domingo, 6 de novembro de 2011

PADRONIZAÇÃO VISUAL DOS ÔNIBUS DO RJ NÃO CHEGARÁ A 20 ANOS


VERDUN E MATIAS IGUAIZINHOS - Visual padronizado não traz vantagens reais para os passageiros.

O texto em questão pode parecer um absurdo hoje, mas pensando a longo prazo, verá que faz um bom sentido.

Pois o que se anuncia é que é muito pouco provável que a padronização visual adotada nos ônibus do Rio de Janeiro irá durar os vinte anos previstos para os consórcios. A medida pode até estar sendo tolerada pela maioria da população, mas apoio ela não recebe mesmo.

A medida, comprovadamente, está mostrando as desvantagens do visual igualzinho de várias empresas, que confunde os passageiros que não podem mais reconhecer os ônibus de longe. Além disso, também não há a menor graça "rachar" uma mesma empresa de ônibus em dois consórcios, o que aumenta ainda mais a confusão.

A medida só "prevalece" hoje porque, em nossa política, ainda vivemos a herança do regime militar e dos aliados civis que, tempos atrás, constituíram no grupo político que sustentou os governos Collor e FHC.

É bom deixar claro que o pai da "padronização visual" nos ônibus brasileiros, Jaime Lerner, é ideologicamente herdeiro do regime militar e se formou na UFPR do reitor e depois ministro de Castelo Branco, Suplicy de Lacerda, artífice de medidas que revoltaram o movimento estudantil.

A medida, arbitrária e feita à revelia da população, da padronização visual dos ônibus cariocas, só satisfaz uma minoria de busólogos que ficou com o privilégio exclusivo de reconhecer a "diferença" de uma Verdun e uma City Rio, de uma Braso Lisboa e uma Real, de uma Bangu e uma Campo Grande. A medida criou uma espécie de joguinho para esses arautos da vaidade pessoal sobre rodas.

Vale lembrar, todavia, que nem todos os busólogos que fotografam ônibus com visual padronizado estejam realmente a favor da medida. Há muitos contra que, mesmo assim, fotografam ônibus padronizados pela simples função de informar. Se nem o designer Armando Villela (Villela Design), em que pese ter bolado as padronizações visuais para Belo Horizonte, Vitória e Manaus, apoia a padronização visual, muitos busólogos também não apoiam.

Um desses busólogos, com muitos anos de experiência, como protesto decidiu trocar os dados de empresas de ônibus por causa do visual padronizado num sítio virtual de ônibus. Colocando o número correto do carro, o busólogo no entanto dá o crédito diferente de empresa, para protestar. Como, por exemplo, creditar um carro da Viação Andorinha com o nome da empresa mudado para Rio Rotas.

A arrogância de busólogos-pelegos, autoridades e tecnocratas do transporte, certamente, não irá acreditar neste texto, achando que o que vai acontecer é só a "mudança de design" na padronização visual. Mas, do jeito que a opinião pública hoje evolui, em que uma multiplicidade de questões diversas da sociedade são difundidas e discutidas amplamente, é bom se prepararem para quando a causa deles perder totalmente o sentido.

Ninguém imaginava, por exemplo, em 1994, que o grupo político de Fernando Henrique Cardoso perderia todas em 2010. Fale em 1997 que FH e seus aliados não iriam ficar no Planalto em 2010, e você logo receberia um comentário agressivo de um internauta irritado, que muito provavelmente perguntaria em que planeta você vive.

Fernando Henrique Cardoso deixou a Plataforma P-36 da Petrobras sofrer uma tragédia, chamou os aposentados de "vagabundos", e aparentemente "ganhou todas" em 2000. Certamente achando que sobreviveria vitorioso em 2014, ano dos 20 anos do Plano Real, em que tudo parecia indicar o triunfo "definitivo" do grupo demotucano.

A ditadura militar que tentou "padronizar" os corações e mentes dos brasileiros durou 21 anos achando que ultrapassaria a barreira do século. Fale para os generais, em 1969, que a ditadura militar encerraria em 1985 e você seria preso e torturado, para não dizer morto e jogado na vala como carne podre.

A Folha de São Paulo, ícone da imprensa reacionária, tentou "padronizar" a opinião pública com o Projeto Folha, em 1984, com Otávio Frias Filho acreditando ser ele mesmo um Moisés moderno, no sentido de definir os mandamentos da humanidade brasileira. A FSP parecia ter uma reputação inabalável, quase que um totem impresso. Mas hoje a reputação do jornal paulista se encontra seriamente abalada, até nos tribunais.

Mas fale para algum chefão da Folha, em 1994, que o jornal seria parodiado por uma dupla de humoristas, que o periódico seria visto como reacionário e o nome "Folha" faria um trocadilho maldoso com a palavra "falha" e a resposta mais provável será esta: "Não sei do que você está falando. A Folha é a imprensa na mais alta definição. Somos a vanguarda do futuro, não creio que cometamos grandes erros".

As coisas mudam, e o que se vê, nas ruas, é o fracasso de todo um modelo de transporte coletivo do qual a padronização visual é seu carro-chefe. Nas ruas cariocas, o que se vê são ônibus facilmente enguiçados, carros semi-novos mal-conservados, ônibus circulando com lataria amassada, males que se vê até mesmo em empresas antes respeitáveis como Real, Matias, Pégaso e Lourdes.

Não é invenção, não. Basta dar um passeio de ônibus nas principais avenidas e ver que isso nem de longe é papo furado. Já vi lataria amassada anteontem em carros como 53648 (Campo Grande), 58080 (Lourdes) e 27509 (Vila Isabel). Já vi carros da Matias, Lourdes e Real chacoalhando feito carro de entulho, carros que nem chegam a ter três anos de fabricação.

Os passageiros também quebram a cabeça agora para ver se não pegam ônibus errado. Seria no mínimo cinismo e cara-de-pau achar que isso vai durar 20 anos ou mais ou que vai resolver com paliativos sem necessidade. Não vai.

A padronização visual é uma medida que se desgasta. Ela é herança da ditadura militar, cujos herdeiros civis (a ditadura também teve apoio de parte da sociedade civil) até hoje estão no poder, que queria ver o Estado controlando politicamente o transporte coletivo.

Essa lógica do transporte coletivo, tecnocrática e autoritária, se vende como "nova" mas se trata de algo velho e antiquado, até porque seus responsáveis se encontram no auge do poder político e técnico.

Talvez a medida se segure até 2016, com muitos artifícios como abrigos futuristas e compras tendenciosas de carros novos, com direito a festinhas e alarde na imprensa. Mas é muito difícil que, com o amadurecimento da opinião pública, cada vez mais avançando no senso crítico, a gente veja ônibus cariocas com visual padronizado daqui a 20 anos. Até lá, todas as suas desvantagens serão reconhecidas e todos os paliativos testados em vão.

O futuro se mostrou, desde que a humanidade é humanidade, que não é o plágio do presente e que pode transformar em castelos de areia ideias dominantes que parecem sólidas.

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