terça-feira, 11 de outubro de 2011

A LEMBRANÇA POÉTICA DE RENATO RUSSO



Eu tinha 13 anos, em 1984, quando ouvi as demos da Legião Urbana, terceira investida musical de um rapaz franzino que havia integrado um grupo punk chamado Aborto Elétrico e uma breve experiência como cantor folk solo como "trovador solitário".

Renato Manfredini Jr. até nos brindou com o repertório dessas duas fases, ao longo do tempo, como sabemos. "Que País É Este?"é da fase Aborto Elétrico, por exemplo. Já "Eduardo e Mônica" remete ao "trovador solitário".

Ouvia a Fluminense FM quando ela divulgou a demo da Legião Urbana. E, em 1986, já ouvi até a entrevista com o grupo, quando lançou em primeira mão as músicas "Tempo Perdido" e "Eduardo e Mônica", para o disco Dois.

Eram grandes tempos. Via o clipe de "Será", e não tinha ideia da força poética e da profunda mensagem que aquele vocalista de cabelos crespos e óculos quadrados mostraria em sua breve carreira. Uma carreira que foi encerrada há 15 anos, quando Renato, sofrendo de AIDS, ainda estava deprimido, com anorexia e desiludido com o mundo, faleceu aos 36 anos.

Se naqueles anos 80, em que pese o galopante crescimento do brega-popularesco que atingiria níveis alarmantes nos anos 90 e ainda se carregaria de pretensiosismo "cultural" sob o apoio da intelectualidade etnocêntrica tempos depois, ainda vivíamos sob o signo de uma cultura mais humanista, em que poderíamos ouvir nas rádios artistas honestos, criativos e sinceros.

Passando tanto tempo depois que Renato faleceu, nota-se o quanto que a mediocrização social que o então vocalista da Legião Urbana (e que naquele 1996 já havia lançado dois discos solo), no final de sua vida, havia se desiludido com a crise de valores que atingiu o país e traria efeitos mais drásticos anos depois.

Só para se ter uma ideia, a direita cultural investiu pesado no "fenômeno" É O Tchan, que fez tornar ainda mais confusas, nas mentes de muitas famílias, as noções de ética, de emancipação feminina, de arte e cultura, onde o medíocre tornava-se "genial", o abjeto tornava-se "inocente", o machista virava "feminista" etc.

E os rebeldes sem causa amamentados pela segunda babá eletrônica depois de Xuxa, as caricatas, reacionárias e arrogantes "rádios rock" 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ), logo chutaram o pau da barraca e tentaram promover um desdém a Renato Russo, como se desejassem a ele uma segunda morte.

Sob o pretexto de que Renato "nos traiu ao gravar música italiana", esses proto-troleiros que mais parecem terem saído de maternidades controladas pelo Comando de Caça aos Comunistas, preferiram endeusar o "ativismo" confuso de um Charlie Brown Jr., cuja "crítica social" não se sabe para quem se dirige, de tão vaga no conteúdo e tão imprecisa no noticiário. Tudo o que Chorão cantava para seus fanáticos fãs era "fique esperto (sic), galera" e "seja você mesmo".

Nada de criticar o capitalismo, nem fazer protestos dirigidos a corruptos. O Charlie Brown Jr., como uma anti-Legião Urbana, fazia "críticas" sem dar a menor ideia do que se está criticando, tudo muito vago e genérico.

Até porque o grupo tinha que aparecer no Planeta Xuxa, a madrinha loura que mostrou, para os roqueirinhos de butique da Cidade/89, a "liberdade juvenil", enquanto a verdadeira liberdade tinha sido mostrada anos antes para os roqueiros autênticos através da literatura beat de Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs.

E mal sabiam esses "rebeldes" que sua madrinha faz aniversário no mesmo dia de Renato, que havia nascido três anos antes dela. Renato hoje teria 51 anos, se ainda vivesse entre nós. E só tardiamente, no revival tosco dos anos 80, é que tais "roqueirinhos", assim como sua banda-símbolo, "homenageariam" a Legião Urbana depois de tanto desprezo em cara feia.

Essa geração de roqueirinhos forçados na pose e na irritabilidade - que eles confundem com rebeldia, que nem sempre tem pavio curto (o mestre Mahatma Gandhi que o diga) - havia sido profeticamente anunciada por Renato em "A Dança", embora, a princípio, a letra desta música tenha se dirigido aos playboys do bairro da Colina, onde muitos funcionários públicos e diplomatas, pais dos roqueiros brasileiros, moravam.

Pois um trecho do refrão de "A Dança" é contundente: "Você é tão esperto / Se acha tão moderno / Mas é igual a seus pais / É só questão de idade / Passando dessa fase / Tanto fez, tanto faz".

Muitos dos homens que integram a direita política e midiática brasileiras, na juventude, usavam a capa da juventude para se dizer "rebeldes". Também foram "rebeldes" os jovens que atearam fogo na sede da União Nacional dos Estudantes, em 1964, no momento imediato do golpe militar. Os reacionários falam muito palavrão, dirigem desaforos, se comportam com ironias.

Renato também criticava a televisão, a impunidade, as injustiças sociais. Sua poesia era "mais crua" nos tempos punk e na primeira fase da Legião Urbana, até 1987. A princípio, nem os fãs compreendiam a guinada da banda em As Quatro Estações, de 1989, mas o tempo mostrou que a poesia de Renato tornou-se mais complexa - como Bob Dylan em dado momento da carreira - e mais madura, além da sofisticação melódica do grupo que ecoava até Byrds e Ride.

Renato Russo, por isso, foi adotado pela MPB. "Andréa Dória" poderia ser gravada sem problemas por Chico Buarque. E Renato compôs até com Marisa Monte. Isso porque Renato nunca foi um coitadinho em busca de reconhecimento cultural, mas um artista que sabia bem do seu valor. E gravou discos italianos por escolha própria e por seu próprio contexto de descendente de italianos.

Nem todos conseguem compreender Renato Russo. E ele não está aqui para se explicar há 15 anos. Mas sua obra, seus depoimentos e sua trajetória permanecem como exemplo de um grande artista que não é fácil encontrar hoje em dia.

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