quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

SUCESSO DE "A PRIVATARIA TUCANA" É ALERTA PARA TECNOCRACIA



O livro "A Privataria Tucana", de Amaury Ribeiro Jr., é um expressivo sucesso nas vendas, apesar de sua divulgação praticamente nula na grande mídia. E o sucesso foi estimulado sobretudo pela modesta mas ascendente e constante divulgação de blogueiros na Internet.

O conteúdo do livro é uma série de documentos que indicam o envolvimento de políticos do PSDB, seus amigos e parentes com banqueiros e especuladores financeiros num esquema gigantesco de corrupção tramado por trás de uma série de privatizações feitas pelo governo FHC.

Mesmo os respectivos filhos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do presidenciável derrotado José Serra, Paulo Henrique Cardoso (que também é "laranja" da Disney no controle acionário da Rádio Itapema FM) e Verônica Serra, envolvida com negócios do banqueiro Daniel Dantas, do grupo Opportunity.

Mas o livro pode causar efeitos ainda mais devastadores. De longe, o escândalo da "privataria" dos governos FHC é um dos maiores escândalos políticos depois de Fernando Collor, e só dentro do PSDB seus efeitos foram intensos, criando uma crise interna no partido e nos dois aliados, o DEM e o PPS, que perderam muitos integrantes que migraram para o PSD "ressuscitado" pelo prefeito paulistano Gilberto Kassab.

O livro já é uma "caixa de Pandora" da política brasileira, mas pode derrubar toda a tecnocracia brasileira, mesmo aquela hoje formalmente rompida com o tucanato. Isso porque a onda de privatizações da Era FHC, pivô de todo o escândalo, era vista na época como um paradigma forte de desenvolvimentismo e supremacia técnica nas decisões para o país.

Isso significa que o desgaste pode atingir, com o tempo, tanto tecnocratas das Comunicações e dos Transportes como também a intelectualidade etnocêntrica, que defendem ideias e procedimentos nem sempre associados ao interesse público.

Nas Comunicações, destaca-se a decadência da televisão aberta e agora da TV paga (que a "gatonet" das milícias influiu decisivamente), a queda da imprensa e do poder de influência dos chamados grandes jornalistas como "formadores de opinião".

No rádio, a "Aemização das FMs" tornou as emissoras chatas de serem ouvidas, além de terem provocado uma verdadeira "dança das cadeiras" no mercado radiofônico, responsável por muitas demissões de seus funcionários, em muitos casos demissões em massa.

Nos transportes, a chamada "curitibanização" dos ônibus, ancorada pela padronização visual e pela formação política de consórcios, já mostra sua decadência irreversível, o que anda irritando seus adeptos, que não conseguem explicar por que negam esse fracasso, enquanto acidentes e tragédias acontecem em função desse sistema comandado com mãos-de-ferro pelos secretários de transportes.

A irritação desses adeptos, alguns deles busólogos, se deve, entre muitos fatores, ao fato do ex-político Jaime Lerner estar com a reputação em xeque (comprometendo a imagem de Lerner, que tem a mesma fome privatista de José Serra, para a Copa de 2014).

A intelectualidade etnocêntrica, centralizada pela "trindade" Paulo César Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches, já não consegue esconder que prefere a mercantilista, bastarda e tendenciosa "indústria cultural" do brega-popularesco, que glamouriza a pobreza e transforma as classes populares em caricatura de si mesmas, do que a verdadeira cultura popular. Com a reputação turbinada pelo jabaculê radiofônico e televisivo, Araújo, Vianna e Sanches brincam de etnografia para sustentar tão somente o "deus mercado" popularesco, comprando o apoio de quase toda uma intelectualidade influente.

Todos esses tecnocratas, mesmo que estejam formalmente rompidos com o tucanato há pelo menos cinco anos, só puderam consolidar sua reputação através do contexto sócio-político do governo Fernando Henrique Cardoso. Em muitos aspectos, os próprios politicos do PSDB, principalmente FHC e José Serra, de uma forma ou de outra inspiraram esses "especialistas" na divulgação de suas ideias nos últimos quinze anos.

Portanto, os arranhões que serão feitos pelo livro de Amaury Ribeiro Jr. envolvem um país cujo progresso social dependia das decisões vindas do alto dos escritórios refrigerados. A supremacia do poder privado sobre o interesse público entrará numa séria crise, nos próximos anos, o que mostrará que o privado e o público não podem se confundirem.

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