quarta-feira, 6 de abril de 2011

NEM TUDO SÃO FLORES NA CARREIRA DE DIOGO NOGUEIRA



COMENTÁRIO DESTE BLOG: O maior problema de muitos artistas de MPB autêntica é uma certa condescendência com a mediocridade cultural dominante, que não pode ser confundida com a música que durante anos as classes pobres produziram com maestria. Até porque essa "música popular" de hoje é regida pelo "deus mercado". Isso é um ponto negativo que envolve até mesmo artistas de inegável talento e potencial, seja na MPB, seja no Rock Brasil.

Não se sabe se é por esperteza ou por boa-fé, mas Diogo Nogueira, ainda que seja um sambista de talento indiscutível, peca pelas concessões que faz ao sambrega, acreditando que a visibilidade que grupos como Revelação e Exaltasamba, que participaram do primeiro disco do cantor, e Alexandre Pires, autor de "Vestibular da Solidão", além de "Deus é Mais" do próprio Revelação, presentes no disco mais recente, um CD/DVD ao vivo, resenhado pelo jornalista Mauro Ferreira.

É um caminho muito perigoso para Diogo Nogueira, sobretudo numa época em que a MPB autêntica é criticada através do "milionário" blog de Maria Bethania, do establishment caetânico e da postura "mão fechada" da ministra da Cultura Ana de Hollanda, ela também uma cantora de MPB.

Mal comparando, Diogo Nogueira gravar Alexandre Pires é como se, no âmbito da análise política, o Viomundo de Luiz Carlos Azenha passasse a publicar artigos de Reinaldo Azevedo.

Para quem não sabe, Alexandre Pires, além de ser um dos artístas-símbolo da Era Collor e da Era FHC, cantou para George W. Bush e foi apadrinhado por um casal de cubanos direitistas, na sua tentativa de fazer carreira no exterior. E, musicalmente, Alexandre Pires mais parece um estereótipo de "sambista" que teria agradado muito o presidente Franklin Roosevelt, da "política da boa vizinhança".

Samba de Diogo já oscila entre a 'raiz' e o brega

Por Mauro Ferreira - Blog do Mauro Ferreira

Nem as presenças sempre ilustres de Chico Buarque e Ivan Lins na gravação ao vivo do segundo DVD de Diogo Nogueira, Sou Eu, atenuaram a sensação incômoda de que o samba do filho de João Nogueira (1941 - 2000) já cai eventualmente no brega.

Atrelado à figura respeitada do pai em sua estreia fonográfica, Diogo alçou voo próprio na indústria do disco - beneficiado por sua beleza, é fato - só que esse voo tem sido musicalmente rasteiro.

O nome de Alexandre Pires na autoria de Vestibular pra Solidão - uma das quatro inéditas inseridas no roteiro do reformulado show de 2009, originalmente intitulado Tô Fazendo a Minha Parte - reitera a intenção da gravadora EMI Music de jogar Diogo na vala comum dos artistas populistas.

Plano reforçado pela adequada participação de Alcione em sambrega, Amor Imperfeito (Leandro Fregonesi e Ciraninho), que tem toda pinta de hit radiofônico. É sintomática também a inclusão de Deixa Eu te Amar. Ao revisitar o sucesso de Agepê (1942 - 1995), já regravado por ele na série Samba Social Clube, Diogo explicita sensualidade que mexe com a libido do público feminino, alvo preferencial de seus discos e shows.

Em esfera mais romântica, o terno dueto com Ivan Lins na canção Lembra de mim (Ivan Lins e Vítor Martins, 1995) se pauta pela elegância e expõe a evolução de Diogo como cantor. Já o surpreendente encontro de Ivan com o recente parceiro Chico Buarque - para interpretar Sou Eu, o samba que deram a Diogo em 2009 - rendeu bem menos do que o esperado.

Em parte pelo tom protocolar da participação de Chico, iniciada no número anterior, Homenagem ao Malandro. Em parte pelo som baixo do microfone do compositor - o que impediu que o público ouvisse a voz de Chico.

E o fato é que Chico, Diogo e Ivan gravaram Sou Eu em um único take sem explorar as possibilidades da interpretação em trio - e a letra, na qual um homem conta vantagem na arte de seduzir mulher disputada, permitia que os cantores brincassem em cena. Sou Eu, o samba, contou com a intervenção de Hamilton de Holanda, cujo bandolim magistral adornou Lama das Ruas (Almir Guineto e Zeca Pagodinho).

Do naipe de inéditas, Contando Estrelas (Ciraninho e Rafael dos Santos) chamou mais atenção pelo recorte melodioso e pela cadência abaianada. Já A Vitória Demora mas Vem (do trio Juninho Thybau, Luiz Caffé e Baiaco) e Jangadeiro (de Diogo Nogueira, Ignácio Rios e Rafael Richaid) deixaram a impressão de serem sambas de inspiração mediana - como, de resto, quase todo o repertório de Diogo.

No fim, um pot-pourri com três incendiários sambas-enredos - Contos de Areia (Portela, 1984), Aquarela Brasileira (Império Serrano, 1964) e É Hoje (União da Ilha do Governador, 1982) - garante a animação, reativada no bis quando, após reviver o pai com Além do Espelho (João Nogueira e Paulo César Pinheiro), Diogo Nogueira traz o hit forrozeiro Pedras que Cantam (Dominguinhos e Fausto Nilo) para clima de samba que já oscila perigosamente entre a raiz e o brega.

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