segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

FRANZ KAFKA E O BRASIL DE HOJE



Uma boa bibliografia de ficção ou de humor se aplicariam à realidade do Brasil.

Temos o próprio brasileiro Sérgio Porto, que através de suas obras satíricas Febeapá 1, 2 e 3 (haveria mais, não fosse a morte prematura do autor), de 1966, 1967 e 1968 respectivamente, seu alter ego Stanislaw Ponte Preta fazia notas baseadas em aparentes cartas de leitores sobre os absurdos existentes no país em começo de ditadura, mas que são impressionantemente atuais.

Há a obra Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, publicada em 1932, que no entanto parece prever, através de metáforas e sutilezas, o Brasil da Era FHC, uma espécie de ditadura da "racionalidade" que oprime o ser humano e incomoda um personagem do livro.

Há a obra 1984, que George Orwell lançou em 1948, que pode tanto ser interpretada como uma profetização da ditadura militar brasileira de 1964-1985 como pode também ser uma metáfora sobre o atual reacionarismo da mídia ou mesmo de parte da juventude internauta dos anos 90 para cá.

Há a obra O Príncipe, de Maquiavel, uma obra de ciência política que, de forma crítica - é equivocado o termo "maquiavélico" para citar "os fins justificam os meios" porque Nicolai Machiavelli não concordava necessariamente com os métodos narrados - , analisam aspectos que correspondem ao "jeitinho brasileiro" de hoje em dia.

Há a obra de Franz Kafka, sobretudo em A Metamorfose, ficção que poderia servir de crônica para a inferiorização humana, e O Processo, sobre um homem que é processado por uma acusação que nunca é esclarecida. Tais absurdos também falam muito sobre o nosso Brasil.

Recentemente a "cultura" do grotesco vive uma controvérsia violenta. A hegemonia do brega-popularesco, na medida em que é criticada em seus vários defeitos, causa incômodo em vários internautas que, se autoproclamando "donos da verdade", tentam não investir numa saudável concordância, mas em ataques desqualificatórios.

"Ah, você é intelectual mas fala mal do Domingão do Faustão. Critica o machismo mas fala mal das mulheres-frutas".

"O jornal Meia Hora (nota: de mídia popularesca) é vítima da ditadura do politicamente correto".

"Você se acha conhecedor de cultura, mas ignora o sucesso (nota: comercial) dos ídolos musicais (de sambrega, breganejo etc)".

Enfim, a dita "cultura popular" não pode ser criticada em seus absurdos porque nosso desejo de justiça social é visto como "fúria elitista", fora outras acusações mais cruéis.

De repente, torna-se um drama criticar as chamadas popozudas, mesmo quando se alerta sobre o óbvio aspecto da coisificação da mulher-objeto em nome de valores claramente machistas.

Solange Gomes comete gafes e afirma odiar ler livros, no alto de seus 36 anos, e eu não posso fazer críticas a ela que aparece internauta me espinafrando.

Nada mais kafkiano.

Pois se eu não posso criticar mulheres que seguem valores do machismo, eu, como homem, sou proibido de criticar a exploração fútil do corpo feminino, então vivo num país absurdo.

Já enfrentei reacionários que defendiam esses ícones do Brasil conservador como Solange Gomes, Alexandre Pires, Rádio Cidade/89 FM, Zezé Di Camargo & Luciano, Exaltasamba, MC Leonardo, ou mesmo José Serra.

Gente que, no entanto, vestia de uma forma ou outra a máscara de "progressista" ou "independente". Gente que se apressa em falar mal da Rede Globo, só para impressionar e fingir que seus ídolos da "música sertaneja" correspondem a um Brasil libertário.

Não chegam a defender o MST (seria o mesmo que atirar no próprio pé), mas os fanáticos pelos agroboys musicais - que no fundo assistem aos programas da Globo com muita devoção - tentam enganar a gente dizendo que "este programa da Globo é uma m...", "o Galvão Bueno é um esc...", "Fátima Bernardes é uma bruxa feia e velha", "Fernanda Montenegro atua mal" e por aí vai.

Tanta mentiralhada exagerada para tentar impressionar, críticas até mais grotescas do que o normal (eu não criticaria o PiG de forma fútil ou exagerada), quando na verdade esse pessoal reaça é adepto da mídia golpista que diz odiar.

Hoje esses internautas fazem patrulha, tentando dizer que o "grotesco" é "coisa fina", no mais desesperado recurso de combater as críticas à domesticação sócio-cultural do brega-popularesco.

Tanta coisa kafkiana, como dizer que o É O Tchan não é machista, que o jornal Meia Hora é apenas um "jornal de humor", e alguns idiotas ainda o comparam com o saudoso jornal Pasquim.

Esses caras já leram o Pasquim na vida? Certamente não. Só ouviram falar.

Mas Solange Gomes odeia ler livros e posa de "freira sexy" e não podemos falar mal dela. Mas se um idiota diz que ela é um "ícone do feminismo", há quem aplauda de pé.

O Pasquim não era só piada. Tinha ensaios, entrevistas, textos da mais refinada inteligência. Tinha também agenda cultural, ciência política, relatos jornalísticos de primeira.

Durante a ditadura militar o Pasquim fazia muito mais jornalismo e ativismo cultural do que o debilóide Meia Hora nos tempos atuais de democracia.

Mas no Brasil de Franz Kafka a "barata" é vista como a metamorfose natural do povo da periferia.

Eu digo que o povo pobre foi transformado pela mídia golpista em uma massa grotesca e idiotizada, e o preconceituoso sou eu, quando eu apenas denuncio as manobras feitas pela mídia.

Em vários textos já falei que o povo brasileiro tem uma história de luta, e havia tempos em que as classes pobres derrubavam governantes, botavam donatários (os "governantes" das capitanias hereditárias, primeira tentativa do Brasil em dividir-se em Estados) para correr.

Comparo o que o povo pobre faz no não-reconhecido território palestino e o povo-gado da Globo que vai submisso ao galpão mega-show ver os ídolos do "funk", do sambrega e do tecnobrega etc, e ninguém dá ouvidos.

Mas se uma das "maiores musas do país" diz que odeia ler livros, fazendo coro à "também grandiosa" Ivete Sangalo, isso equivale a uma verdadeira censura.

Porque sabe-se que, lendo livros, conhece-se muitos segredos e contradições da vida, e confrontar A Metamorfose de Franz Kafka com o brega-popularesco (que, por sinal, tem o sucesso de duplo sentido "A Barata", do Só Pra Contrariar, que nada tem a ver com Kafka, mas com a metáfora machista da mulher-objeto).

Porque é lendo livros que se entende melhor a realidade em volta. Que se reativa a memória, que se relembra segredos "perigosos" que põem em risco a reabilitação de oportunistas canalhas, que eram reacionários e corruptos há poucos meses, mas, sem se arrependerem do que fizeram, quiseram se passar por "outras pessoas, mais íntegras e progressistas".

É através da leitura de livros que obtivemos informações que revelariam o Febeapá do nosso Brasil.

Por isso alguns jovens reaças dizem que são "inteligentes" assim do nada.

Querem nos assustar. Mas não conseguem.

No fim são eles que correm com medo, sem poder segurar mais suas máscaras de "avançados".