sábado, 12 de novembro de 2011

O COLAPSO ANUNCIADO DA CULTURA POP MUNDIAL



Deborah Harry, a bela vocalista do Blondie, afirmou recentemente sua preocupação com o download de CDs que anda prejudicando o mercado fonográfico mundial. A declaração de Debbie parece conservadora, mas tem um quê de sensatez, e nos faz pensar sobre os rumos que a indústria fonográfica está traçando nos últimos 20 anos.

Na verdade, a indústria fonográfica partiu para uma rota suicida a partir dos anos 90. Com discos cobrados a preços caros, e com uma lógica extremamente mercadológica, a indústria fonográfica envelheceu comandada por executivos que não tinham a menor vocação para entenderem a arte e a cultura.

Nesse sentido, tem muita razão André Midani, ex-executivo da Warner, que disse que os antigos executivos fonográficos, do contrário dos atuais, possuíam profundo amor à música, por mais que pensassem também em lucros.

É só ver o que era o pop comercial dos anos 1960. Tinha jabá, pressão de executivos e tudo. Mas era dotado de boas melodias e os músicos e cantores envolvidos tinham que ter considerável talento musical. Talvez estivessem longe de ser geniais, mas havia alguns que chegavam perto disso.

Hoje o que vemos é a derrocada da chamada música pop como um todo. E isso ocorreu por inúmeros processos. A cada vez mais executivos musicais que não entendem de música aumentaram seu poder. E contratavam gente que não sabia cantar e tentava cantar, gente que não sabia compor e tentava compor.

Junta-se toda a ganância dos executivos fonográficos e o que vemos: o fim do mercado regular de discos de vinil, nos anos 90, o download gratuito de músicas devido ao preço caro de CDs e a queda vertiginosa da qualidade musical nos últimos anos. E agora se anuncia a extinção dos CDs no final do próximo ano.

E há ainda o encolhimento das chamadas "grandes irmãs", que agora tem como novo episódio a anunciada aquisição da inglesa EMI pela Universal Music, enquanto as antigas CBS e RCA estão juntas na Sony Music e há a Warner Music.

Por outro lado, o comercialismo em muitos selos fonográficos emergentes impõe a discussão sobre põem em xeque a ideia generalizada de que todo selo fonográfico pequeno ou médio que não tenha escritório em Nova York seja necessariamente "gravadora independente". Muitos selos "pequenos" possuem a mesma mentalidade gananciosa das gravadoras grandes, o rótulo de "independente" não lhes faz sentido algum, porque ideologicamente nada têm a ver.

De repente, coisas banais como Bee Gees e Whitney Houston passaram a ser consideradas "geniais", diante daquele ditado "em terra de cego...". O banal de vinte anos atrás passa a se vender como "sofisticado", diante da queda da qualidade musical do chamado "pop médio", cuja "diva" atual é uma Lady Gaga que nada faz senão se autopromover com escândalos e muito visual, em detrimento de uma música fraca sem muita expressividade.

Embora eu tenha feito muitos downloads de CDs, dou razão a Debbie Harry, porque eu mesmo sinto falta daqueles tempos em que se ia para as lojas de discos e se olhava uma variedade de títulos e intérpretes. Hoje essas lojas estão em maioria falidas, os intérpretes não conseguem sustentar suas carreiras, e não se está falando em mercenarismo.

O mercenarismo não está em nomes como Blondie, um grupo herdeiro do punk novaiorquino, mas nos executivos de gravadoras e editoras. Mas vemos a batalha que tem de grupos musicais que precisam sustentar suas carreiras, porque fazer uma simples apresentação musical gera custos, assim como gravar discos e outras atividades.

Além disso, a ganância empresarial e editorial suga muito do dinheiro arrecadado pelos intérpretes e compositores. E é essa ganância que, insensível ao público, extingue primeiro os vinis, e agora quer extinguir os CDs, por pura frescura tecnocrática. Foi preciso uma campanha midiática, incluindo filmes juvenis e clipes musicais, para o vinil voltar, pelo menos num outro contexto.

Agora, com o fim do CD e sua substituição por faixas de MP3 vendidas a atacado ou varejo, a cultura pop poderá entrar em colapso. No Brasil, onde vemos a queda de qualidade da cultura popular pelo brega-popularesco - que se desgasta seriamente, mas ainda impera no mercado - e o fim do CD poderá criar um violento impasse para nossa cultura, já castigada pelo entretenimento brega, piegas e vulgar.

O fim do CD é uma das piores notícias dos últimos meses. Talvez a pior notícia do ano. Ela se deu para tentar conter a pirataria de CDs, desvalorizando o produto. Mas o golpe que os executivos fonográficos imaginam dar aos pirateiros será um golpe contra os próprios executivos, isolados em seus escritórios e sem qualquer visão do que é cultura ou arte.

Além disso, as consequências serão imprevisíveis. Poderá até haver uma reação. Vamos ver no que vai dar esse fim dos CDs.

Nenhum comentário: