quinta-feira, 10 de novembro de 2011

BREGA-POPULARESCO "COMPRA" INTELECTUAIS



Um empresário do entretenimento fala para seu produtor assistente:

- Cara, os nossos ídolos da 'cultura popular' de mercado não estão fazendo sucesso como há alguns anos atrás. Eles já começam a encalhar até em sebos. E agora?

- Pois é, chefe. - disse o produtor. - Eu sei de uma solução.

- Qual é a solução, me diz, porque os ídolos já estão falidos. Não posso mais aumentar o jabá nas FMs, cada vez menos elas tocam música, e além do mais é um tal de igreja isso comprar, rede aquilo comprar, que não dá para estabelecer um esquema de jabá por longo prazo.

- A gente pode subornar os intelectuais para elogiar nossos ídolos. Eles voltam ao estrelato fácil, fácil.

- Mas como assim? Todo mundo sabe que essa música que nós trabalhamos nada tem de intelectualizada, no fundo ela é uma grande bobagem feita para o otário do povão consumir.

- Eu sei, chefe. Mas já bolei todo o discurso base. Digo que nossos ídolos estão sendo vítimas de preconceito e aí eu peço para os intelectuais trabalharem a tese que quiserem.

- Como assim?

- Ora, a gente financia as monografias deles, a gente paga por fora tudo que for bolsa de pós-graduação. A gente "compra" toda a intelectualidade, como quem compra um gado. Aí vai todo mundo defender os interesses da gente.

- Isso é muito genial. Mas você não acha que eles podem desconfiar?

- Que... Eles esperam verbas de pesquisa do governo que não vem. Vai você jogar dinheiro nas universidades, todo mundo vai falar dos nossos ídolos como se fossem a cultura da periferia.

- Ah, cultura da periferia. Mas que expressão é essa?

- Conversei com um sociólogo e ele disse que pegou o termo "periferia" da teoria de FHC. O ex-presidente, sabe. Só que não vamos espalhar isso, não, a intelectualidade aderiu ao PT. Para tentar sugar verbas federais, ainda que não sejam as de pesquisas.

- Hmmm! Mas não estou entendendo como esses intelectuais vão trabalhar a promoção publicitária de nossos ídolos.

- Eles têm o discurso nas mãos. Têm as cartas na manga. Sabe aquele grupo de forró eletrônico que o senhor inventou há 15 anos, recrutando uns pobres coitados?

- Hã.

- Pois é, a gente pode relançar ele encomendando a um sociólogo a escrever um livro. Pode ser até um cara do departamento de informática de uma FGV!

- Nossa!

- Ele vai construir um discurso que compare o grupo de forró eletrônico a um cenário desses que chamam de underground.

- Ande o quê?

- Underground, palavra de gringo, chefe! Diz que é subterrâneo, que é aquele artista que tenta fazer sucesso mas não consegue.

- Aí o intelectual vai criar um discurso que enfia tudo que for comparação. Sabe comparar o nosso grupo de forró eletrônico às rebeliões culturais de Nova York dos anos 60? Aquele discurso todo cheio de livros consultados, cheio de comparação preciosa. Você nem vai conhecer mais o grupo de forró eletrônico depois que você ler o livro ou monografia.

- Mas aquele cantor Rodinelson, da banda de forró eletrônico, não tem onde cair morto. Ele não tem a menor noção do que é política.

- Pois é, mas o cientista social vai trabalhá-lo como se fosse um misto de guerrilheiro bolchevique...

- Bolche o quê?

- Bolchevique, é como os intelectuais chamam a turma dos sindicatos, por exemplo. Do movimento estudantil, aquela galera que faz greve, faz passeata, ocupa prédios.

- Ah, sim. Espécie de arruaceiros organizados.

- Isso.

- Mas isso não vai causar problema com nossos ídolos? A gente vai dar uma trabalheira para relançar aqueles funkeiros MC Bobão, além de ser difícil promover o Batalhão das Canhãozudas.

- Não, do jeito que os intelectuais trabalharão, não terá problema. A juventude moderna adora esses bolcheviques. E esse MC Bobão, autor da "Melô do Cheira-Cheira", já está sendo trabalhado como se fosse um batalhador da periferia, é tido quase como um revolucionário rebelde.

- Como assim? O MC Bobão tem voz de fuinha, não tinha mesmo um grande futuro pela frente.

- Mas tem, chefe, o antropólogo até lançou o MC Bobão como se fosse um militante cultural, o cara tá até fazendo trainée de ciência política, vai fazer carreira de ativista...

- Hmmm.

- E tem mais, a vocalista do Batalhão das Canhãozudas, Melissa Canhãozuda, já teve todo o discurso trabalhado pelo antropólogo. Imagine só que habilidade. A Canhãozuda só lava umas poucas roupas por semana e brinca com a afilhada e o antropólogo escreveu que ela foi lavadeira, babá e doméstica.

- Legal. E aí ela dá uma de batalhadora. Bom marketing! E o marido dela?

- Olha, eu já botei ele para morar num bairro classe média de Teresina. Financiei o divórcio da Canhãozuda, indenizei o marido dela com 20 salários mínimos mais as despesas de viagem, mudança e compra do apartamento, porque a gente precisa ter a Canhãozuda solteira para manter a carreira, sabe como é.

- Sei.

- A Canhãozuda precisa ser símbolo sexual, e enquanto a gente trabalha tudo isso, fabricando uma imagem de "encalhada" para a moça...

- E olha que ela já fez muito homenzão dos subúrbios brigarem com ela a facadas.

- Pois é. Aí enquanto a gente cria um mito de "encalhada" para a Canhãozuda, o antropólogo inventa que ela, por ter lavado roupa, cuidado da afilhada e rompido com o marido, é uma "lavadeira, babá e doméstica que virou feminista".

- Bingo. Assim a gente ganha mais dinheiro. E os sertanejos, a gente pode promover?

- Fica difícil. Tem grandes fazendeiros por trás. Mas a gente trabalha os funkeiros, forrozeiros eletrônicos e pagodeiros românticos que estão à beira do ostracismo. Vai dar certo. A intelectualidade está toda comprada pela gente. Tudo virou não uma panelinha, mas um panelaço.

- Legal. É assim que a gente vai faturar mais e mais. Já dá para eu comprar umas dez grandes fazendas de mil hectares no interior de São Paulo e Paraná. E você vai ser meu sócio, combinado?

- Combinado.

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