domingo, 13 de março de 2011

A REAÇÃO DA MPB AUTÊNTICA AO BREGA-POPULARESCO


MAL SABE A FERNANDA PAES LEME (D) QUE DIOGO NOGUEIRA E MARIA GADU VIERAM PARA TIRAR OS BREGA-POPULARESCOS (CURTIDOS PELA ATRIZ) DO PODER.

Embora pareça pouco, mais uma vez a MPB autêntica inicia uma leve reação ao império da Música de Cabresto Brasileira. Enquanto, no último Carnaval, a axé-music expressou um esnobismo digno da Ilha Caras, os funqueiros se envolvem em ocorrências policiais e o forró-brega começa a sofrer rejeição no Nordeste, eis que dois cantores de MPB autêntica começam a se destacar em todo o país: Maria Gadu e Diogo Nogueira.

A primeira, uma espécie de Nana Caymmi mais pop, ainda faz parte daquela "MPB feijão com arroz" de Ana Carolina, Jorge Vercilo e outros. Mas pelo menos soma-se a eles na tentativa de neutralizar o monopólio dos ídolos neo-bregas que fazem "pagode romântico" (sambrega), "sertanejo" (breganejo) e "música baiana" (axé-music) e dominam os chamados "sucessos do povão". Ainda que estes, no meio do caminho, peguem carona nessa turma da MPB para tirar vantagem.

Outro é o cantor Diogo Nogueira, um dos novos nomes do samba autêntico, filho do renomado João Nogueira. Ainda que, num de seus primeiros discos, o cantor tivesse que aceitar a participação de dois conjuntos de sambrega, num disco recente ele só contou com a participação de gente da MPB autêntica, sobretudo Chico Buarque e Ivan Lins.

Junta-se a isso a presença de Maria Rita Mariano nas colunas sociais, cada vez mais constante, e na razoável presença de Vanessa da Mata nas rádios mais convencionais.

A audiência das rádios de pop adulto - que na maior parte do país são o único espaço para veiculação de MPB autêntica - aumentou em relação às rádios de "sucessos do povão", a ponto da MPB autêntica ter uma penetração cada vez mais crescente nos subúrbios.

O brega-popularesco ainda domina, mas começa a perder terreno nos próprios subúrbios, enquanto começa a recuar diante da incapacidade de atingir os espaços especializados da MPB autêntica. Nem mesmo a tentativa de mudança de imagem dos medalhões do sambrega, breganejo e axé-music, numa roupagem pretensamente "sofisticada", os conseguiu colocar no primeiro time da MPB.

No Nordeste, a reação ao forró-brega e à axé-music torna-se cada vez maior. Jornalistas e intelectuais, na contramão dos similares mais badalados, começam a fazer textos mais críticos sobre as tendências brega-popularescas, sem falar da própria falência da ideia de "preconceito" atribuída à rejeição aos ídolos popularescos. Afinal, quem os rejeita sabe muito bem quem eles são, do contrário que a visão dominante insiste em afirmar.

Nas grandes cidades, o "funk carioca", além de não ter conseguido alcançar a unanimidade e de alguns de seus MC's se envolverem em ocorrências criminais, está cada vez mais atingindo uma péssima repercussão de "música de playboy", principalmente através da poluição sonora causada em vários pontos nos bairros. Periga do "funk" ter uma projeção equivalente a que os grupos emo têm hoje em dia.

A MPB FM, tentando desfazer o equívoco de ter chamado dois ídolos do sambrega para cantar covers no evento do programa Samba Social Clube, e buscando evitar o fortalecimento do lobby de Preta Gil e Rodrigo Faour, que possuem programas na emissora carioca, fez um concurso que mostrou artistas da favela que fazem MPB autêntica ao invés do costumeiro som brega-popularesco.

Por outro lado, os maiores ídolos do brega-popularesco de 1990, 1997 e mesmo de alguns anos atrás também fizeram a péssima estratégia de gravar discos ao vivo um atrás do outro. Acabaram por passar a imagem de ídolos saudosistas ou de crooners entediados, e, por mais que apareçam na mídia como se fossem "grandes artistas", seu desgaste parece inevitável.

Nesse quadro cultural - aliado à saída de circulação de um jornal policialesco (o Meia Hora SP), à queda de audiência de programas como Pânico na TV, Domingão do Faustão e Big Brother Brasil, à decadência das musas "popozudas", ao aumento de denúncias contra a baixaria na televisão - , o Brasil passa por transformações que só causam revolta em quem acredita no estabelecido e está acostumado com a letargia sócio-cultural dos anos 90 e 2000.

No entanto, esse reacionarismo desses descontentes mostra o quanto eles estão nervosos. A justiça social avança, ainda que aquém do ideal, mas suficiente para apontar progressos sociais de alguma forma expressivos. A nova classe média não se compara aos novos ricos de outrora, pelo diferencial que a primeira tem, de buscar qualidade de vida, em vez de repetir a conduta popularesca dos outros.

Enfim, o Brasil cultural começa a retomar o rumo. Esperamos que esse caminho não se interrompa.