domingo, 20 de novembro de 2011

BREGAS E NEO-BREGAS TINHAM PRECONCEITO COM A MPB



Os cantores bregas e neo-bregas normalmente são definidos como "vítimas de preconceito", "injustiçados" e "discriminados", e muitos acham que eles sempre quiseram algum lugar ao sol da Música Popular Brasileira.

Essa impressão, no entanto, é falsa e movida a campanhas midiáticas mais recentes. Na verdade, os próprios ídolos bregas e neo-bregas é que são os preconceituosos e, durante muito tempo, sempre viram a MPB autêntica com desdém e discriminação, como se fosse algo inalcançável, inatingível ou simplesmente não fosse da sua competência.

Alguns desses ídolos até começaram, antes de gravar seus primeiros discos, como crooners de MPB, mas sempre ouviram nos bastidores que fazer MPB não garantia sucesso, que MPB era coisa de granfino, de socialite, de professor universitário, de conservatório de música.

"MPB é coisa de bacana", "MPB não enche barriga", "Fazer MPB é muito chato", "MPB não faz minha cabeça", eram as declarações mais comuns, nos bastidores dos ídolos bregas e neo-bregas.

Em 1990, quando não havia a Internet pelo menos como conhecemos, os ídolos brega-popularescos que faziam sucesso, com seus fraquíssimos arremedos de sambas, música caipira e baião muito mal tocados e mal feitos, seguiam alegremente desprezando a MPB que paralelamente se divulgava em rádios especializadas, às vezes aparecendo uma vez e outra numa trilha sonora de novela.

Eram praticamente dois mundos isolados. Um é a MPB aberta às influências de raiz e às novidades estrangeiras, livre, leve e solta, marcada pelas melodias, pelas informações musicais, pelo talento natural de seus artistas. Outro é o brega-popularesco troncho, caricato, risível e medíocre, que só a bebedeira de muita cerveja e aguardente podem fazer suas músicas serem "mais digestíveis".

Mas, de repente, veio a Internet em 1997 e as possibilidades que esse novo meio de comunicação abre para o grande público fariam com que este se desviasse dos sucessos comerciais do brega-popularesco radiofônico.

Imagine se um jovem da periferia passa a entrar em contato com a verdadeira música brasileira, os verdadeiros sambistas, sanfoneiros e violeiros e deixe de lado os músicos de araque que ouvia no rádio sete anos antes.

Certamente, para esses supostos artistas da velha mídia, é o fim. Daí que, logo em 1998, a gente via os mesmos breganejos, sambregas, axézeiros e forrozeiros-bregas que esnobavam a MPB começaram a participar de tributos aos mesmos artistas de MPB autêntica que os neo-bregas de 1990 (e alguns emergentes de 1995-1997 que seguiam a mesma linha) achavam que "era coisa de bacana".

E aí vieram covers, duetos, discos ao vivo que, aos montes, eram feitos para encaixar alguma música do cancioneiro antes desprezado pelos neo-bregas. E aí os músicos e cantores foram duramente criticados por jornalistas e intelectuais, que os viam uma vulgaridade musical midiática sem precedentes e que expressava a mediocridade cultural que acomodava as classes populares.

Com a reação intelectual, os ídolos neo-bregas viram outro obstáculo. Se eles, por causa da Internet, corriam o risco de serem preteridos por artistas de melhor qualidade, com a crítica eles corriam o risco de serem desmoralizados mais e mais. E o que a indústria do entretenimento fez? Comprou uma parcela da intelectualidade para defender esses ídolos mercadológicos.

E aí, da noite para o dia vieram cientistas sociais e críticos musicais que passaram a fazer elogios aos bregas e neo-bregas de 20, 40 anos atrás. Criaram um discurso sofisticado para definir a mediocridade cultural como "grande coisa". A pretexto de lotarem plateias, alguns intelectuais chegaram, por provocação, a dizer que esses ídolos bregas e neo-bregas eram "a verdadeira MPB", só porque atraíam facilmente o grande público.

Era um discurso tendencioso e cheio de inverdades, que buscava uma associação artificial, meio parasita, dos bregas e neobregas à MPB autêntica. Um discurso feito por documentários, resenhas, artigos e monografias que se servia dos mais recentes recursos de retórica textual, embora seu conteúdo esteja longe de ser considerado realmente objetivo.

Afinal, tudo isso não é mais do que uma "roupagem científica" do discurso publicitário, como se quisesse dizer "Compre o disco do grupo Malícia & Chamego" e "Vá ao show da dupla Zé Cretino & Idiota" de uma forma diferente.

O que essa intelectualidade trabalha em seus discursos é algo que não dá para ser descrito em breves textos. Mas o discurso tendencioso, tomado de apelos sentimentais e até ataques sutis a quem critica esses ídolos - de vez em quando até um Pedro Alexandre Sanches é tomado por surtos "urubólogos" - , acabou funcionando mercadologicamente, e muita gente acreditou que os bregas e neo-bregas de outrora sempre estiveram integrados à MPB autêntica.

A memória curta permite essas manobras. Mas quem acompanhou o passado sabe que o brega-popularesco sempre atuou em desprezo à MPB. Só depois, para sobreviver, apelou por sua ajuda, como aquelas pessoas esnobes que só recorrem à alguém quando estão a perder vantagens.

Só que o tempo mostrou que os brega-popularescos prolongaram tempo demais no sucesso, graças a essa manobra. E cada vez mais mostraram sua mediocridade quando se concentraram mais em álbuns ao vivo lançados um atrás do outro. E associá-los à MPB não foi uma boa ideia, porque a comparação entre bregas e neo-bregas com a MPB autêntica sempre mostra alguma vantagem para esta última.

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