sábado, 15 de janeiro de 2011

"SERTANEJO UNIVERSITÁRIO" EXPRESSA UM BRASIL CONSERVADOR



A música brega-popularesca é movida pelas teorias da direita brasileira. Se observarmos bem, sua visão de "identidade cultural" segue os mesmos princípios teóricos do economista Roberto Campos. Segue teorias pragmáticas, a partir de releituras dos norte-americanos John Dewey e Richard Rorty. Define a história da MPB através dos conceitos de Francis Fukuyama e seus conceitos de entretenimento, estrelato e sucessos musicais segue qualquer teoria eminentemente neoliberal.

Mas agora a tendência é o positivismo de Auguste Comte. Diante de tendências "mais sofisticadas", como as gerações recentes do "pagode mauricinho" e, agora, todo o "movimento" do dito "sertanejo universitário", a música brega, através dessas gerações, atinge um grau "convincente" - mas não menos discutível - de aperfeiçoamento técnico, o que dá a impressão de "sofisticação artística".

É um aperfeiçoamento técnico que nem os famigerados medalhões da "música sertaneja", do "pagode romântico" e da axé-music, com todo o clima de pompa que conseguem criar nos palcos, conseguiram alcançar. Mas que nem por isso rompe com a tradição domesticadora da música brega, até porque a música brega é perecível, risco que nem os "universitários" estão livres de sofrer.

Isso porque essa "sofisticação" é aparente. Na essência, ela não acontece. O caráter dúbio dos medalhões do brega-popularesco (os mesmos citados dois parágrafos acima) é herdado, que é o de tentar cortejar a MPB (ou apenas o que há de mais inofensivo e manjado nela) e o brega-popularesco ao mesmo tempo. Isso já causa um grave problema para as novas gerações que, mesmo num contexto brega-popularesco, tentam mostrar um trabalho "de qualidade".

Li a entrevista de Lobão no Le Monde Diplomatique Brasil e ele critica aquilo que ele chama de "paumolecência" da música atual. É certo que ele ataca a MPB, e que nem o grande Chico Buarque escapa dos ataques do roqueiro, mas Lobão também reprova os chamados ritmos "universitários" do brega-popularesco, pelas mesmas acusações de acomodação musical.

Ou seja, se um Chico Buarque, famoso por suas críticas contundentes ao regime militar, capazes de fazer um Paulo César Araújo morder os beiços de inveja (ele tentou alterar a história da música brasileira como uma criança brinca com massa de modelar), é acusado por um roqueiro de ser acomodado, imagine então os "sertanejos universitários" que puxam toda uma etapa pretensamente sofisticada da Música de Cabresto Brasileira?

Afinal, não adianta fazer "músicas lindas" ou ter um conhecimento enciclopédico da "música pop", agradar Renato Teixeira, Ricardo Cravo Alvim e Zuza Homem de Melo ou falar firme e seguro nas entrevistas. Os breganejos veteranos já tentaram tudo isso, mas nem por isso enobreceram sua reputação.

É certo que uma intelectualidade etnocêntrica e corporativista, vai apelar. Sua visão de "justiça social" é a de incluir os pobres no consumo, de jogar a população de Rio das Pedras e Cidade de Deus para circular no Barra Shopping ou de incluir a periferia na plateia do Fausto Silva, sem que esse povo melhore realmente sua qualidade de vida.

Essa intelectualidade, temerosa de evitar processos trabalhistas de suas empregadas domésticas ou diaristas, que só viu os sertões e as periferias em documentários na TV paga, mas que escrevem textos que são só elogios pela maioria dos sítios que os citam, talvez num impulso provocador tentem dizer mais uma vez que o brega-popularesco é a "verdadeira MPB".

Ou, sendo isso impossível (sem que haja uma reação contrária a tal declaração), talvez esses intelectuais tentem mais uma vez desqualificar o termo MPB, choramingando que ela se tornou um termo "elitista", "preconceituoso" e "discriminatório". Reclamam que a Música Popular Brasileira se transformou numa Academia Brasileira de Letras musical. Mas, no fundo, desejassem que a MPB se transformasse na "casa da Mãe Joana", onde cabe até mulher-fruta dentro.

Mas enquanto essa intelectualidade fala mal da MPB porque ela ficou "burguesa" - sobretudo através das manobras mercadológicas exercidas entre 1979 e 1990, que fez a música brasileira até então de qualidade "brincar de viver" em álbuns burocráticos - , é justamente essa fase da MPB que inspira os ídolos bregas e neo-bregas, a partir da tutela de Sullivan & Massadas e de todo o "sertanejo" e "pagode romântico" lançado a partir de 1990, a lapidar suas carreiras.

Afinal, trata-se de uma conduta conservadora. É o Brasil conservador que expressa todo o brega-popularesco, principalmente os "sertanejos universitários" na sua assepsia estético-ideológica que só leva às últimas consequências o que já estava explícito no "pagode romântico", no "sertanejo", na axé-music, no "funk melody" e outras tendências brega-popularescas que contrapõem o grotesco explícito do "funk carioca", arrocha, forró-brega, tecnobrega e do "brega de raiz" com a "sofisticação" de outros estilos brega-popularescos reservados a "toda a família".

Por isso mesmo, o "sertanejo universitário" não convence como movimento cultural. É um modismo. Parece "sofisticado" à primeira vista, sobretudo reinando soberano nas telas da Rede Globo. Mas perece, porque, como toda tendência brega-popularesca, é movida pelo plugue da grande mídia.

Afinal, não adianta conhecer cultura pop, saber os sucessos do R.E.M., saber quem é Bob Dylan, agradar Almir Sater e Renato Teixeira, Ricardo Cravo Alvim e Zuza Homem de Melo, ter apelo jovem e o escambau. Tudo isso se perecerá, porque não adianta bancar o sabidão. Isso é pedantismo. Saber um pouco, e talvez um pouco mais, de forma tendenciosa.

A MPB autêntica, que não vive de lotadores de plateias de micaretas, vaquejadas, "bailes funk", programas de auditórios, feiras de agronegócio, possui sabedoria porque é livre. É livre para fazer arte de qualidade, sem esperar o sucesso de cinco CDs. É livre para expressar conhecimentos, sem esperar que os erros de modismos passados lhe digam o que deve fazer ou aprender.

A MPB autêntica não busca conquistar a simpatia de especialistas de MPB. Eles é que naturalmente a apreciam. Não busca conquistar a simpatia de nomes como Renato Teixeira e Jorge Aragão, porque se iguala naturalmente a eles. Não apela para a esquizofrenia de usar pompa e luxo nos palcos, muita técnica nos discos e DVDs, muito marketing, para se passar por "cultura popular séria". Até porque não confunde simplicidade com extravagância.

A MPB autêntica não é o brega-popularesco. Nem seus cantores, duplas e grupos mais "sofisticados". A MPB autêntica não rola nas "rádios do povão", expressões do coronelismo político-midiático. E nela não tem esse negócio de Roberto Campos, Francis Fukuyama nem Auguste Comte.

Não é à toa que o "sertanejo universitário", longe de ser o mais novo apelo do brega-popularesco para entrar no clube da MPB, representa o ocaso de toda uma linhagem da música brega e de todos os seus derivados que compõem os "sucessos do povão". E, como tantas outras "novidades" popularescas, soará mofada e datada no decorrer dos tempos.

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