quinta-feira, 7 de abril de 2011

QUE CIDADANIA É ESTA?



Triste país que se acomoda numa crise de valores camuflada pelo pretexto de uma "liberdade" que favorece poucos em detrimento das limitações de muitos. Uma crise de valores que pressiona uns e favorece demais outros. Um país desigual, que pensa que é pela gororoba popularesca do entretenimento que chegará a cidadania com igualdade para todos.

Pois diante do marasmo sócio-cultural em que vivemos, sem qualquer trabalho preventivo de psicólogos nem a atenção de colegas, um ex-aluno de uma escola, a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, cometeu uma chacina que gerou 13 vítimas, entre elas o próprio atirador, Wellington de Oliveira, de 24 anos, que depois de baleado na perna por um policial, atirou contra a própria cabeça.

Vejo o quanto existe de demagogia quando empresários e dirigentes de "funk carioca" vão em massa para a Assembléia Legislativa dizer que "defendem a cidadania", quando aquele teatro todo de pseudo-engajamento só serviu para encher os bolsos deles. Quase dez anos de discurseria sobre "cidadania", "engajamento popular" e "atenção às favelas" (ou aos subúrbios em geral) e nenhuma melhoria concreta se deu para a população.

E ainda dizem, cinicamente, para os outros "melhorarem a educação" para que o "funk melhore". Então tá, mas os empresários-DJs, com todo o rio de dinheiro que possuem, nunca investiram em projetos de melhorias sociais. Depois dizem que não têm essa obrigação, mas a própria postura "engajada" que eles alardeiam requereria, em tese, tais responsabilidades.

A dupla Eduardo Paes - Sérgio Cabral também caiu em mais um malogro, e vários transtornos e tragédias ocorrem que põem em xeque a reputação da dupla, desejosa em se ostentar para autoridades esportivas em 2014 e 2016.

Paes então só pensa em repintar - desnecessariamente e quando não devia - os ônibus do Rio, mas seis meses após "expulsar" os traficantes do Complexo do Alemão, vê uma dessas quadrilhas instalar-se numa obra do PAC em Manguinhos. Ou seja, que prioridades sociais são essas? Falar é fácil.

Quanto a Wellington, não houve um acompanhamento para ao menos diminuir o sentimento de rancor dele. Mais uma vez, vidas foram sacrificadas pelo descaso público. A escola Tasso da Silveira era até considerada um bom colégio, o local onde ficava era relativamente seguro e raramente acontecia alguma violência. Mas o que ocorreu hoje de manhã foi demais, e repercutiu até nos noticiários internacionais.

Portanto, o fato é para pensar com cautela. Chega de sentimentalismo. Independente da opção religiosa do rapaz, teria sido necessário que algum trabalho preventivo, algum acompanhamento social e psicológico, acontecesse.

Mas também seria necessário que a mídia tida como "popular" não veiculasse tanta violência, tanto sensacionalismo barato, tanto banditismo "valentão", tanta revolta, e não subestimasse a inteligência do povo pobre.

A imprensa jagunça, as revistas fofoqueiras, as FMs bregas, tudo isso faz do povo pobre uma multidão domesticada e idiotizada, não por culpa dela, mas pelas limitações do povo pobre, diante das pressões do poder político e econômico, de pressionar contra seu domínio.

A própria mídia "popular" - no fundo, aliada da mídia golpista - impõe valores confusos, contraditórios, numa avalanche informativa que pressiona os indivíduos, o que faz com que, em certos casos, gere jovens agressivos e, eventualmente, casos extremos como o de Wellington de Oliveira.

Está na hora de buscarmos, em vez de libertinagem, dignidade. Cidadania não se faz com glúteos nem palavrões, se faz com respeito e bem-estar para os indivíduos.

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