terça-feira, 17 de maio de 2011

BREGA COMEÇA A DECAIR NAS REGIÕES DE ORIGEM


FORRÓ ESTOURADO - Grupo que usou uma música do Nirvana para fazer versão em forró-brega, costume muito comum no gênero que causa indignação entre os nordestinos.

Depois de mais de 45 anos tentando derrubar as raízes regionais da música nordestina, os ritmos da Música de Cabresto Brasileira, como o forró-brega e a axé-music, e seus respectivos derivados, como o tecnobrega e o paromba, do primeiro, e o arrocha e o "pagodão", do segundo, começam a sofrer decadência e causar indignação entre o público nordestino.

Desta vez a reação não pode mais ser creditada como "preconceito", "moralismo elitista" ou "saudosismo", já que é um processo a cada dia crescente e envolvendo não só intelectuais, mas mesmo populares que sentem falta das velhas raízes culturais nordestinas, e se sente incomodada com a hegemonia absoluta desses ritmos nas rádios.

Além disso, esses ritmos criaram uma indústria empresarial que está longe de representar "pequenas mídias". As agências de talentos, como a A3 Entretenimento, que domina o forró-brega no Nordeste, é uma das maiores empresas da região. Da mesma forma, a rede de rádios Som Zoom Sat, também dedicada ao gênero, já é um paradigma do poder da grande mídia regional.

A maior parte das emissoras de rádio que investem em forró-brega, axé-music e derivados é controlada por oligarquias regionais ou políticos locais, o que mostra o tom do tendenciosismo midiático que está por trás desses ritmos associados supostamente à "cultura das ruas".

Esse poder midiático, que não pode mais ser desmentido por monografias tendenciosas. A última delas, que resultou num livro sobre o tecnobrega, repercutiu tão mal que o próprio livro do tecnobrega já começa a ser jogado em sebos de livros, depois de tantos leitores se sentirem lesados com a falácia sobre o ritmo paraense.

Essa falácia sobre o tecnobrega tentou defini-lo como um ritmo que atuava "longe da grande mídia". A informação foi logo desmentida com a divulgação de que o ritmo recebeu apoio imediato do jornal O Liberal, logo nos seus primeiros momentos de sucesso.

O Liberal é propriedade das Organizações Maiorana, do empresário Rômulo Maiorana, patriarca de uma das poderosas oligarquias do Pará. As Organizações Maiorana, através da TV Liberal, representa a Rede Globo no Estado. Além disso, o tecnobrega - rebatizado de tecnomelody - é um dos ritmos mais tocados pela rádio Liberal FM, de perfil brega-popularesco.

Mas é no Ceará que a indignação se torna extrema. A hegemonia absoluta do forró-brega já foi comparada com o inferno pelo jornalista Dihelson Mendonça. O mercado torna-se tão voraz que mesmo outras tendências do brega-popularesco, como o breganejo, têm dificuldades de penetração. A MPB, então, sofre discriminação maior.

PAPEL DE RIDÍCULO - Ídolos como Carreta Furacão, Leva Nóiz, Saia Rodada, Forró Estourado, Viviane Batidão, Mike do Mosqueiro, Forró dos Plays, Stefany Absoluta, Layrton dos Teclados e Silvano Sales mostram o quanto a suposta "cultura popular" representada por esses ritmos é caricata, apátrida e estereotipada.

É o forró-brega que, mesmo "autoral", se baseia numa mistura fajuta de country music, disco music e ritmos caribenhos. Isso quando não faz regravação de sucessos estrangeiros, coisa que ocorre com frequência. É a axé-music que fala numa relação sexual entre o Super Homem e a Mulher Maravilha, ou então o "pagodão" que mostra integrantes fantasiados de personagens de histórias em quadrinhos. Entre outras coisas que se vê como altamente risíveis, mas que nós somos praticamente proibidos de achar ridículos, porque oficialmente tudo isso é "o grito de dor da periferia".

Enquanto isso, empresas poderosíssimas estão por trás dessa "cultura da periferia", com a maioria dos cantores, conjuntos e duplas sendo explorada num regime de trabalho fordista, além de muitas das músicas que eles gravam, não obstante, serem negociadas em escritórios, que decidem qual é a onda do momento e qual o discurso a ser trabalhado pela mídia dos grandes centros do país. A A3 Entretenimento é um exemplo que nenhum cientista social pode mais ignorar.

NEM É O TCHAN EMPLACA MAIS - A decadência da música brega-popularesca começa a atingir todas as suas tendências. A campanha intelectual ainda faz barulho, mas começam a repercutir mal as alegações que cientistas sociais tanto fizeram nos últimos dez anos para defender seus ídolos como se fossem "o novo folclore brasileiro".

Um dos símbolos da "cultura popular" da Era FHC - ou seja, o modelo de "cultura popular" defendido pelos intelectuais influenciados por um modelo de país ditado pela tecnocracia da USP (Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Sérgio Paulo Rouanet) - , grupo de "pagodão baiano" É O Tchan, não consegue emplacar na sua nova fase, que aproveita os cantores originais mas contém seis novas dançarinas.

Afinal, o espetáculo do grotesco representado pelo grupo baiano havia repercutido mal entre a intelectualidade nos anos de 1999 a 2001. Foi a partir de seus efeitos que a intelectualidade tecnocrática da USP teve que conceber uma "nova abordagem" da cultura popular que resultou nas campanhas de Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Mônica Neves Leme, Rodrigo Faour, Ronaldo Lemos, Oona Castro, Pedro Alexandre Sanches, Eugênio Arantes Raggi, Milton Moura e outros, que, em várias regiões do país, seguiram a orientação uspiana que representou a última herança do legado ideológico do PSDB, que é a defesa da "cultura" brega-popularesca.

Mas a campanha, no caso do grupo É O Tchan, não conseguiu dar certo. O livro de Mônica Neves Leme sobre o grupo - uma "monografia" que defendia o conjunto baiano como se fosse uma modernização do lundu (?) - , simplesmente caiu no esquecimento. Hermano Vianna, acomodado na Rede Globo, também tentou salvar o grupo e não conseguiu. Tudo isso se deve pela vulgaridade explícita do grupo, por sua falsa sofisticação estética, pelo seu auto grau de pretensiosismo.

INTERNET - A Internet faz com que o público, aos poucos, comece a tomar conhecimento de que, antes do joio se passar pelo trigo, há o trigo verdadeiro.

Com isso, as gerações mais recentes começam a conhecer nomes como Maysa e Wilson Simonal, os artistas da Bossa Nova, o baião de Luiz Gonzaga, os sambas antigos dos anos 40, o funk autêntico de Gerson King Kombo, Cassiano e Tim Maia no seu "lado B".

Toda essa gama de informação faz diferença diante da indigência radiofônica-televisiva dos enganadores musicais, que acham que evolução artística é mascarar sua breguice pseudo-sambista, pseudo-caipira e pseudo-afrobaiana com covers de sucessos da MPB em discos ao vivo lançados um atrás do outro.

Isso causa tédio e desinteresse para um público que começa a se tornar mais exigente, cansado do mais-do-mesmo dos medalhões popularescos. Afinal, pouco importa se o pagodeiro-brega e o sertanejo-brega vestem roupas melhores, estão mais superproduzidos ou tornaram-se profissionalmente corretos. Até porque esses "artistas", quando muito, mais parecem crooners de churrascaria, por mais que tentem se vender como "cantores sérios".

O público quer ouvir música, quer saber quem são realmente os novos criadores de nossa música. Quer arte de verdade, valores culturais renovados, quer honestidade, integridade, competência.

Por isso, a mediocridade cultural dominante ainda detém o poder (que existe, ainda que enrustido), mas a cada dia surge mais pessoas que se recusam a legitimar esse poder. E o Norte-Nordeste que viu Waldick Soriano fazer sua "transamazônica" musical, iniciando o caminho de devastação da cultura popular, agora começa a reagir contra os "tataranetos" musicais do cantor de "Eu Não Sou Cachorro, Não".

Um comentário:

Clarissa Macau. disse...

Olá Alexandre Figueredo, meu nome é Clarissa sou estudante de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e queria bater um papo sobre brega contigo, na verdade uma pequena entrevista. é muito raro ver alguém como você, com essa posição sobre o brega hoje em dia. Então achei interessante para ter mais uma voz em uma matéria que estou desenvolvendo onde indago se o brega é reflexo da sociedade realmente, e se é um alerta ou não, se é de fato uma cultura benéfica, se seus ouvintes são vítimas ou não entre coisas afins. Essa conversa poderia ser através de e-mail mesmo, se você me concedesse seu endereço. hum o meu é e__macau@hotmail.com , espero respostas ansiosamente ! você também é o escritor de "Mídia glamouriza a cafonice" postado em 2006 no observatório de Imprensa ?