quinta-feira, 4 de novembro de 2010

INTELECTUAIS PRÓ-BREGA ENVERGONHARIAM MESTRES NO EXTERIOR


GUY DEBORD foi um dos críticos da sociedade do espetáculo.

Imagine um prestigiado intelectual estrangeiro. Qualquer um, desde que de esquerda e inclinado a pensar a sociedade de forma crítica.

De repente, esse intelectual vem ao Brasil e é apresentado para o jornalista Pedro Alexandre Sanches e o antropólogo Hermano Vianna, que recebem o intelectual num conhecido hotel do Rio de Janeiro. E levam o intelectual para um baile funk.

Constrangido, o intelectual - que, para surpresa de Sanches e Vianna, é um feroz crítico da sociedade do espetáculo - pergunta aos dois, sem disfarçar sua indignação?

- What the hell this bullshit is? (Que bosta significa isso?) - pergunta o intelectual, depois de ver uma popozuda empinando os glúteos logo na cara do estrangeiro.

- It's a ethnologic ritual. (É um ritual etnológico) - diz Hermano Vianna. - Yeah Pedro? (Né, Pedro)

- Yeah, sir! (Sim, senhor!) - diz Pedro Alexandre Sanches para o intelectual. - It's a very social movement. That's the poor people mobilization. (É um grande movimento social. É a mobilização do povo pobre)

Tal declaração envergonharia a intelectualidade estrangeira, cuja tradição de senso crítico é mais consolidada.

Mas aqui, o que reina é a panelinha intelectual que prefere reafirmar a mesmice do espetáculo da "cultura" brega-popularesca.

É a panelinha acadêmica que defende a mesma mediocridade musical dominante, com os mesmos textos nervosos, defendendo do vovô Waldick Soriano aos netinhos Créu e Gaby Amarantos.

Os mesmos textos nervosos, com argumentações confusas, sempre nervosas, desesperadas, como se estivessem com peso na consciência em defender músicas de gosto muito duvidoso que rolam nas rádios FM e na TV aberta, sob o rótulo de "verdadeira cultura popular". Sempre os lotadores de plateias, os vendedores de discos, os emplacadores de mídia!

A coisa chega ao ponto da intelectualidade valorizar um documentário, ensaio ou artigo por questões corporativas ou de "grife".

O que dizer do livro Eu Não Sou Cachorro, Não, um festival de meias-verdades que transformou Paulo César Araujo num astro dentro do corpo docente da PUC-RJ?

Ou o documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, cujo maior mérito está na técnica da cineasta Denise Garcia, que tentou promover o grotesco do "funk" num discurso palatável, dentro da perspectiva da "periferia legal", do "orgulho de ser pobre"?

Ou as iniciativas de Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches em misturar alhos com bugalhos, lançando livros festejados, ensaios tendenciosos e tentando fugir da sombra da grande mídia que os acolhe ou acolheu, como a Rede Globo e a Folha de São Paulo?

A intelectualidade comemora, festeja com tais exemplos. No entanto, a intelectualidade do exterior, se ver esse espetáculo da apologia ao grotesco, ficará constrangida diante da falta do senso crítico na produção dos cientistas sociais e jornalistas brasileiros.

Evocando Guy Debord, um dos maiores críticos da sociedade do espetáculo, a intelectualidade etnocêntrica que defende o brega-popularesco é um espetáculo à parte. Um espetáculo a ser contestado com cautela por outros intelectuais, mais sérios.