ser denominado "costura historiográfica", que é o processo de associar um fenômeno a outro que nada tem a ver, mas que supostamente aponta algum aspecto genérico "comum".

Mônica tenta associar a vulgaridade explícita do É O Tchan a elementos tradicionais da cultura brasileira, como o lundu, no aspecto musical, e no aspecto "poético", à figura polêmica do poeta baiano Gregório de Matos (1636-1695), um dos maiores bodes expiatórios do "Brasil Pocotó" junto com Lupicínio Rodrigues e Vicente Celestino.

Além do mais, a antropóloga apelou para o clichê que eu defino como a "ditabranda do mau gosto". Afirmou que o É O Tchan foi hostilizado pela "intelectualidade moralista" preocupada com a preservação do "bom gosto". Virou um grande clichê, desculpa para fazer prevalecer a mediocridade musical, dentro de uma retórica sutil que tente comparar a música comercial de hoje com a arte genuína de outrora.

Até os ataques "moralistas", evidentemente, são comparados com os recebidos pelo lundu, por Gregório de Matos, que lembra muito o que o sociólogo baiano Milton Moura falou do mesmo "pagodão" local e o historiador Rodrigo Faour falou sobre o "funk carioca". Como se nada houvesse mudado na sociedade brasileira entre 1900 e os dias atuais.

Mônica Leme superestima os comentários de Marisa Monte e Paulinho da Viola sobre o Tchan. Como Marisa, ela recorre ao grave erro de definir o É O Tchan como "samba de roda", quando o som do grupo lembra mais um samba de gafieira malfeito. Eu mesmo tive essa constatação porque um vizinho meu, quando eu morava no bairro do Resgate, em Salvador, tocava os discos do grupo sem parar.

Paulinho da Viola, anos depois, se arrependeu pelos elogios ao grupo baiano. Sofreu cobranças por isso, ele que é um conhecedor de samba brasileiro. E cometeu um erro ingênuo de definir um grupo comercial como "não-comercial".

DISCURSO POUCO VARIADO

Sem ir muito nos detalhes escritos por Mônica Leme, é bom localizar o contexto da data de publicação da obra. O período 2000-2005, do apagão de FHC ao mensalão que quase derrubou o PT, foi a época de intensa campanha de defesa da Música de Cabresto Brasileira, evidentemente não com esse nome.

Com uma estrutura de engajamento e recursos midiáticos que lembra o antigo IPES (o suposto "instituto" de pesquisas e estudos sociais que defendia o neoliberalismo no Brasil), num empenho discursivo bastante persuasivo e sutil, essa campanha tentava maquiar o hit-parade à brasileira dos anos 80-90 e seus ritmos "populares" postiços e governados pelo princípio do "deus mercado" com uma retórica que reafirmasse os mesmos ritmos e tendências como se fossem o "novo folclore brasileiro".

É um discurso esquizofrênico, mas que funcionou na sua persuasão, prolongando os antigos modismos jabazeiros agora sob o rótulo de "nova cultura popular". Só que, em vez de cumprir a suposta finalidade de "proteger" a cultura popular, a campanha apenas reafirmou os mesmos sucessos comerciais da música brasileira patrocinados pela mídia oligárquica nacional e regional.

É essa a época de Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo, de Central da Periferia, produzido por Hermano Vianna, do texto de Bia Abramo sobre o "funk carioca", dos filmes Os Dois Filhos de Francisco, de Breno Silveira e Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denise Garcia, das primeiras entrevistas de Pedro Alexandre Sanches com ídolos popularescos (tipo Tati Quebra-Barraco), da visibilidade crescente de Milton Moura na mídia baiana. E também da tese de Mônica Neves Leme que resultou no citado livro sobre o É O Tchan.

De Waldick Soriano a Tati Quebra-Barraco, passando pelo "pagode romântico", "sertanejo", axé-music, forró-brega e outros, todo um discurso foi feito para "salvar" a mediocridade musical dominante, sem medir escrúpulos de tentar promover ídolos no auge do sucesso comercial como se fossem "vítimas de preconceito".

O discurso de seus vários autores - Paulo César Araújo, Bia Abramo, Rodrigo Faour, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Milton Moura, Ronaldo Lemos, Mônica Neves Leme etc - , a uma análise muito profunda, nem chega a ser muito diversificado, apenas variando o tom da retórica de defesa. Por exemplo, PC Araújo tentando promover os ídolos bregas como "cantores de protesto", Pedro Alexandre Sanches atribuindo ao tecnobrega uma fictícia alusão do Modernismo de 1922 e Mônica Leme tentando definir o É O Tchan como um "lundu moderno da Boca do Inferno".

Em todos os discursos, o que se vê é a mesma apelação: os ídolos são "vítimas de preconceito", rejeitados pela "ira moralista dos patrulheiros do bom gosto", representam a "verdadeira cultura popular", foram lançados por "pequenas mídias" (que, na verdade, são apenas braços ou apêndices da grande mídia regional e oligárquica). Parece um mantra, uma pregação travestida de "crítica musical reflexiva" ou de "tese acadêmica de ciências sociais".

"FOLCLORE" TUCANO

Essa retórica, para se resultar em seus inúmeros livros, artigos, documentários, programas de TV, cinebiografias dramatizadas, tinha que ser planejada e elaborada. Afinal, fica muito estranho defender, a título de "verdadeira cultura popular", uma pseudo-cultura alimentada pelo jabaculê mercadológico, pela politicagem midiática, e cuja mediocridade artística gritante nada tem a ver com a riquíssima música que as classes pobres produziram no pré-1964 e que hoje, infelizmente, virou "coisa de museu".

Dar verniz "científico" foi coisa que até mesmo as teses racistas do fascismo recorreram. Fazer uma pregação ideológica acobertada por uma metodologia acadêmica soa como uma propaganda muito mais eficaz e sutil, porque teses discutíveis podem ser trabalhadas como "certezas" e "verdades" a partir de um discurso que envolve falsas alusões, "costuras historiográficas", apelações diversas.

Tudo isso foi pensado pelas elites da burocracia universitária ligadas aos tecnocratas da USP. Sim, os mesmos que compuseram os quadros do PSDB: Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Francisco Weffort e, sobretudo, Sérgio Paulo Rouanet.

Como secretário de Cultura do governo Fernando Collor, Rouanet - que criou a lei com seu sobrenome que "mercantilizou" as atividades culturais no Brasil - teria estabelecido a ligação entre a intelectualidade e os "ídolos de massa" dos tais "sucessos do povão" do rádio e TV aberta.

É a partir desse esquema de intelectuais que depois constituíram o grupo tucano é que se estabeleceu um modelo de abordagem da cultura popular, carregado de tendenciosismo ideológico. Dessa forma, defende-se a música brega-popularesca, que é a "música popular" de mercado, e todos os seus valores culturais associados ou derivados, como um modelo mercadológico travestido de "tradição cultural modernizada".

Ou seja, juntou-se, ao esquema "República Velha" aplicado à cultura brasileira - por isso é que eu defino essa suposta "música do povão" como Música de Cabresto Brasileira - , que inclui ídolos medíocres, empresários do entretenimento e oligarquias midiáticas, a intelectualidade dotada a exercer uma visão etnocêntrica, um etnocêntrico "bondoso" mas claramente paternalista.

Esse paternalismo tende a ver a domesticação midiática do povo pobre como uma "amostra de felicidade". Os intelectuais, a pretexto de "exaltar" as classes populares e "sua rica cultura", na verdade tentam fazer o possível para minimizar os riscos de manifestações sociais autênticas.

Não vamos entrar em detalhes diante do fato de que existe um abismo separando a inteligência de nomes como Luiz Gonzaga, João do Vale, Jackson do Pandeiro, Cornélio Pires, Marinês e Seu Conjunto, Ataulfo Alves e Cartola com os ídolos de "pagode romântico", "pagodão baiano", "sertanejo", "funk", axé-music e forró-brega de hoje. Apenas dizemos aqui que esse abismo em nenhum momento pode ser superado com "costuras historiográficas" que supostamente equiparem uns e outros.

O "MOLEIRO" DO CONTO DE OSCAR WILDE

O que se pode dizer é que essa retórica tem tudo a ver com todo o esquema clientelista de trocas de favores, de visibilidade fácil, de uma intelectualidade que pensa falar para o povo mas fica falando para si mesma, de preferência diante do espelho.

É uma intelectualidade que se comporta mais como o moleiro do conto "O amigo dedicado" de Oscar Wilde, um rico homem que explora o trabalho de um jovem humilde que cultiva flores. O moleiro fica com as flores desse jovem jardineiro, até que um dia lhe dá em troca um carrinho de mão em péssimo estado.

Os "moleiros" brasileiros ficavam com as "flores" do patrimônio cultural popular de outrora. E dava ao povo pobre os "carrinhos de mão" dos reles sucessos radiofônicos. O povo "morre" afogado, como o jovem jardineiro do conto de Wilde, pela "chuva" de elementos cafonas, de um ideal de "mau gosto" construído ideologicamente pela intelectualidade dominante, que molda uma concepção elitista de "povo pobre" que impeça as classes populares de lutarem por melhorias. Elas é que esperem as "melhorias" aparecerem através do espetáculo consumista da grande "pequena" mídia.

Que Tchan é esse? Ora, é o Tchan de uma intelectualidade clientelista que promove uma dócil visão de "cultura popular" baseada nos seus preconceitos paternalistas e na defesa do "deus mercado".