terça-feira, 29 de março de 2011

BOTA PROPRIEDADE CRUZADA NISSO!



Tudo muito lindo, tudo muito maravilhoso. Famosos fazendo propaganda da Rádio Globo como se ela fosse uma entidade filantrópica. Cantores interpretando o jingle da rádio - talvez numa gozação aos ouvintes de FM - , enquanto o crédito do vídeo mostra as duas frequências da emissora carioca, em AM e FM, acrescidas da expressão "a mesma programação".

É muita cara-de-pau. Duas rádios com a mesma programação e tudo isso tratado como se fosse coisa positiva. Enquanto isso, aspectos como superfaturamento de empréstimos, irregularidades trabalhistas, interesses políticos, manobras burocráticas, estão por trás dessa armação da dupla transmissão AM/FM, batizada com o eufemista sinal de "mais", como "rádios AM + FM".

Quem acompanha as discussões em torno dos meios de comunicação deve conhecer a luta que pessoas como Venício Artur de Lima e Fábio Konder Comparato fazem contra a propriedade cruzada dos meios de comunicação, processo no qual a dupla transmissão AM/FM é apenas um pequeno mas ilustrativo detalhe.

Propriedade cruzada é o processo de concentração dos meios de comunicação. É quando um poderoso grupo de mídia aumenta abusivamente seu patrimônio midiático, como forma de aumentar sua penetração e sua influência em determinada região, podendo ser uma simples região metropolitana ou um país, dependendo do caso.

A concentração de poder então se manifesta pela manipulação da opinião pública, pela imposição de uma visão dominante, ou até mesmo pela concentração de renda, daí as manobras de "economias de custos" como a dupla transmissão AM/FM, as reprises constantes de programas numa grade de "24 horas", as contratações de jornalistas em funções subalternas etc.

Enfim, são abusos, abusos e abusos. Tudo isso a pretexto de uma "moderna" corporação de mídia - como se autoproclama o grupo de comunicação dominante - querer aumentar seu poder. Ou criar pseudo-novidades, como a descarada retransmissão da Rádio Globo AM nos 89,3 da FM carioca (onde, em outros tempos, transmitia a Nova Brasil FM, rádio de MPB - ironicamente, a Rádio Globo prioriza o popularesco, no cardápio musical tocado pela metade).

Mas, mesmo na chamada "mídia boazinha", a coisa não é diferente. Outro caso de propriedade cruzada - que também pode se dar indiretamente, através de franquias de rede ou demais "parcerias" - é o do Grupo Bandeirantes de Comunicação, que chegou a acumular um domínio direto e indireto em 1/4 do dial FM de São Paulo.

Tido como o "grupo de mídia dos sonhos" por boa parte dos consumidores de notícias e entretenimento, o Grupo Bandeirantes andou decepcionando a opinião pública nos últimos anos, seja pelo caso de Bóris Casoy xingando os garis - o que fez seu passado de extremo-direitista vir à tona através da pesquisa de vários blogueiros - , seja pela concentração de poder do GBC no rádio paulista, seja pela recente censura a Luíza Erundina, que comanda um movimento parlamentar de redemocratização no rádio.

Isso sem falar da tendência de showrnalismo light, ou um "jornalismo de frivolidades", da Band News - tipo "pesquisas comprovam que, durante o sono, homens tossem mais do que mulheres" - , ou de notícias tendenciosamente favoráveis aos interesses dos latifundiários.

Na Bahia, um dos mais fortes redutos de mídia coronelista do país, a propriedade cruzada não se manifesta somente pela Rede Bahia. Políticos como Pedro Irujo e Mário Kertèsz também tentaram a propriedade cruzada, sendo este último através de um escandaloso esquema de corrupção.

Mas outros exemplos existem em todo o país, seja de expressão nacional, como as redes com escritórios comerciais em São Paulo, seja a mídia regional, que não deve ser subestimada.

Por isso, a grande mídia em geral cria muitas armadilhas para enganar o público. A dupla transmissão AM/FM do rádio é um bom exemplo disso, sob o eufemismo de "rádios AM + FM". Uma enganação que só prioriza a transmissão em FM, quando o poder tecnocrático ordenar a extinção das AMs, favorecendo os poderosos da comunicação.

Tudo é lindo de se ver numa publicidade que cinicamente fala em "Bota Amizade Nisso". As duas primeiras letras de "amizade", aliás, são traídas pela retransmissão em FM, processo que já influi na desqualificação da Rádio Globo (como já ocorre na Infra Rádio Tupi), que para adaptar-se à frequência tem que adotar elementos de linguagem do que há de pior porém mais rentável da TV aberta e do rádio FM jovem.

A Aemização das FMs, do contrário que certos fanáticos modulados dizem, está acabando até com a linguagem do rádio AM. Os grandes comunicadores são aos poucos substituídos por "comunicadores" que, para os radiófilos "panelinhas" (que dominam os debates nos fóruns e colunas de rádio), são "geniais" justamente porque imitam o estilo do "Pânico na TV".

Para eles, é divertido e engraçado que um locutor de terceiro escalão - paradigma do "novo comunicador" de "rádio AM em FM" - receber uma ligação de uma ouvinte, fazer uma piada imbecil e o locutor dar gargalhada acompanhado dos colegas ao lado dele no estúdio. E, claro, os radiófilos-panelinhas elogiando o locutor nos espaços de mensagens nos sítios sobre rádio na Internet.

Só que isso não tem a menor graça. Porque, neste caso, quem ri por último são os grandes proprietários dos meios de comunicação.

2 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Só tenho duas sugestões: anotar que a Rádio Globo em FM deixou os 89,3 e foi para os 89,5, por determinação da Anatel. Mesmo sem vontade, a Globo deixou em paz o histórico prefixo das saudosas Manchete FM e Nova Brasil FM. Outra: que tal colocar este texto no Preserve o Rádio AM, com os mesmos códigos?

A. F. disse...

Já ia botar mesmo, mas estava ocupado em outros textos. Mas valeu o lembrete.