segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"RÁDIOS AM" EM FM ESTARIAM USANDO SINTONIAS COLETIVAS PARA DISFARÇAR BAIXA AUDIÊNCIA


ATÉ LOJAS DE MATERIAL DE CONSTRUÇÃO ADERIRAM AO JABACULÊ NÃO-MUSICAL DAS ATUAIS EMISSORAS FM.

A cada dia mostra-se que a associação exclusivista do jabaculê radiofônico à programação musical é uma tese bastante superada e antiquada.

A prática de jabaculê, a chamada corrupção radiofônica, pelo contrário, cada vez mais mostra-se maior quando o rádio FM não investe em programação musical.

Só as jornadas esportivas, por exemplo, já possuem um esquema jabazeiro mil vezes maior, fazendo o antigo jabaculê musical parecer brincadeira de criança.

O rádio FM passa por um desgaste até bem mais acelerado do que o rádio AM, e sua crise apenas é omitida ou desmentida por radiófilos pelegos, ou mesmo por certos colunistas que se atrelam aos interesses empresariais.

A ganância empresarial e a concentração de grupos de poder midiático teria sido responsável pela extinção do rádio AM em outros países e pela decadência forçada que faz o rádio AM atual ser refém da Frequência Modulada. E, como numa operação de sequestro, se as "rádios AM" em FM se derem mal em audiência, é a Amplitude Modulada que é sacrificada. Vide o caso da CBN de Brasília, pouco mais de dez anos atrás.

Mas a crise que há um tempo acontece no rádio AM - com os empresários radiofônicos simplesmente recusando sua ampliação, pois em outros Estados o espaço de sintonia parou em até menos de dez emissoras - repete-se de forma muito mais acelerada nas FMs.

A cada dia a "programação AM" transmitida em FM perde milhares de ouvintes a cada ano. A adesão de uma nova emissora não consegue refletir em aumento de audiência, mas na pulverização da audiência já existente, pois, se havia duas FMs do porte com, por exemplo, 4200 ouvintes numa grande cidade, havendo quatro FMs haverá os mesmos 4200 que, em parte, serão redistribuídos nas novas emissoras.

Para disfarçar a baixíssima audiência, em queda livre e acelerada, as rádios FM hoje partem para o que os bastidores radiofônicos chamam de "audiência de aluguel".

São ambientes de frequência coletiva, que variam das portarias de prédios até lojas de varejo, passando por táxis, botequins ou mesmo lojas de material de construção, que por conta de algum "benefício", são aconselhados por produtores de FM para sintonizar as emissoras sobretudo em horários estratégicos, como certos programas noticiosos ou de variedades, mas principalmente durante transmissões de partidas esportivas.

JABÁ COM DENDÊ - Em Salvador, há muito essa prática de jabaculê é feita. Há casos de produtores de rádio FM prometendo pagar até as contas de luz e água e o fornecimento de bebidas de um botequim que sintonizar, em altíssimos volumes, a emissora em questão durante as transmissões de futebol.

Mas geralmente a coisa funciona da seguinte forma: produtores procuram estabelecimentos comerciais ou sindicatos e, mediante algum "favor", aconselham seus profissionais a sintonizarem as emissoras diante de multidões que utilizam de seus serviços.

Dessa maneira, os sindicatos de taxistas, por exemplo, são "aconselhados" a indicar uma parcela de profissionais que sintonizará uma emissora FM "Aemizada" em dado horário (sobretudo durante partidas de futebol transmitidas pela mesma), seja mediante pagamento em dinheiro, seja mediante outras transações.

A manobra é feita para que, através de ambientes de frequência coletiva, as rádios deem falsa impressão de que possuem grande audiência. Calcula-se, por exemplo, a média de fregueses do taxista, dono de botequim, restaurante, vendedor de materiais de construção etc e, através desse número usa-se a chamada "tática do fumante": "o que eu sintonizo quem está do meu lado é ouvinte".

Assim, sintonias individuais são "anabolizadas" pela audiência involuntária de pessoas que apenas estão no lugar onde a rádio é sintonizada. E, no caso dos porteiros de prédios, o cálculo é inflado pelo número de moradores.

Daí que uma rádio que normalmente nunca passa de 3500 a 4300 em cidades com vários milhões de habitantes passa a ter uma "audiência" até 20 vezes maior do que a real. Pouco importando se 80 ou 90% dos "ouvintes" apenas "ouve" a emissora porque se encontra no lugar onde esta é sintonizada.

Na capital baiana, a Salvador FM chegou a premiar um sindicato de taxistas - na época controlado por um pelego - com um programa matinal como prêmio pela sintonia da programação Aemizada da emissora do ruralista Marcos Medrado.

Não obstante, a sintonia arranjada também ganha verniz de "contratos publicitários". A Rádio Metrópole FM - do "Sílvio Berlusconi" baiano Mário Kertèsz - chegou a negociar com as Lojas Americanas do Shopping Iguatemi para sintonizar as transmissões esportivas na seção de CDs (?!) da loja. Já a Rádio Transamérica de Salvador preferiu usar uma papelaria do Salvador Shopping para fazer o mesmo.

O verniz publicitário envolve procedimentos legais como abatimento de custos de veiculação de comerciais na rádio. A loja que sintonizar a rádio recebe desconto na veiculação de seus anúncios na emissora. Mas a prática tem seu sentido de jabaculê na medida em que tenta forçar a todo custo a audiência de uma rádio, muitas vezes irritando os fregueses.

Aliás, constantemente, estimula-se até mesmo a poluição sonora durante as transmissões esportivas. Neste caso a própria imprensa escrita se atrela ao esquema, restringindo o sentido de "poluição sonora" a rodas de pagode ou cultos religiosos.

No entanto, sabemos que as vozes rápidas e gritadas de locutores esportivos, em alto volume, irritam tanto os ouvidos dos cidadãos quanto o som do voo de marimbondos. Sobretudo quando partidas chegam a iniciar a partir de 22 horas em dias de semana, quando o solitário ouvinte da FM não sossega sequer meia-hora depois do fim de jogo, incomodando os vizinhos que precisam acordar muito cedo para irem à escola ou ao trabalho.

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