sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

PORQUE A MÍDIA ESTÁ CONTRA O "FREGUÊS"?




A obsessão da mídia grande em substituir a palavra "freguês" por "cliente", algo já alertado com sabedoria pelo veterano jornalista Marcos de Castro no livro A Imprensa e o Caos na Ortografia, é uma doença que marca o vocabulário de poder da imprensa televisiva.

Essa mania de chamar até quem compra salgadinho na rua de "cliente", no esforço vão de condenar a simpática palavra "freguês" ao desuso, inclui pretensiosismo linguístico, pedantismo, gramática pomposa, numa pretensão que, em várias vezes, Marcos de Castro demonstrou completa indignação.

Para ele, a linguagem brilha mais quando é mais simples e menos pretensiosa.

Imagine a palavra "freguês", com o derivativo "freguesia". Expressões tão bonitas, palavras que soavam feito música quando lançadas muito antigamente, sobretudo quando o Brasil passava por um processo de modernização urbana, lá pelo século XIX.

Era maravilhoso. Um indivíduo criava um estabelecimento comercial, seja uma loja ou armazém, e aqueles que utilizavam de seus serviços e compravam seus produtos tornavam-se seus fregueses. Era bonito dizer "tenho meu comércio e meus fregueses. Tenho minha freguesia".

Mas hoje até as borracharias não falam mais em "freguês". Agora todo mundo é "cliente". É muita pretensão, e a suposta sofisticação semântica em nada ajuda na nossa economia, e muito pouco contribui em promover o respeito ao consumidor brasileiro.

Muito pelo contrário. Diante dos problemas existentes no comércio, os fregueses são "promovidos" a "clientes" como tentativa de minimizar seu sofrimento. Mas tudo isso é inútil.

Imaginemos um restaurante que tanto dá ênfase em tratar seus fregueses como "clientes", mas que não cumpre as normas de higiene no preparo de seu cardápio. De que adianta toda uma pompa, se o restaurante que "não tem fregueses, mas clientes" conta até com uma família de baratas ou então um enorme camundongo morando sossegados na cozinha? E, talvez, com quarto próprio e tratamento vip cinco estrelas?

Em outros tempos, e não muito antigamente, mas há cerca de 50 anos atrás, o Brasil era menos pretensioso, mas era mais decente e coerente. O pós-64 emburreceu o Brasil, mergulhando-o num pretensiosismo de ser "primeiro mundo" de forma forçada e caricata. Condenava-se a reforma agrária "na marra", mas a obsessão de parecer "primeiro mundo na marra" foi estimulada.

Mas no país do "stop queda" e da gíria "balada", chamar freguês de "cliente", no entanto, dificilmente irá diminuir as denúncias do Procon. Nem todo mundo é imbecil neste país.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Será que, lá na Alemanha, o pessoal fala "Kunden" (freguês) em vez de "Auftraggeber" (cliente) ou é o contrário?