quarta-feira, 20 de outubro de 2010

REVISTA ÉPOCA CLASSIFICA SAMBA AUTÊNTICO COMO "ELITISTA"



Reportagem da revista Época mostra até que ponto chegamos.

O samba autêntico, que era produzido em grande escala nos nossos morros, agora é privilégio das elites econômicas.

Citando um estudo da USP, a reportagem e o estudo (não esqueçamos que a elite intelectual da USP gerou um padrão ideológico que produziu tanto José Serra quanto Pedro Alexandre Sanches) deixam implícito de que reclamam da baixa reputação que as ditas formas comerciais do samba possuem entre a "intelectualidade" (não aquela condescendente de Pedro Sanches e companhia, mas aquela de José Ramos Tinhorão, Sérgio Cabral pai e outros).

Em toda a abordagem, há também uma tentativa sutil de comparar o sambrega (definido sob o eufemístico crédito de samba comercial dos anos 1990) com cantores de serestas como Cauby Peixoto e Nora Ney e os "maus sambistas" dos anos 20, 30 e 40.

A preocupação em tentar reabilitar o sambrega ainda usa como pretexto o fato de que seus ídolos são rejeitados porque adotam guitarra elétrica e outros elementos "estranhos", como a diluição da soul music vista nos ídolos sambregas.

A reportagem ainda cria, com alguma sutileza, um "balaio de gatos" onde se misturam sambistas autênticos como Zeca Pagodinho e Fundo de Quintal e os grupos de sambrega como Exaltasamba.

Fica subentendido que Época quer reservar o samba autêntico, de Paulinho da Viola e Martinho da Vila - vinculados à uma tradição de raízes musicais do samba - para um público mais elitizado (classe média, nível superior etc), enquanto reserva às classes pobres, criadoras originais desse samba (e das quais vieram os citados Paulinho e Martinho), uma forma diluída de samba que rola nas rádios FM popularescas.

Em outras palavras, o povo sempre fica com a cultura do "mau gosto", enquanto a cultura de qualidade é privilégio exclusivo das classes mais abastadas.

Vale lembrar que a revista Época é um dos veículos das Organizações Globo, uma das mais poderosas corporações da velha grande mídia brasileira. E difunde da mesma forma as mesmas abordagens etnocêntricas sobre cultura popular que vemos em Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos, Bia Abramo, Rodrigo Faour e outros.

NO BRASIL, O QUE VALE É "CARREGAR CASAMENTO"



Nos EUA, as diferenças irreconciliáveis são motivo decisivo para muitas relações amorosas e até mesmo casamentos longos se dissolverem de forma irreversível.

No Brasil, porém, são as diferenças irreconciliáveis o fator de consolidação de casamentos ou de estabelecimento de uniões arbitrárias e sem amor, mas favorecidas pelas circunstâncias. Casar ou namorar por pura afinidade é algo muito raro em nosso país.

Nas classes mais abastadas, há o pretexto de "segurança financeira" e "contatos sociais influentes", para não dizer a supremacia machista do homem rico, maduro e sisudo.

Nas classes inferiores, há outros pretextos, mais politicamente corretos, de "convívio das diferenças", "fim dos preconceitos" e até da cínica e irreal "magia do amor".

É lamentável, mas casais afins no Brasil são muito, muito raros (pelo menos meus pais fazem parte dessa minoria).

Na maioria, mesmo, a regra é "carregar casamento", feito um fardo pesado, mesmo. Tudo só para tirar vantagem, em detrimento do prazer e da evolução espiritual.

NOVAMENTE, DE MPB SÓ O ZECA PAGODINHO



Mais uma vez, um evento comemorativo de uma conhecida rede de supermercados do Rio de Janeiro (dica: uma de suas mais recentes filiais fica na antiga garagem da SERVE, em Niterói), com quatro cantores, só um deles de fato faz parte da MPB autêntica: o sambista Zeca Pagodinho.

Novamente ele, que foi o único também na edição do ano passado do mesmo evento.

Os outros cantores são apenas estrelas do brega-popularesco, ainda que seja uma cantora de axé-music erroneamente considerada "rainha da MPB" (título que, no entanto, seguramente vai para Marisa Monte) ou um veterano cantor brega - pai de um ator e cantor emo - que também é erroneamente creditado como "cantor de MPB", quando sua música não passa de um brega mais luxuoso, clone dos momentos menos inspirados de Roberto Carlos. Dica, ele cantou uma música de Márcio Greick que fez o autor deste blog chorar copiosamente, bebezinho, lá pelos idos de 1971 em Florianópolis.

Para completar, há o cantor breganejo que perdeu o irmão, e certamente também não faz parte da MPB autêntica, por mais que seus adeptos ou fanáticos de toda ordem (da intelectualidade etnocêntrica aos talifãs) tentem insistir. É até engraçado que ele agora reclame dos antigos discos da dupla, acusados de malfeitos, mas foram eles que trouxeram os sucessos que a tornaram mais famosa há 20 anos atrás. É cuspir no prato que comeu.

Pois, afinal, não adianta insistir o contrário. O único, único mesmo, da MPB autêntica, com P maiúsculo de Popular mas também com M maiúsculo de música, é Zeca Pagodinho. Que apenas por mera coincidência aparece nas mesmas rádios que os lotadores de plateias, mas seu trabalho é realmente consistente, afinal Zeca é um grande discípulo de Noel Rosa, e é um dos poucos que mantém, na prática, o samba como patrimônio cultural da humanidade.

Quem for esperto só vai para a festa de aniversário do tal supermercado para ver o Zeca. O resto não faz falta, só serve para os muito fanáticos, como os talifãs do Abreganistão.

PEDANTISMO BREGA-POPULARESCO: A AJUDINHA DOS ARRANJADORES



Ninguém nasce sabendo, é verdade. Até para aprender alguma coisa, comete-se erros, até poder acertar.

Mas, na mediocridade musical brasileira, o que vemos é gente errando durante cinco, seis, dez anos, transformando seus erros musicais em milhões de cópias vendidas, e ainda chegam aos vinte anos de carreira fonográfica como se ainda estivessem no começo do aprendizado.

Não vamos fingir que a música brega-popularesca de hoje é genial. O pessoal tem o direito de curtir o cantor sambrega ou a dupla breganeja que quiser, mas não tem moral de dar definições irreais para eles nem ficar espinafrando quem não concorda com o som deles.

Há uma diferença muito grande, um abismo que separa a MPB que se fazia nos anos 40, 50, 60 e 70 e esse brega-popularesco que hoje domina rádios e TVs. Simplesmente não podemos fazer de conta que este é continuidade daquele, que tudo está bem, porque não está.

O pedantismo brega-popularesco apenas tenta lapidar os ídolos neo-bregas com tecnologia de ponta, marketing arrojado, vestuário sofisticado, e, musicalmente, tenta-se um paliativo para disfarçar o máximo possível a mediocridade e a falta de criatividade.

Com o êxodo dos medalhões da MPB das grandes gravadoras, a geração de ídolos neo-bregas dos anos 90 foi brincar de "MPB" ocupando exatamente o papel da "MPB pasteurizada" que seus verdadeiros artistas não estavam mais interessados em desempenhar.

Os ídolos brega-popularescos, por serem mais maleáveis, não dotarem de uma visão crítica da nossa realidade, por serem obedientes para fazerem o papel que a indústria determinar para eles, foram rapidamente adotados pelas grandes gravadoras para seu simulacro de música brasileira.

Aí entra o arranjador de plantão. A música daquela dupla breganeja de repente é "bem bonita", com acordes poéticos de violão, seção de cordas e tudo, apesar das vozes esganiçadas da dupla? É por causa do arranjador de plantão, que faz o seu trabalho porque é contratado, cumpre ordens de executivos para transformar aquela dupla breganeja em "sofisticada".

E o cantor sambrega? Ele fazia um som meio Waldick Soriano, meio Odair José, com algum ritmo de samba, e hoje quer bancar o "sofisticado", apesar de sua voz fanha? Entra o arranjador de plantão. Esperto, o cantor sambrega até tenta inserir ele mesmo como co-autor dos arranjos, mas na verdade o cantor sambrega apenas pediu que o arranjador faça algo sofisticado e depois mostre o resultado.

Se creditarmos o cantor sambrega como co-arranjador, só porque pediu isso e aquilo para o arranjador de fato, vamos ter que acreditar também que todo freguês de restaurante cozinhou o cardápio que lhe é servido. Ou seja, é só eu pedir para um garçom um bife bem passado com cebola e alho e viro logo um chef de cozinha, parceiro do cozinheiro propriamente dito.

O grande problema é esse. Ninguém pensou antes se sua breguice era de risco ou não. É sempre assim com os medíocres. Primeiro eles fazem a sua porcaria, da forma mais patética possível, e, cinco ou dez álbuns depois, quer se infiltrar em qualquer tributo ou especial sobre MPB, pegando carona em tudo que é cover, e se achar o "gênio".

Música brasileira é produção de conhecimento. Mas infelizmente ninguém valoriza a função social do artista. Só valoriza os lotadores de plateias. Quem lotar plateias em menos de uma hora é "genial". Quem levar rádios FM e programas de TV aberta ao topo do Ibope, é "genial". Quem vender CDs antes deles chegarem às lojas é "genial".

Não há mais responsabilidade social. Nem ética, nem estética, nem artística, nem cultural. O cantor faz uma porcaria num dia, no outro faz uma cinebiografia sobre ele mesmo. O cantor fala besteira, no dia seguinte está na plateia vip do Teatro Municipal de São Paulo. O cantor faz músicas ruins, sub-Waldicks em ritmo de moda de viola ou de samba de gafieira, cinco anos depois está no Viola Minha Viola e no Samba Social Clube usurpando covers.

E é uma pena que ainda tem gente arrogante que não gosta que falemos mal desses cantores. Só que esses arrogantes estabelecem seu preço, porque eles acabam criando confusão até para os outros fãs desses mesmos ídolos.

E são esses talifãs que estragam todo o verniz de sofisticação que os ídolos brega-popularescos tentam manter. E que não passa de pura farsa, porque por trás desse "alto astral" e dessa "compostura elevada" dos cantores neo-bregas, há membros de seus fãs-clubes violentos, intolerantes e arrogantes. Vão se dar mal.