terça-feira, 20 de setembro de 2011

REABILITAÇÃO DE WILSON SIMONAL NÃO REFLETE NO FILHO E HERDEIRO ARTÍSTICO


WILSON SIMONAL (E) E SEU FILHO, WILSON SIMONINHA - Filho foi testemunha da fase áurea do pai, mas não é beneficiado com a revalorização do falecido cantor.

É bastante merecida a reabilitação do cantor e compositor Wilson Simonal, que desfez vários equívocos relacionados à sua imagem. Desfez, sobretudo, um boato plantado por ex-seguranças, que haviam discutido com o cantor, de que ele teria sequestrado um antigo sócio e denunciado vários artistas de esquerda para o regime militar.

Simonal não era de esquerda nem de direita. Não era ingênuo, mas seu sucesso repentino pegou ele de surpresa, para o bem e para o mal, num tempo em que a repressão militar tornou-se intensa em razão do AI-5. Simonal foi tão vítima quanto Geraldo Vandré, cantor de protesto da música "Caminhando (Pra Não Dizer que Não Falei de Flores)", que aliás foi o último amigo que visitou o grande artista negro, num de seus últimos momentos de vida, em 2000, pouco antes de falecer, de complicações causadas pelo álcool.

Simonal era um artista ímpar, com um grande domínio de palco, muita informação musical e capaz de juntar soul music e samba sem soar forçado ou caricato, até porque Simonal tanto assimilava bem as informações musicais do ritmo estadunidense quanto entendia, de fato, de samba e de Bossa Nova.

O que se teme, com toda a reabilitação artística que alguém recebe, sobretudo de um artista que já morreu, é que ela pode ser distorcida ao sabor do oportunismo.

Raul Seixas, por exemplo, foi vítima desse oportunismo, com sua imagem de roqueiro de senso crítico afiado sendo diluída para a de um lunático místico e pateta, graças à interpretação equivocada da música "Maluco Beleza", que fala menos de loucura do que de excentricidade. E foi preciso que a viúva Kika Seixas movesse um processo judicial para evitar que se realizasse um "tributo" de axé-music do repertório do roqueiro, que assumidamente odiava o ritmo baiano.

O maior temor que se tem, com a reabilitação de Wilson Simonal, é que ela seja usada para o oportunismo pedante de ídolos esquecidos do "pagode romântico" ou mesmo de medalhões do mesmo estilo neo-brega.

Nomes supostamente injustiçados como Grupo Molejo e Leandro Lehart tentam uma carona na imagem recuperada de Simonal, enquanto os astros Alexandre Pires e Thiaguinho, este ex-Exaltasamba, ambos figurinhas fáceis na revista Caras e na Rede Globo, foram tendenciosamente jogados para um tributo ao falecido cantor, por ordens da gravadora, a multinacional EMI, que detinha o passe dos dois.

Aí, da "pilantragem" que Simonal, meio que de brincadeira, definia seu estilo, se passa para a picaretagem de grupos e cantores que mal conseguem fazer samba, fazendo ora uma diluição "sambista" de Julio Iglesias com Lionel Richie, ora uma imitação caricata do samba de Jorge Ben Jor, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e o que vier em evidência.

Pior ainda é comparar a reabilitação da imagem de Wilson Simonal com a de Waldick Soriano, rebaixando a imagem do primeiro e exaltando a do segundo, que, além de conservador, era musicalmente medíocre.

Primeiro, porque Simonal não era medíocre, e musicalmente passava longe da cafonice que as rádios latifundiárias e os barões do entretenimento empurravam para as classes populares naqueles anos de chumbo do regime militar.

Segundo, porque a própria "reabilitação" de Waldick já vem distorcida pela direita cultural enrustida, representada sobretudo pela pessoa do sr. Paulo César Araújo, que tentou promover o ídolo brega como se fosse um "cantor de protesto", coisa que ele nunca foi.

Além disso, aquele que seria o maior beneficiado pela reabilitação da imagem de Wilson Simonal, o filho Wilson Simoninha - que literalmente atualiza o estilo musical que herdou do próprio pai - , simplesmente é completamente ignorado pelos mesmos que agora bajulam o cantor de "Tributo a Martin Luther King".

Ou seja, Wilson Simonal é bom para recolocar nas paradas de sucesso aqueles grupos e cantores do "pagode mauriçola" de 1990-1992, vários deles agora se passando por "coitadinhos". Mas, para promover a popularidade do próprio filho, que era um menino pequeno quando seu pai vivia seus áureos tempos de sucesso, a reabilitação de Simonal não serve?

Pouco se fala de Wilson Simoninha, que faz sua batalha pelo reconhecimento artístico sem se passar por "coitadinho", até porque existe uma diferença muito grande entre artistas que enfrentam dramas e dificuldades e ídolos que usam o sofrimento como marketing e se preocupam mais com as críticas negativas que recebeu do que com a popularidade que, ainda que artificial e tendenciosamente, obtiveram.

Daí a grande incoerência de revalorizar Wilson Simonal, mas ignorar completamente seu filho, que não somente assume o DNA musical do pai, como é seu principal intérprete, já que Simonal não se encontra mais entre nós.

Ou seja, nada como Wilson Simoninha para, sozinho ou com seu irmão Max de Castro (que no entanto difere em estilo do pai, e nasceu quando o pai já sofria seu inferno astral), cantarem músicas do pai para os fãs relembrarem do tempo em que um artista negro chegava a se equiparar, em popularidade, com Roberto Carlos.

Pelo jeito, se as bocas de uns estão cheias de formiga, suas mentes devem estar cheias de cupins.

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