terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A ALEGRIA DE VIVER DE JÚLIO TEDESCO



Quem é que valoriza a vida? Aqueles que se aprisionam no rigor das etiquetas sociais ou aqueles que buscam o prazer de viver, ainda que em dado momento, seja por erros ou falhas de toda ordem, acabam perdendo a vida num dado instante?

Há alguns dias o surfista e paraquedista Júlio Tedesco faleceu. Ele havia sofrido um acidente quando fazia skysurf (ou surfe aéreo) e não conseguiu abrir seu pára-quedas. Ao cair, ficou gravemente ferido e faleceu ao ser socorrido. Ele estava gravando uma reportagem para um programa do canal Sportv.

Ele tinha 54 anos e era dentista. Mas, do contrário de muitos homens de sua geração, ele via nos esportes radicais uma maneira de encontrar o prazer na vida, de relaxar diante das pressões do cotidiano. Apesar dos cabelos brancos e do ar de senhor de idade, Tedesco era jovial e tinha um grande amor pela natureza e através dos esportes radicais ele estabelecia esse contato com o ar livre e com a livre emoção da aventura.

Sua tragédia lamentável não impede que reconheçamos que ele buscava a alegria da vida. Pelo contrário, ele valorizava bastante a vida e teve o mérito de tentar romper com aquele paradigma antigo da "maturidade" dos 50 anos, quando a regra é ser escravo do próprio prestígio sócio-econômico e profissional e transformar o lazer numa mera propaganda desse prestígio.

Sabe-se que a escolha do surfe aéreo foi bastante arriscada. Mas Júlio Tedesco teve coragem de assumir, aos 54 anos, sua vontade de manter a emoção da vida em alta, para ele os esportes radicais eram melhores do que prostrar na maresia burguesa dos formalismos mil que sucumbem muitos homens de sua geração.

Pelo menos Júlio negou essa morosidade da vida, esse "brincar de velhice" que ilude muitos cinquentões apegados ao formalismo viciado, à sisudez compulsiva, que não os faz mais maduros. Eles só têm a experiência profissional, o conhecimento livresco, mas até para contemplar a natureza o fazem por puro esnobismo granfino e paternal demais.

Júlio buscou o prazer da vida, à sua forma. Pena que ocorreu esse acidente fatal. Mas ao menos ele mostrou que a meia-idade não é pretexto para a verdadeira preguiça que está por trás da sisudez e da personalidade racional demais, do prazer escravizado e anulado por regras de etiqueta, pelo ar paternal demais para com os mais jovens, pelo pedantismo que tenta nivelar os cinquentões aos mestres octogenários, mas que não passa de um "brincar de ser velho" que dificilmente fará os "coroas" de hoje mais maduros.

Espera-se que, lá em cima, Júlio Tedesco se recupere da tragédia repentina e dolorosa. E que ele seja abençoado pela lição de jovialidade da qual os esportes radicais apenas eram uma pequena parte. Que sua busca pela alegria de viver, em negação à sisudez confortável de seus contemporâneos, possa representar uma boa lição para aqueles que atingem os 50 anos com suas rugas e cabelos grisalhos ou brancos. Até porque devemos deixar também que o sentimento juvenil também se amadureça e se envelheça.

Boa sorte, Júlio, no seu retorno à pátria espiritual. E valeu pela tentativa de ser jovial na meia-idade.

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