quarta-feira, 9 de março de 2011

TRANSAMÉRICA E MEIA HORA SP SE ENCERRAM



As transformações vividas pela sociedade no Brasil mostram que nem sempre a mídia badalada se mantém de pé. A grande mídia também sofre baixas dolorosas, bem mais do que o fim da versão impressa do Jornal do Brasil.

Pois as notícias mais recentes são a saída de circulação da edição paulistana do jornal popularesco Meia Hora, além do fim anunciado da Rede Transamérica de Rádio, um dos símbolos do radialismo pop juvenil dos anos 80.

Ainda que os dois veículos tenham seus "viúvos", gente chorando o fim do jornal e a morte anunciada da rede de FMs, há que se convir que o fim de um e de outro foram merecidos.

Em primeiro lugar, por conta do noticiário grotesco do periódico Meia Hora, do grupo Ejesa (que edita O Dia, no Rio de Janeiro), que só não era sensacionalista pela imaginação fértil dos editores da revista Piauí (espécie de Caros Amigos de direita).

Equivocadamente comparada à Última Hora, pela estética visual, e ao Pasquim, pelo uso do humor, a imprensa policialesca, que tem no Meia Hora um de seus veículos contemporâneos - mas não vamos esquecer que as Organizações Globo disputam no páreo carioca o jornal Expresso e a Folha de São Paulo já teve o Notícias Populares - , não pode fazer jus a essa comparação, bastante superficial.

A comparação é impossível porque a imprensa policialesca não tem a inteligência e a consciência política de Última Hora nem a inteligência e a sua (lá dela) consciência política de Pasquim.

Quem compara Meia Hora ao Pasquim esquece que o periódico de Jaguar, Millôr, Henfil, Ziraldo, Sérgio Augusto e outros não era só piada, havia boas entrevistas, bons ensaios jornalísticos, e muita, muita inteligência. Para quem é mais jovem, o Pasquim é algo como uma fusão do blog Conversa Afiada com Kibe Loco, Blog do Miro, Cloaca News e Blog do Emir Sader.

Também é muita covardia comparar a saudosa Leila Diniz com as "popozudas" que aparecem nas páginas de Meia Hora.

Por isso, em que pese a continuidade do mercado de imprensa policialesca, que só os politicamente "incorretos" (o politicamente incorreto é o politicamente correto de porre, duas faces de uma mesma moeda) acham "positiva", o fim do Meia Hora SP é um balde de água fria para quem acha que imprensa popular tem que apostar no mau gosto, no grosseiro e no brutalmente vulgar.

Em segundo lugar, a Rede Transamérica já morreu há um bom tempo. Só faltava ir ao necrotério. Originalmente surgida como emissora de pop adulta (na contramão da Antena Um, que surgiu como rádio jovem e virou pop adulta depois), a Transamérica virou o principal paradigma de rádio pop, nos anos 80, juntamente com a Rádio Cidade (e, em São Paulo, com a Jovem Pan 2).

Nos anos 90, a Transamérica passou a sofrer de uma espécie de Alzheimer existencial. Virou uma "rádio rock" burra, que durou pouco menos de dois anos, aproveitando mal a consultoria de Leopoldo Rey (equivocadamente tido como "coordenador" da Transamérica; saído da 97 FM, ele só fez consultoria para a rádio).

Depois, tornou-se uma rádio pedante e pretensamente eclética. Tentou jogar para todos os lados, tocando de Belle And Sebastian a Enrique Iglesias. Tocava até brega-popularesco. Mas o que matou a emissora foi sua obsessão de ser um "Aemão", com um noticiário frouxo, que mal conseguia dialogar com o público jovem, e uma jornada esportiva confusa, que misturava som de rádio AM velha com a linguagem da Rede TV!, onde também trabalha o locutor esportivo Eder Luís, aproveitado pela rede radiofônica.

Com a Rede Transamérica se distanciando dos ouvintes, sem saber que público queria atingir, ficando mais próxima dos dirigentes esportivos - é notória a associação do dono da rádio, Aloísio Faria, com os "cartolas" da CBF, envolvendo jabaculê pesado e tudo - , a audiência tinha que acabar em todo o país.

Dividida entre os DJs e os dirigentes esportivos, a Transamérica, em que pesem haver seus fanáticos adeptos, dá seus últimos suspiros agora, quando foi anunciada a venda para a Igreja Universal do Reino de Deus, que implantará a Record News, cujo astro principal será o "Gilberto Kassab do radiojornalismo", Heródoto Barbeiro.

Será mais um "Aemão de FM" numa época em que o rádio FM, na irônica obsessão em ser "o novo rádio AM", experimenta com mais rapidez e gravidade a decadência que abate a Amplitude Modulada.

Não é preciso lembrar da violenta surra que as FMs que transmitem futebol, por exemplo, leva da TV aberta, da TV paga e da Internet, dando uma média, para as FMs com programação tipo rádio AM, de um ouvinte para cada cinco quarteirões.

E nem é preciso lembrar que a Band News Fluminense, a afiliada da Band News que ocupa o espaço da antiga "Maldita", tem exatamente a mesma média sofrível de audiência que a Fluminense FM teve entre 1991 e 1994 e que derrubou a programação da emissora então.

Portanto, no rádio FM cada vez mais velho e desgastado, regressando à sua pré-história como uma múmia de filme de terror de volta à sua tumba, quando a Frequência Modulada não passava de mera repetição da linguagem de AM, a Record News só será mais uma a virar fogo de palha nos corporativistas fóruns sobre rádio na Internet. Só terá como diferencial jogar a pá de cal na já moribunda Transamérica.

Quanto à imprensa policialesca, o fim do Meia Hora SP - que no RJ se reflete na decadência do mesmo periódico - sinaliza que o setor também se desgasta, com o agravante de que uma classe média insensível ao povo pobre aplaude essa imprensa que explicitamente ridiculariza as classes populares e induz estas a se apegar em valores sócio-culturais e morais mais baixos.

Portanto, Meia Hora SP e Rede Transamérica não farão falta. E já vão tarde.

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